Por Geovana Rosa Goulart (@geovanarosa_), Gustavo de Vasconcelos Monteiro (@gmonteiro1910) e João Pedro Martins Rodrigues (@joao_martins.202)*
FICHA TÉCNICA
Título: Heated Rivalry
Título em Português: Rivalidade Ardente
Ano de produção: 2025
Criação: Rachel Reid (série literária Game Changers)
Direção: Jacob Tierney
Duração: 50 minutos por episódio (média)
Classificação: 16 anos
Gênero: Romance, Drama e Esporte
Países de Origem: Canadá
Onde assistir: Crave (Canadá) / HBO Max
Lançada em 2025, a série Heated Rivalry conquistou o público mundial com sua narrativa envolvente, adaptando a história introduzida no universo literário por Rachel Reid na saga Game Changers, composta por sete livros. Com estreia em 28 de novembro de 2025 no Canadá (Crave) e nos Estados Unidos (HBO Max), a produção embarcou na crescente onda de adaptações literárias aclamadas pelos fãs. O sucesso da obra é evidenciado pela nota de 8,7/10 no IMDb e pela recepção amplamente positiva da audiência, destacando-se pelo baixíssimo volume de críticas negativas.
Heated Rivalry acompanha Shane Hollander (Hudson Williams) e Ilya Rozanov (Connor Storrie), estrelas da Major League Hockey (a liga principal de hóquei no universo da série). A dinâmica entre os dois é marcada por uma intensa rivalidade pelo posto de melhor jogador do torneio, que serve de pano de fundo para um romance secreto desenvolvido ao longo de oito anos de narrativa. Canadense e filho único, Hollander defende o Montreal Metros. Visto como o “queridinho” nacional do esporte, ele foi moldado para ser um atleta exemplar, dono de uma personalidade reservada, focada e propensa à ansiedade. Em contrapartida, Ilya Rozanov é um prodígio russo determinado a honrar sua pátria no ringue, indiferente à pressão da mídia norte-americana. Embora projete uma imagem fria e arrogante para a imprensa, longe dos holofotes ele se revela um homem protetor e observador, marcado por um sarcasmo afiado e extrema autoconfiança.

De inimigos a amantes: uma jornada de pertencimento e estabilidade
A trama constrói a relação dos protagonistas baseada no clássico conceito de enemies to lovers (de inimigos a amantes). O romance tem início em uma rivalidade real, alimentada pela mídia desde a categoria de base. Influenciados pelas imagens desenvolvidas pela própria imprensa, os personagens acreditam se odiar legitimamente: Shane enxerga Ilya como alguém arrogante, enquanto Ilya vê Shane como um “robô” mimado.
No entanto, ao terem mais contato, essa raiva acumulada transforma-se em atração física e intensa tensão sexual. O primeiro envolvimento entre eles funciona como uma extensão da própria competição, levando-os a fingir que são apenas “válvulas de escape físicas” um do outro. Esse mecanismo de defesa faz com que Shane reprima sua sexualidade — especialmente por ser sua primeira experiência com um homem —, enquanto Ilya simula um total desinteresse emocional. Após anos de envolvimento, isolados pelo peso da fama e pela solidão do esporte, eles encontram um refúgio real um no outro. O “inimigo” torna-se um pilar de confiança sincera, em uma dinâmica onde a paixão e a rivalidade coexistem sem se anular.

Ao sustentar esse romance secreto, os jogadores enfrentam diversos dilemas pessoais com suas famílias, carreiras e também com sua sexualidade, principalmente no meio do hóquei, um esporte dominado pela masculinidade hegemônica. A partir de Connell (1995), é possível dizer que a masculinidade hegemônica é um ideal normativo que orienta expectativas sobre o comportamento masculino e estabelece quais expressões de gênero são socialmente aceitas, especialmente em espaços marcados pela valorização da virilidade, como o esporte. Shane se identifica como gay, porém passa anos em profunda negação por achar que ser um homem bissexual o deixaria mais próximo da aceitação de todos. Esse conflito bate de frente com o seu medo de perder o respeito dos companheiros de equipe e o carinho da torcida, o que faz Shane namorar mulheres publicamente para manter as aparências e esconder o seu segredo. Já Ilya tem uma postura mais pragmática e desapegada quanto à sua sexualidade, apoiando-se em sua fama de bad boy e em seu sarcasmo como escudo, principalmente por saber que a homofobia institucionalizada em seu país natal é perigosa para ele e para a segurança de sua família, que ainda vive lá.

A história usa o romance dos dois para escancarar o preconceito institucional da liga. Nenhum jogador quer ser o primeiro a “sair do armário” porque teme o boicote interno, que pode se manifestar ao deixar de receber passes no gelo ou ao ser isolado nos vestiários; a perda de contratos e o cancelamento de patrocínios milionários; e a hostilidade do público, que pode reagir com gritos homofóbicos nas arenas e mensagens ofensivas nas redes sociais. Para Shane e Ilya, amar o maior rival já seria difícil. Amar outro homem em um esporte que finge que pessoas LGBTQIA+ não existem transforma o relacionamento deles em um ato de resistência diário.
Contexto histórico da masculinidade esportiva e reflexos na trama
Para um grupo significativo de fãs do esporte, masculinidade e heterossexualidade aparecem como dimensões indissociáveis, restringindo outras formas de vivenciar as identidades masculinas. Bandeira e Seffner (2013) explicam que o esporte constitui um espaço privilegiado de produção e reafirmação da masculinidade hegemônica, no qual comportamentos que escapam ao modelo heteronormativo frequentemente são alvo de vigilância, discriminação e violência simbólica. Na série, esse processo se manifesta na dificuldade enfrentada pelos protagonistas para viverem sua sexualidade de forma livre, enquanto personagens heterossexuais não encontram os mesmos obstáculos para demonstrar publicamente seus relacionamentos.

