Por Sálua Zorkot*
FICHA TÉCNICA
Título: Copa 71 (Original)
Ano de produção: 2023
Direção e produção: James Erskine e Rachel Ramsay
Duração: 90 minutos
Classificação: Livre
Gênero: Documentário, Esporte
Países de Origem: Reino Unido
Onde assistir: Netflix
“Como eu não sabia disso?”. A pergunta feita por Brandi Chastain, ex-jogadora da seleção dos Estados Unidos, campeã mundial e olímpica, surge ainda nos primeiros minutos do documentário Copa de 1971, disponível na Netflix. Ao se deparar com imagens de um estádio mexicano lotado, com mais de 100 mil pessoas assistindo a uma partida de futebol feminino em 1971, sua reação é imediata e ambígua: “eu fico muito feliz e muito furiosa, para ser sincera”.
O incômodo que atravessa sua fala é o mesmo que estrutura toda a obra: como um evento com essa magnitude, com cobertura midiática massiva e apelo popular evidente, pôde ser completamente apagado da história do futebol – inclusive da memória de quem vive o esporte?

Dirigido e produzido com envolvimento das irmãs Serena Williams e Venus Williams, o documentário retrata a realização de um torneio internacional de futebol feminino no México, em 1971, anterior ao reconhecido oficialmente pela FIFA – no ano de 1991.
A narrativa se constrói a partir de imagens de arquivo, registros televisivos da época e depoimentos atuais das jogadoras, que revisitaram, muitas vezes pela primeira vez em décadas, suas experiências naquele torneio. Os relatos são atravessados por orgulho, emoção e, sobretudo, por exemplos de como elas foram vítimas de diversas situações de preconceito e assédio.
O filme mostra que não se tratava de um evento marginal. Pelo contrário. Os dois maiores estádios do México ficaram lotados, houve transmissão televisiva, cobertura midiática expressiva e até mesmo mobilização internacional por parte de alguns times para que suas equipes pudessem se deslocar até o país americano. Tudo indicava que aquele poderia ser um marco para o futebol feminino. Mas não foi.
A mídia que constrói e apaga
Um dos aspectos mais instigantes do documentário é justamente a centralidade da mídia nesse processo. A mesma mídia que foi capaz de transformar o torneio em um espetáculo de massa também foi, posteriormente, parte do mecanismo que permitiu seu esquecimento.
Esse movimento pode ser compreendido a partir do conceito de economia da visibilidade, desenvolvido por Sarah Banet-Weiser. Um aspecto relatado ao longo do documentário é a ausência de retorno financeiro às atletas. Apesar do sucesso de público, da ampla cobertura midiática e do evidente potencial comercial do torneio, as jogadoras não receberam remuneração. Um descompasso que evidencia uma lógica que vai além do esporte, tratando de uma apropriação do trabalho e da imagem dessas mulheres sem redistribuição de valor.
À luz de Banet-Weiser (2015), é possível compreender esse fenômeno como parte de uma economia da visibilidade, na qual corpos femininos são mobilizados para gerar circulação e lucro, mas não necessariamente acesso a poder ou capital para aqueles que produzem essa visibilidade. Segundo a autora, a visibilidade, em contextos midiáticos e neoliberais, está menos associada à transformação social e mais à sua capacidade de circulação e geração de valor.
No caso da Copa de 1971, a visibilidade existiu, mas foi temporária, condicionada e descartável. O torneio foi explorado como produto. Havia interesse comercial por parte da maior empresa de mídia do México que queria aproveitar a estrutura e o furor da Copa de 70 – masculina – para continuar lucrando. Mas, passados os dias dos jogos em que apenas seis times participaram da competição (Argentina, Dinamarca, Inglaterra, França, Itália e México) não houve compromisso com permanência e fortalecimento da modalidade feminina.
O documentário evidencia também que a visibilidade das atletas estava longe de ser neutra. A cobertura midiática da época frequentemente explorava seus corpos, suas roupas e sua aparência.
Em muitos casos, a narrativa associava o evento a um apelo claramente direcionado ao público masculino. Como revelado no próprio documentário, organizadores chegaram a afirmar que o sucesso do torneio se explicava pela combinação de “duas paixões”: futebol e mulheres.
Trecho exibido no documentário em que o chefe do comitê organizador, em depoimento ao New York Times, reforça que o campeonato é “uma combinação de duas paixões da maioria dos homens ao redor do mundo: futebol e mulheres.”:

