Por Carolina Mesquita de Moraes e Cecília Isaura de Araujo e Silva
Em abril de 2022 é inaugurado o projeto 2 das Minas em São Caetano do Sul (SP), sob o desejo de transformar o skate em um espaço além das pistas, visando acolhimento, empoderamento e pertencimento feminino no esporte. Luciana Tozo (Lu), 52 anos, profissional de marketing e técnica de enfermagem, é a fundadora do 2 das Minas e, junto às demais mulheres envolvidas, protagonizam esse projeto pensado sob a visão do esporte não ser somente a finalidade, mas sim o meio de agir como propulsor de movimento e autonomia feminina, com o propósito de ressignificar o skate como ferramenta de superação e (re)construção ao conectar meninas, mulheres e a comunidade LGBTQIAP+ nas pistas.
O encontro de Luciana com o skate acontece quando já adulta. Dos ensinamentos do ex-namorado à dor do término, a prática passa a ressignificar-se em sua vida. O que parecia a sensação de “eu fiquei sem o skate e sem o namorado”, transformava-se em uma força de querer pertencer àquele movimento que lhe apresentara tantas significações, como a possibilidade de inserção em uma prática esportiva aos 46 anos e a experiência de quedas e recomeços, tal como a própria percussão da vida.
“O skate para mim, ele me proporciona uma sensação de liberdade muito grande. Mas não foi sempre assim. No começo eu tinha vergonha pela minha idade. Eu não postava vídeos de skate: ‘o que as pessoas vão falar? Com 46 anos brincando em um skate?’. E aquilo, o próprio skate foi me fortalecendo de uma forma que eu comecei a sentir orgulho disso. Isso tudo que fez por mim, eu acho que eu precisava e eu tinha que devolver isso para a sociedade de alguma forma” (Tozo, 2022).
O projeto surge em reflexo às inúmeras inquietações de Lu. Seu olhar sensível para as desigualdades territoriais e de gênero no esporte culminou no anseio de pensar uma resposta prática ao cenário real vivenciado no skate – não somente por si própria, mas pelas mulheres das pistas: vergonha de se expressar, medo do julgamento e de acreditar não ser pertencente àquele meio.
Imagem 1 – Luciana Tozo

Essas limitações, aliadas ao reconhecimento da realidade vivenciada cotidianamente e percebida por Lu, foi o ponto de partida para pensar a transformação de uma concretude discriminatória em forma de ação coletiva, que partia da necessidade de um espaço acolhedor, formativo e de conexão com outras mulheres do esporte. A prática, antes individual e associada a uma relação terminada e sua dor, passou a representar pertencimento, apoio e possibilidade de reconstrução.
A forma que Luciana encontrou de multiplicar o bem que o skate lhe trazia foi criando o Projeto 2 das Minas, com dia e horário exclusivo, só para as “minas” andarem de skate. A “segunda das minas” na pista Mário Manoel Davi em São Caetano do Sul (SP), começou como um encontro de amigas e tomou a proporção de agregar diversas mulheres e incentivar uma nova geração de meninas mulheres skatistas.
Eu não esperava, não imaginava que realmente fosse tomar essa proporção. Era um encontro de amigas, ‘ah, vamos se ajudar, vamo? Vem me ajudar, vem segurar minha mão. Você pode me ajudar?’ e de repente agregou várias pessoas (TOZO, 2022).
Imagem 2 – Projeto 2 das Minas

