Por Carolina Freire, Damarah Lee, Emanuel Altair e Julia Lanna*
FICHA TÉCNICA:
Título: Gabi: Destinada a Brilhar, Construída para Inspirar
Ano de produção: 2025
Produção: VolleyBall World TV e Icarus Sports
Classificação: Livre
Gênero: Documentário
País de origem: EUA
Disponível em: VolleyBall World TV
Desde a década de 1980, o voleibol feminino brasileiro ocupa um lugar de destaque na mídia esportiva. No processo de profissionalização da modalidade, a construção das chamadas “Musas do Vôlei” constituiu uma importante estratégia de marketing para ampliar a visibilidade da modalidade, associando o desempenho esportivo à feminilidade e à beleza das atletas (Moreira; Ferreira; Marchi Júnior, 2009). Conforme demonstram os autores, a estética tornou-se um capital simbólico fundamental para inserir o voleibol feminino no mercado esportivo e midiático, contribuindo para sua popularização, mas também reforçando determinados padrões de gênero que marcariam a cobertura da modalidade por muitos anos.
Passadas mais de quatro décadas, observa-se uma reconfiguração dessa representação. Embora a imagem pública continue sendo um elemento importante na construção das atletas, figuras como Gabi Guimarães passam a ocupar centralidade por aspectos que extrapolam a estética, como liderança, preparação física e mental, profissionalismo, disciplina e capacidade de inspirar novas gerações. O documentário Gabi: Destinada a Brilhar, Construída para Inspirar evidencia essa mudança ao construir uma narrativa que privilegia os bastidores da alta performance e apresenta a atleta como referência esportiva e humana, deslocando o foco da aparência para a excelência, a resiliência e o impacto social de sua trajetória. Nesse sentido, Gabi representa uma transformação na forma como as atletas são narradas pela mídia: se as “Musas do Vôlei” foram construídas a partir da valorização da feminilidade como estratégia de legitimação da modalidade, a centralidade da atleta contemporânea está ancorada sobretudo em sua performance, liderança e capacidade de mobilizar públicos por sua trajetória esportiva.
O vôlei como um projeto de vida
No primeiro episódio, o documentário apresenta Gabi Guimarães como alguém que sempre enxergou o esporte não apenas como um sonho, mas como um projeto de vida. Sua passagem por modalidades como natação e tênis antes de se consolidar no vôlei evidencia uma busca precoce pela alta performance, característica que acompanha toda a sua trajetória. A narrativa enfatiza constantemente a disciplina, o cuidado com o corpo e a saúde mental, reforçando uma visão contemporânea do esporte de rendimento, na qual o sucesso não depende apenas do talento, mas também da capacidade de administrar pressões físicas e emocionais. Ao mesmo tempo, o episódio constrói uma imagem bastante inspiradora da atleta, destacando suas conquistas e dedicação, mas que poderia se aprofundar melhor em possíveis dificuldades, conflitos ou renúncias que costumam acompanhar carreiras de alto nível como o de Gabi Gimarães.
A mudança para Istambul representa um dos momentos mais significativos do episódio, simbolizando a busca de Gabi por desafios que extrapolam o reconhecimento já conquistado no Brasil. Sua fala sobre a necessidade de provar seu valor em um novo contexto evidencia como o esporte profissional exige reinvenção constante, mesmo para atletas consagradas. O depoimento de Isabelle Haak, colega e amiga da jogadora, contribui para reforçar a imagem de Gabi como uma liderança positiva e uma referência dentro e fora das quadras. Dessa forma, o episódio consegue apresentar uma personagem complexa, cuja busca por excelência está associada não apenas à vitória, mas também ao desejo de influenciar e abrir caminhos para outras atletas.

A produção aprofunda também a discussão sobre o que existe por trás da performance de uma atleta de elite. Mostrando treinos e partidas, a narrativa evidencia a rotina de cuidados que Gabi construiu para sustentar seu alto rendimento, incluindo alimentação equilibrada, sono adequado, terapia, yoga e preparação física constante. Ao destacar esses hábitos, o documentário reforça uma visão cada vez mais presente no esporte contemporâneo: o desempenho não depende apenas da capacidade técnica, mas também do equilíbrio entre corpo e mente. No entanto, a insistência na busca pela melhor versão de si mesma também levanta reflexões sobre as exigências do esporte profissional, onde a excelência parece exigir vigilância constante sobre todos os aspectos da vida.
Os depoimentos de Bernardinho, treinador, e Isabelle Haak ajudam a ampliar a compreensão sobre quem é Gabi além das quadras. Enquanto o técnico ressalta sua determinação e comprometimento, a colega destaca a busca incessante da atleta por evolução, afirmando que aprende diariamente com sua postura e dedicação. Esses relatos reforçam a imagem de uma jogadora extremamente disciplinada, mas também revelam como essa mentalidade de crescimento contínuo se tornou parte de sua identidade. Ao mesmo tempo, o episódio convida o espectador a refletir sobre os limites dessa cobrança permanente por desempenho, mostrando que a construção de uma atleta de alto nível envolve não apenas talento e esforço, mas também uma constante negociação entre ambição, bem-estar e qualidade de vida.