Nesse sentido, a presença feminina no campo era mediada por um enquadramento específico. A partir de Judith Butler, é possível compreender essa dinâmica como parte de uma lógica de performatividade de gênero: “o gênero não é uma essência, mas um conjunto de atos e normas reiteradas socialmente” (BUTLER, 2018 [1988], p. 4)
As jogadoras eram autorizadas a ocupar aquele espaço desde que performassem uma feminilidade reconhecível e consumível. Ou seja: podiam aparecer, mas sob certas condições, usando determinados uniformes e espaço e sendo fotografadas e filmadas por ângulos de câmeras que deixassem em evidência atributos femininos.
Trecho exibido no documentário em que o chefe do comitê organizador, em depoimento ao New York Times, afirma que “mulheres que jogam futebol não são monstruosidades musculosas, mas, geralmente, garotas bonitas”:

Cobertura jornalística reforçava que o uniforme curto (hot pants) seria usado pelas atletas:

Atletas eram acompanhadas de perto por fotógrafos em momentos em que os corpos estivessem mais à mostra como nos banhos de piscina:

Foram disponibilizados espaços de beleza nos vestiários, atendendo, segundo os organizadores, algo que seria útil e de agrado das atletas:

Se a mídia foi central na construção do espetáculo, a ausência de reconhecimento institucional foi decisiva para seu apagamento. A FIFA nunca reconheceu oficialmente o torneio como uma Copa do Mundo. Ao longo do documentário, essa ausência se torna incômoda, especialmente pela falta de qualquer posicionamento ou revisão histórica.
A partir de Pierre Bourdieu, isso pode ser interpretado como uma disputa dentro do campo esportivo: “são as instituições dominantes que definem o que é legítimo – e, portanto, o que merece ser lembrado” (BOURDIEU, 2004, p. 161).
Carta da English Women`s F.A. ao comitê organizador da Copa informando não reconhecer o campeonato uma vez que a FIFA não havia o validado:

Mais do que isso, o apagamento da Copa de 1971 pode ser entendido como uma forma de violência simbólica, que opera de maneira invisível e naturalizada (BOURDIEU, 2002).
Futebol, gênero e exclusão
O documentário também permite compreender o episódio dentro de uma estrutura mais ampla. Como apontam Bandeira e Seffner (2013, p. 250), o futebol historicamente se constitui como um espaço de produção de masculinidades. Nesse contexto, a presença feminina não é apenas marginal, ela é regulada.
A Copa de 1971 revela essa lógica com clareza. Mulheres podem ser incorporadas como espetáculo, mas não como parte legítima da estrutura do esporte. O apagamento posterior funciona, assim, como um mecanismo de manutenção dessa ordem.
Ao recuperar essa história, o próprio documentário se insere em uma tensão importante. Por um lado, ele atua como uma política da visibilidade, dando voz às atletas, recuperando uma memória apagada e posicionando essas mulheres na história. Por outro, ele também participa de uma economia da visibilidade, na qual narrativas de injustiça e invisibilização se tornam produtos culturais de alto valor simbólico. Essa ambivalência não diminui a obra, ela a constitui.
Se durante o torneio as atletas experimentaram um raro momento de reconhecimento, o pós-evento revela uma ruptura abrupta. O documentário mostra que, após o encerramento da competição, muitas delas retornaram ao anonimato e sem qualquer estrutura que sustentasse suas trajetórias no esporte. Esse corte evidencia que não se tratava de um projeto esportivo, mas de um evento isolado, sem compromisso com desenvolvimento esportivo e de luta de igualdade de gênero, mas puramente financeiro. Como aponta Bourdieu (2004), a permanência em um campo depende não apenas da entrada, mas do reconhecimento e da legitimação por parte das estruturas dominantes.
Além da dimensão econômica, o documentário explicita como a presença dessas mulheres foi mediada por uma lógica de controle sobre seus corpos. A exigência de uniformes curtos, a valorização de atributos físicos e a constante vigilância midiática (inclusive em momentos de lazer) revelam que o interesse não estava centrado apenas na prática esportiva. No caso da Copa de 1971, as atletas só eram plenamente visíveis enquanto correspondiam a um ideal de feminilidade consumível. Assim, o campo esportivo não apenas exclui, mas também condiciona a forma como a inclusão pode acontecer.
O documentário Copa de 1971 é mais do que um resgate histórico. É um desconforto ao perceber que o problema não foi a falta de visibilidade, mas a falta de legitimidade. No fim, a pergunta de Brandi Chastain permanece: “como eu não sabia disso?” E talvez a resposta seja mais simples (e mais incômoda) do que parece: porque eram mulheres.
* Esta resenha foi produzida como atividade da disciplina Comunicação, Esporte e Gênero ofertada no modelo interinstitucional (PPGCOMs da UFMG e da UFPE) no semestre 1 de 2026 pelas professoras Ana Carolina Vimieiro e Soraya Januário.