Nesse momento, mais do que fundar e liderar o 2 das Minas, Lu passa a ocupar também um papel representativo na vida das diversas meninas, mulheres e comunidade LGBTQIAP+. Ela possibilita repensar suas trajetórias, abrindo um caminho de luta por autoexpressão e autonomia, porque sabe o tanto que machuca o não se ver contemplada em um espaço esportivo. Por isso, o Projeto dialoga diretamente com a construção identitária dessa comunidade. Sem um planejamento inicial de “projeto social”, o 2 das minas partiu da dor e chegou ao acolhimento, em um universo historicamente masculino e excludente. Ao longo da história, o skate tem sido socialmente relacionado de forma mais intensa ao universo masculino do que ao feminino, o que contribui para a existência de diferentes oportunidades e vivências entre homens e mulheres (Figueira; Goellner, 2009). De acordo com Goellner e Figueira:
É notória a posição de centro ocupada pelos homens que, em virtude disso, é tomada como referência. As mulheres são as outras, estão à margem e, por assim ser, disputam posições de sujeito, pois como qualquer produto da cultura, o skate é um território pleno de embates, inclusive de gênero. Um espaço que demanda disputas por significação e existência. (Figueira; Goellner, 2009, p. 99).
Visto que as mulheres enfrentam esse território de disputas, em que sua presença é contestada diariamente, a proposta é oferecer um ambiente acolhedor e seguro para a aprendizagem e convivência social, onde valores como a amizade, respeito e sororidade orientam as práticas. O que corrobora com estudos da área, segundo Silva e Pessoa (2024):
Assim como no passado existiam espaços vedados às mulheres e que atualmente são apropriados por elas, o skate também se configura como um desses ambientes. Nesse contexto, a presença feminina não apenas é bem-vinda, mas essencial. É necessário essa união feminina, associada ao empoderamento sendo uma maneira das mulheres conseguirem forças e apoio uma das outras, não dando ouvidos àqueles que dizem que skate não é para elas. (Silva; Pessoa, 2024, p. 24)
Para Lu, a mulher estar em movimento e em grupo, resgatando seus direitos de existir nos espaços públicos e de lazer é ainda mais importante do que ser boa no skate. Para ela, o ativismo é importante para se manter vivo contra algo tão negado, desde a infância, por imposições culturais e estruturais:
A gente sempre trabalha muito com essa frase: skate, acolhimento, sororidade. Tudo o que acontece aqui é pensado de forma a ser acolhedora, de ser de amizade, de ter respeito. Falar que acolhe é muito bonito, mas acolhimento é prática. E a gente pensa em ações, a gente faz rodas de conversa sobre sororidade, equidade de gênero, comunidade LGBTQIAP+, empoderamento a gente leva essas conversas pras aulas (Tozo, 2025).
Um dos principais diferenciais do projeto está no acolhimento autêntico que oferece. Tudo é feito com o coração, criado por Elas e para Elas. O skate é resistência e cuidado em movimento. Atualmente, as aulas gratuitas acontecem às segundas-feiras de 18:00 ás 22:00 na pista Mário Manoel Davi, em São Caetano do Sul, e aos sábados no CEU Heliópolis de 10:00 ás 12:00, em São Paulo (SP), fortalecendo o acesso de meninas, mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ ao esporte em diferentes territórios.
Mais do que ensinar manobras, esses encontros constroem vínculos, confiança e pertencimento. Cada aula é pensada como um espaço seguro de convivência, onde o erro não é motivo de vergonha, mas parte natural do processo de aprendizagem. É importante salientar, que durante o período de aulas, as pistas de skate são de uso exclusivo das participantes, o que marca uma grande conquista para o skate feminino. Visto que as mulheres enfrentam inúmeras barreiras para a prática deste esporte, tais como o assédio e a discriminação, tanto velados quanto explícitos, o que perpetua um ambiente hostil e intimidador para as mulheres, afetando não apenas sua segurança, mas também sua liberdade de desfrutar do lazer e da prática esportiva do skate (Silva; Pessoa, 2024).
Imagem 3 – Mulherada presente

A presença do projeto em Heliópolis amplia ainda mais seu alcance social, aproximando o skate de jovens periféricas que, muitas vezes, não encontram oportunidades de inserção esportiva e lazer em seus próprios territórios. O 2 das Minas rompe com a lógica excludente que historicamente atravessa o skate e transforma a pista em espaço de troca, escuta e fortalecimento coletivo. O esporte deixa de ser apenas prática corporal e passa a funcionar como ferramenta de autonomia, construção de identidade e ocupação dos espaços públicos por corpos que durante muito tempo foram silenciados.
Essa influência positiva pode ser percebida diretamente na trajetória de atletas que passaram a enxergar novas possibilidades dentro do skate a partir desse acolhimento. Um exemplo é a atleta mirim Dulce Luany, de Belo Horizonte, Campeã Mineira na categoria Street, que representa essa nova geração de meninas que encontram no skate não apenas uma modalidade esportiva, mas uma forma de expressão e potência. O incentivo promovido pelo projeto ajuda a fortalecer a permanência dessa atleta no esporte, especialmente diante das dificuldades ainda enfrentadas por mulheres no cenário competitivo.
Imagem 4 – Dulce Luany

Outro exemplo importante é Pandora, mulher trans e skatista que reconhece em Luciana Tozo uma referência fundamental em sua trajetória. Para ela, Lu não ensinou apenas técnicas ou fundamentos do skate, mas uma nova forma de competir e de existir dentro desse universo. A compreensão de que o skate também pode ser construído pela coletividade, pelo apoio mútuo e pela sororidade transforma profundamente a experiência esportiva. Em vez da lógica puramente competitiva e individualista, o projeto propõe uma vivência baseada no cuidado, no respeito e na permanência conjunta das mulheres nas pistas.
Imagem 5 – Pandora Gomes

A força simbólica e política do projeto também se evidencia ao ter como madrinha a Skatista Profissional Raicca Ventura, um dos principais nomes da nova geração do skate brasileiro. Atleta olímpica nos Jogos de Paris 2024 e Campeã Mundial de skate park, Raicca representa não apenas excelência esportiva, mas também visibilidade e inspiração para meninas que sonham ocupar esse espaço. Sua aproximação com o 2 das Minas fortalece ainda mais a legitimidade do projeto e demonstra como iniciativas de base e alto rendimento podem caminhar juntas. Ter Raicca como madrinha significa oferecer às participantes uma referência concreta de futuro possível. Sua presença ajuda a romper a ideia de que o skate feminino ocupa um lugar secundário e reforça que meninas podem, sim, alcançar grandes espaços sem abrir mão da coletividade e da representatividade.
Imagem 5 – Raicca Ventura e Lu no projeto 2 das Minas