Para além das quadras: o apoio da família, amigos e fãs
Mais do que destacar a disciplina da carreira, o documentário mostra como a família e os amigos são elementos fundamentais na vida de Gabi. A narrativa evidencia que essa rede de apoio facilita sua trajetória e que a atleta busca aproveitar o tempo livre, seja nos intervalos entre campeonatos seja durante as férias, para estar com as pessoas que ama. É nesse convívio que ela encontra seu momento de descanso e pode ser apenas Gabi, como filha e amiga, e não apenas Gabi Guimarães, jogadora de vôlei de alta performance.
Além disso, fica evidente o esforço de Gabi em manter uma relação próxima com seus fãs, reconhecendo-os como parte fundamental da experiência esportiva. Essa postura contribui para construir uma imagem mais acessível da atleta, reduzindo o distanciamento frequentemente associado aos esportistas de alto rendimento. Dessa forma, Gabi torna-se uma inspiração não apenas por suas conquistas dentro de quadra, mas também pela maneira como conduz sua trajetória fora dela, marcada pela simplicidade e pela valorização das pessoas que acompanham sua carreira.
Essa característica também se manifesta em sua disposição permanente para aprender e evoluir. Um exemplo apresentado no documentário ocorre quando seu treinador identifica nela um perfil de liderança, atributo que, até então, a própria atleta não reconhecia em si. A partir desse momento, Gabi passa a desenvolver conscientemente essa competência, buscando compreender como motivar suas companheiras e contribuir para o fortalecimento coletivo da equipe. Esse processo evidencia que sua liderança não é retratada como uma característica inata, mas como uma habilidade construída por meio do aprendizado contínuo, da escuta e do compromisso com o grupo. Ao atribuir parte de seu desempenho ao trabalho coletivo, a atleta reforça uma concepção de sucesso baseada na colaboração e não apenas nos méritos individuais.
O presente de uma campeã
O quinto episódio do documentário concentra-se no Conegliano, equipe que Gabi defende atualmente. Ao longo do episódio, a jogadora evidencia a relevância de ter encontrado um ambiente no qual se sente verdadeiramente acolhida, mesmo estando distante de sua família. No clube, construiu fortes vínculos de amizade e encontrou na Itália um contexto cultural mais próximo ao brasileiro do que aquele experimentado na Turquia, fator que contribuiu significativamente para seu processo de adaptação e para o fortalecimento de seu sentimento de pertencimento.
Para finalizar, é possível ver um pouco dos momentos incríveis da jogadora finalizando a temporada de 2024, conquistando o Campeonato Mundial de Clubes, Supercopa Italiana, além de vitórias cruciais nas fases de playoffs da Champions League e da Liga Italiana. Todas essas conquistas, além de seu histórico de carreira impecável, fazem com que Gabi seja considerada atualmente como uma das melhores jogadoras de vôlei do mundo, além de ser um símbolo de disciplina e resiliência.
Assim, o documentário *Gabi: Destinada a Brilhar, Construída para Inspirar*, apesar de relativamente curto, consegue revelar facetas da atleta que extrapolam sua imagem pública e suas conquistas esportivas. Enquanto grande parte do público conhece Gabi pelos títulos e pelas jogadas decisivas, a produção evidencia o percurso marcado por desafios, renúncias e processos de adaptação que sustentam sua trajetória até se tornar uma das principais jogadoras de vôlei do mundo. Nesse sentido, o documentário também se contrapõe às narrativas historicamente construídas em torno das mulheres no esporte, frequentemente reduzidas à lógica das “musas” e à valorização de atributos estéticos em detrimento de suas competências esportivas. Ao privilegiar sua dedicação, liderança, resiliência e excelência técnica, a obra reafirma Gabi como protagonista de sua própria história, deslocando o olhar da aparência para o desempenho e para a construção de uma carreira. Dessa forma, a atleta ocupa hoje um lugar de destaque no cenário esportivo internacional e se consolida como uma referência para meninas e mulheres, demonstrando que é possível construir uma trajetória sólida e bem-sucedida no esporte profissional.
O documentário apesar de estar disponível na íntegra de forma completa apenas na plataforma VolleyBall World TV, que é paga, 5 dos 6 episódios podem ser encontrados gratuitamente no YouTube.
* Esta resenha foi produzida como atividade da disciplina Jornalismo esportivo, gênero e representação midiática ofertada na UMFG no semestre 1 de 2026 pela doutoranda em Comunicação Social Flaviane Rodrigues Eugênio.