Esse mecanismo também se evidencia na recepção da obra pelo público. Durante o lançamento da série, diversos comentários homofóbicos circularam nas redes sociais: “Elenco de ‘Rivalidade Ardente’ rebate ataques homofóbicos após série virar fenômeno no streaming”, e reflete a resistência de parte dos torcedores à representação de homens gays em um ambiente historicamente associado à virilidade e à masculinidade hegemônica. Na ocasião, a equipe de produção canadense da série respondeu a série de ataques: “Não se considere fã se você compartilha comentários racistas, homofóbicos, bifóbicos, misóginos, etaristas, capacitistas, parassociais e intolerantes de qualquer tipo”. “Nenhum de nós precisa do seu ‘amor’ odioso.”, disse o ator Hudson Williams.
Fica evidente que os impactos da narrativa extrapolam a trama principal, reverberando também nas histórias secundárias e, sobretudo, na recepção da série pelo público. O diretor da série, Jacob Tierney, amplia o comentário sobre a recepção negativa com determinada parcela do público. Em entrevista a um podcast, o diretor alertou para os comentários negativos direcionados aos atores e aos personagens. Conforme observam Bandeira e Seffner (2013), a homofobia no esporte atua como um dispositivo de controle das masculinidades, reforçando normas de gênero e punindo aqueles que desafiam o padrão heteronormativo. Nesse contexto, a reação negativa à série extrapola a ficção e evidencia como essas dinâmicas permanecem presentes na cultura esportiva contemporânea.
Um futuro fora do “armário”
A história de Scott Hunter e Kip Grady em “Heated Rivalry” vai muito além de um simples subtrama. Ela funciona como o coração emocional da série e oferece um contraponto essencial ao que acontece com os protagonistas. Enquanto Shane e Ilya passam quase uma década escondendo o relacionamento, Scott e Kip mostram ao público um caminho diferente.
Essa trama foi cuidadosamente construída. No episódio 3, intitulado “Hunter”, a série desvia brevemente o foco dos protagonistas para aprofundar o universo dos personagens secundários. O ator François Arnaud, que interpreta Scott, revelou que o diretor Jacob Tierney criou Scott e Kip para serem “o pingente emocional” de Shane e Ilya ou seja, eles representam tudo aquilo que os protagonistas não conseguem alcançar por causa do medo. Ao contrário das cenas dos protagonistas, que são carregadas de repressão, a intimidade entre Scott e Kip foi pensada para transmitir “liberdade e alegria”.

O momento mais marcante acontece no episódio 5, quando Scott, logo após vencer o campeonato, beija Kip em pleno ringue, diante das câmeras e da torcida. Esse beijo público foi filmado no último dia de gravações e tem um peso enorme. Não se trata apenas de um gesto romântico, . é a recusa em continuar representando o papel de homem inabalável que o esporte exige. Durante todo o relacionamento, Scott sempre exigiu discrição e privacidade. Ao se expor daquela forma, ele destrói simbolicamente o drama em que vivia.

Esse ato de coragem não fica restrito à própria história de Scott. Ele serve como um impulso para a trama principal: é vendo a atitude de Scott que Ilya finalmente se sente encorajado a aceitar o convite de Shane para passarem o verão juntos. Ao se tornar o primeiro jogador de hóquei a se assumir publicamente, Scott abre caminho para que outros atletas, como Shane e Ilya, comecem a imaginar um futuro onde o amor não precise ser escondido.
Em contraste com o relacionamento secreto e sofrido dos protagonistas, Scott e Kip representam a possibilidade de que a verdade, mesmo com todos os riscos, é o único caminho para uma vida realmente livre. A série nos mostra, assim, que a masculinidade não precisa ser construída sobre o silêncio e o medo, ela pode ser redefinida por atos de vulnerabilidade e coragem. Ao contrapor a masculinidade hegemônica a série Heated Rivalry constrói em seus personagens, sejam eles protagonistas ou coadjuvantes, formas de ampliar a discussão e apresentar perspectivas diferentes de masculinidade . Não somente no desenvolvimento de sua trama principal, mas o enredo em todos os seus desdobramentos propõe uma construção subversiva nos conceitos de masculinidade permeados ao esporte e a forma como se atrela os princípios citados anteriormente com as contradições apresentadas pelos fãs do esporte (assim como a recepção de mídia em algum nível).
REFERÊNCIAS
CONNELL, R. W. Masculinities. Berkeley: University of California Press, 1995.
BANDEIRA, Gustavo Andrada; SEFFNER, Fernando. Futebol, gênero, masculinidade e homofobia: um jogo dentro do jogo. Espaço Plural, Marechal Cândido Rondon, v. 14, n. 29, p. 246-270, 2013.
* Esta resenha foi produzida como atividade da disciplina Jornalismo esportivo, gênero e representação midiática ofertada na UMFG no semestre 1 de 2026 pela doutoranda em Comunicação Social Flaviane Rodrigues Eugênio.