O Projeto 2 das Minas também se destaca pela realização de eventos que fortalecem a participação feminina no skate, como o Das’Minas Fest, que chegou à sua segunda edição celebrando os quatro anos de existência da iniciativa. Organizado pela Associação das Minas, o festival é totalmente idealizado e executado por mulheres, contando com uma equipe 100% feminina em todas as funções, desde a organização até a arbitragem, locução e oficinas culturais.
A programação valoriza diferentes expressões da arte feminina, como grafite, hip hop, moda e outras manifestações culturais, reforçando o protagonismo das mulheres na cena do skate. Além do campeonato nas categorias amadora/open e estreante, o evento promove oficinas gratuitas, gincanas e atividades lúdicas voltadas para crianças e mulheres da comunidade, ampliando o acesso ao esporte e à cultura. O projeto ainda conta com a parceria do Sesc, fortalecendo ainda mais suas ações e seu alcance social.
Assim, o Projeto 2 das Minas ultrapassa a dimensão esportiva e se consolida como uma importante iniciativa de transformação social, mostrando que o skate pode ser também um espaço de acolhimento, resistência e reconstrução de trajetórias. Ao promover aulas gratuitas, rodas de conversa e vivências pautadas na sororidade, no respeito e na equidade, o projeto rompe com estruturas historicamente excludentes e reafirma o direito de meninas, mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ de ocuparem as pistas e os espaços públicos. Mais do que formar atletas, o 2 das Minas forma redes de apoio, fortalece identidades e produz pertencimento. A trajetória de Luciana Tozo evidencia que experiências pessoais de dor podem se transformar em ações coletivas potentes, capazes de impactar diferentes vidas e inspirar novas gerações. Nesse sentido, o projeto se destaca não apenas pela prática esportiva, mas pela forma inovadora com que utiliza o skate como ferramenta de empoderamento, visibilidade e mudança social.
Imagem 7 – Aula do Projeto 2 das Minas

REFERÊNCIAS
ASSOCIAÇÃO DAS MINAS. Associação das Minas: empoderamento feminino e inclusão social pelo skate. Disponível em: Associação das Minas. Acesso em: 22 abr. 2026.
GLOBOPLAY. Rolê de skate em São Caetano só para mulheres inspira e cria laços entre participantes, Globo Esporte São Paulo, 2026. Disponível em https://globoplay.globo.com/v/10768298/. Acesso em: 20 abr. 2026.
INSTAGRAM. Dulce Lauany Skatista. Publicação no Instagram. Disponível em: https://www.instagram.com/p/C_IXz-DuA-C/. Acesso em: 27 abr. 2026
INSTAGRAM. Pandora Gomes de Souza Soares. Publicação no Instagram. Disponível em: https://www.instagram.com/p/C35iqOhA-qc/. Acesso em: 27 abr. 2026.
INSTAGRAM. 2 das Minas. Publicação no Instagram. Disponível em: https://www.instagram.com/p/DA2LcUrNzPl/. Acesso em: 22 abr. 2026.
INSTAGRAM 2 das Minas. Publicação no Instagram. Disponível em: https://www.instagram.com/p/DHlje78sva8/. Acesso em: 22 abr. 2026.
INSTAGRAM. 2 das Minas. Publicação no Instagram. Disponível em: https://www.instagram.com/p/DKHdZgRO6TL/. Acesso em: 22 abr. 2026.
INSTAGRAM 2 das Minas. Publicação no Instagram. Disponível em: https://www.instagram.com/p/DHlje78sva8/. Acesso em: 20 abr. 2026.
INSTAGRAM. 2 das Minas. Publicação no Instagram. Disponível em: https://www.instagram.com/p/DGRLcnNveMN/. Acesso em: 27 abr. 2026.
INSTAGRAM. 2 das Minas. Reel publicado no Instagram. Disponível em: https://www.instagram.com/reels/DPwn56qj4gB/. Acesso em: 22 abr. 2026.
INSTAGRAM. 2 das Minas. Reel publicado no Instagram. Disponível em: https://www.instagram.com/reels/DMtM_XIPviu/. Acesso em: 22 abr. 2026.
WIKIPÉDIA. Raicca Ventura. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Raicca_Ventura. Acesso em: 22 abr. 2026.
FIGUEIRA, M. GOELLNER, S. Skate e mulheres no Brasil: fragmentos de um esporte em construção. Rev. Bras. Cienc. Esporte, Campinas, v. 30, n. 3, p. 95-110, maio 2009. Disponível em: http://revista.cbce.org.br/index.php/RBCE/article/
FIGUEIRA, M. L. M. Skate para meninas: modos de se fazer ver em um esporte em construção. 2009.
Relações entre Skate, Gênero e Espaços Públicos de Lazer em Belo Horizonte. LICERE – Revista do Programa de Pós-graduação Interdisciplinar em Estudos do Lazer, Belo Horizonte, v. 27, n. 3, p. 1–29, 2024. DOI: 10.35699/2447-6218.2024.54926. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/licere/article/view/54926. Acesso em: 22 abr. 2026.

