Por Louise C. Borba Nogueira*
O ano era 2014 e, em meio aos jogos da Copa do Mundo de futebol de homens do Brasil, eu acompanhava a cobertura das principais mídias esportivas sobre a nossa seleção. Naquela altura eu já era psicóloga formada há 10 anos, com experiência de atuação no esporte há quase 15 anos. Além disso, estava prestes a iniciar meu doutorado onde eu pretendia, justamente, problematizar a prática de uma “psicologia no esporte” que pensava o “emocional” apartado não só do corpo – e do uso que os atletas faziam desse corpo para trabalhar – mas também, das questões políticas, sociais e econômicas que atravessavam o Esporte enquanto instituição e território de disputas de produção de subjetividades. Não haveria melhor momento para trazer esse debate, visto que o país estava em ebulição política desde 2013 e, além da Copa de 2014, o Brasil seria palco das Olimpíadas de 2016.
Embora a minha pesquisa não tivesse a intenção de fazer uma análise das mídias esportivas, eu estava atenta em como a psicologia e suas práticas eram representadas nas diversas transmissões, principalmente quando os apresentadores e debatedores traziam suas impressões e opiniões sobre a importância da preparação dos atletas de forma técnica, tática e psicológica. Um dos exemplos disso foi a ampla divulgação sobre a inserção de uma psicóloga para acompanhar os atletas escalados para compor a seleção brasileira – assim como a desconfortável entrevista da colega no programa Roda Viva, como se a psicologia pudesse explicar o fatídico 7×1 – e os depoimentos de atletas medalhistas olímpicos brasileiros, em 2016, sobre a experiência com a psicologia.
O esporte moderno se constituiu, ao longo do último século, como um campo de formação de diversos profissionais que pensam e atuam com os atletas de alto rendimento, mas existem, também, aqueles que Nelson Rodrigues (2014) chamava de “os entendidos” e que Galeano (1995), em seu livro “Futebol: ao sol e à sombra”, vai chamar de “os especialistas”, que englobam os cronistas e a imprensa esportiva, e que, aparentemente, pretendem com seu “esportês” esclarecer algo que eles julgam que o espectador simples – e até mesmo, os jogadores e os treinadores – não entendem. Entretanto, como brinca Galeano, os jogadores e treinadores não podem escutá-los, porque estão “[…] ocupados em errar” (Galeano, p.29, 1995).
Naquela época, eu me inquietava com o modo como as mídias esportivas falavam da necessidade de “trabalhar o emocional dos atletas”, e desconsideravam sobre como o trabalho do atleta acontecia, quais as dramáticas, decisões, constrangimentos estavam envolvidos nesta atividade. O esporte, a princípio, parecia não entrar na categoria de trabalho, visto que traz consigo uma forte relação com o lúdico e com o lazer. No entanto, eram muitos os debates políticos e sociais naquela conjuntura, e era preciso pensar, também, em como a gestão no campo esportivo impactava na vida de atletas, enquanto coletivo profissional e como força de trabalho explorada pelo capital e pelo mercado esportivo (Borba; Muniz, 2017; Nogueira, 2018).
Embora a participação da psicologia no esporte não seja recente – existem dados da presença de psicólogos atuando com equipes esportivas no Brasil desde os anos 50 (Santo; Jacó-Vilela, 2016) – a mídia brasileira deu muita projeção para a presença (ou a falta) deste profissional a partir da atuação dos atletas brasileiros nos Jogos Olímpicos de Sydney, no ano de 2000, onde a maior parte das modalidades foi medalha de prata. A partir dali, era possível ver muitos comentaristas e canais de comunicação fazerem uso do termo “amarelou” como uma tentativa de buscar uma razão para as derrotas quando os níveis técnicos e táticos das equipes brasileiras eram extremamente competitivos.
Vinte anos depois, nos Jogos Olímpicos de Tóquio, a temática do “controle emocional” ganhou novos contornos, não só pela tragédia humanitária que o mundo atravessava com a Pandemia da COVID-19, o que por si só já seria um fator de sofrimento mental para todos, mas com a desistência de Simone Biles de competir nas finais individuais. Inúmeras reportagens sobre a decisão de uma das maiores atletas da história, abandonar as competições, impactou diversos atletas, dando visibilidade ao sofrimento emocional no esporte de alto rendimento, e colocando o “cuidado com a saúde mental” como uma necessidade e uma prioridade para as Confederações esportivas.
Ao fazer um levantamento com os descritor “saúde mental”, em alguns portais de comunicação esportiva, pude verificar um número considerável de reportagens com consultoria de profissionais da psicologia e da psiquiatria, de modo a jogar luz sobre o fazer desses profissionais no esporte de alto rendimento, o que parece demonstrar uma preocupação dos jornalistas em apresentar as questões de saúde mental com a seriedade que ela merece. No entanto, alguns pontos me chamaram a atenção e que gostaria de trazer aqui como pontos de debate.
Primeiramente, gostaria de trazer uma análise, ainda superficial, das nuances discursivas sobre como a temática da saúde mental aparece nas poucas reportagens levantadas. Além de “saúde mental”, outros termos/descritores eram usados nas reportagens: emocional (ou controle emocional); (fator) psicológico; (fator) mental; treinamento mental; bloqueio mental; e ansiedade.
Em uma das reportagens sobre o caso de Simone Biles nas Olimpíadas de Tóquio 2020, é possível perceber algumas dessas nuances, por exemplo, quando se fala em questões “mentais” (“bloqueio mental”), parece existir uma carga discursiva biologizante, onde as emoções aparecem quase como inimigas da performance em si mesma. Ao falar de “saúde mental”, pelo contrário, o fator “cuidado”, “afastamento”, “descanso”, amplia o entendimento dos aspectos que compõem o ambiente, as relações e a história daquela atleta.
Como havia apresentado no início deste texto, para entender as questões de saúde mental, seja no esporte ou em qualquer outro contexto, é necessário entender que a produção de subjetividades é um território em disputa, e por isso devemos considerar toda uma complexidade e rede de forças, de modo a não corrermos o risco de pessoalizar e, até mesmo psicologizar, questões que são de fato, estruturais. Podemos citar, por exemplo, um estudo de 2022 que aponta que atletas mulheres estão mais expostas a sofrerem com questões de saúde mental, pois elas estão mais expostas a sofrerem violência de gênero, desigualdade econômica e salarial, e outros fatores biopsicossociais que atravessam as vidas das mulheres. Inclusive, a própria atleta, Simone Biles, teve sua vida pessoal exposta, desde 2018, ao denunciar a violência sexual sofrida por um de seus treinadores e o caso ir a julgamento.
De modo a concluir estas reflexões, mas sem nenhuma intenção de esgotá-las, quero reforçar a necessidade de pensar as questões de saúde mental em toda sua materialidade, ou seja, relacionada ao modo como as pessoas realizam seu fazer no mundo, como trabalham, como amam, como se relacionam. Assim, escapamos da armadilha de considerarmos o “emocional”, o comportamento e as atitudes dos atletas como algo pessoalizado e apartado do modo como as técnicas, as regras, os regulamentos interferem nos corpos e nas diversas modalidades esportivas.
Isso nos leva a entender que a performance esportiva é um processo complexo de construção e que a fragmentação dos aspectos psicológicos, físicos e técnicos que prevalecem nesses sistemas de treinamentos e intervenção, não é mais relevante. Neste sentido, questionamos publicações nas mídias esportivas que apontem o papel do psicólogo no esporte apenas como um agente que possa “motivar” e “prever acontecimentos inesperados”, e orientamos que nós, psicólogas e psicólogos que atuamos no esporte, na atividade física e nos espaços de lazer, somos parte de um dispositivo multidimensional de formação e de preparação de atletas (Hauw; Durand, 2004, p.121).
REFERÊNCIAS
BORBA, L. C.; MUNIZ, H. P.. ‘Mudando para o time’: a dimensão coletiva no trabalho de atletas de vôlei de praia. Laboreal, v. 13, n. Nº1, 2017.
GALEANO, E. Futebol: ao sol e à sombra. L&PM, 1995.
HAUW, D.; DURAND, M. Pour une «dé-psychologisation» de la performance sportive de haut niveau. Movement & Sport Sciences, n. 3, p. 119-123, 2004.
LOURAU, R. Análise institucional e práticas de pesquisa. Rio de Janeiro: UERJ. 1993.
NOGUEIRA, L. C. B. A FORM(AÇÃO) EM JOGO: Uma análise do desenvolvimento do trabalho e da gestão do coletivo de atletas de vôlei de praia pelo ponto de vista da atividade. Niterói, RJ: Universidade Federal Fluminense, 2018.
PASCOE, M.; PACKOWIAK, A.; WOESSNER, M.; BROCKET, C.L.; HANLON, C.; SPAAIJ, R.; ROBERTSON, S.; McLACHLAN, F.; PARKER, A.. Gender-specific psychosocial stressors influencing mental health among women elite and semielite athletes: a narrative review.IN: Br J Sports Med 2022; 56:1381–1387. Disponível em: https://bjsm.bmj.com/lookup/doi/10.1136/bjsports-2022-105540 Acesso em :26/04/2026
RODRIGUES, N. A pátria de chuteiras. Nova Fronteira, 2014.
SANTO, A. A. E; JACÓ-VILELA, A. M. As invisibilidades da história: Athayde Ribeiro da Silva e a psicologia do esporte no Brasil. Memorandum: Memória e História em Psicologia, v. 31, p. 56–79, 2016.
* Louise é Doutora e Mestra em Psicologia pela UFF. Graduada em Psicologia pela mesma instituição. Esta resenha foi produzida como atividade da disciplina Comunicação, Esporte e Gênero ofertada no modelo interinstitucional (PPGCOMs da UFMG e da UFPE) no semestre 1 de 2026 pelas professoras Ana Carolina Vimieiro e Soraya Januário.

