A excepcionalidade como condição de visibilidade: pedagogias de gênero em Rainha de Katwe

Imagem da atriz Madina Nalwanga no filme Rainha de Katwe. Fonte: Divulgação/Disney+.

Por Camile Roberta Santos Barros da Silva e Vivian Bianca Silva de Oliveira*


FICHA TÉCNICA

Título: Rainha de Katwe (Queen of Katwe)
Ano de produção: 2016
Direção: Mira Nair
Roteiro: William Wheeler (baseado no livro de Tim Crothers)
Produção: Disney / ESPN Films
Duração: 124 minutos
Classificação: Livre
Gênero: Drama biográfico
Países de origem: EUA / Uganda
Disponível em: Disney+


Em 2016, a diretora indiana Mira Nair lançou “Rainha de Katwe”, filme produzido pela Disney e pela ESPN Films, baseado na história real de Phiona Mutesi, menina negra e pobre da comunidade de Katwe, em Kampala, Uganda, que se tornou enxadrista profissional e representou o seu país em campeonatos de xadrez ao redor do mundo.

O filme foi lançado sendo celebrado como uma narrativa de representatividade: protagonista negra africana, diretora não-ocidental, elenco majoritariamente ugandense, locações reais. E é, sem dúvida, um filme bem-feito, emocionante e visualmente cuidadoso. Mas é justamente quando nos emocionamos sem questionar que o cinema cumpre seu papel mais hegemônico: o de nos fazer aceitar como natural aquilo que deveria nos inquietar.

Apesar desse enquadramento, é preciso considerar que narrativas como essa frequentemente operam dentro de uma lógica já conhecida no cinema global: lógica essa que trata a excepcionalidade como condição de visibilidade. A história de Phiona não é apenas a de uma menina comum em sua comunidade, mas de alguém que, por meio de seu talento, consegue transcender sua condição social. Essa estrutura narrativa, embora inspiradora, levanta questões importantes: que tipo de trajetória é considerada digna de ser contada? E mais ainda, quais vidas permanecem invisíveis por não se adequarem a esse modelo de superação? Nesse sentido, o filme pode ser lido não apenas como uma celebração, mas também como um dispositivo que organiza sentidos sobre sociedade, gênero e sucesso dentro de determinados parâmetros.

Fonte: Reprodução/Disney+

A pergunta central que este texto propõe é: que pedagogias de gênero Rainha de Katwe produz? O conceito de pedagogia de gênero, desenvolvido no campo dos estudos culturais e de gênero, diz respeito às formas como produtos culturais (filmes, séries, campanhas publicitárias) ensinam ao público o que significa ser homem ou mulher em nossa sociedade, quais corpos merecem visibilidade, quais histórias merecem ser contadas e, sobretudo, quais condições precisam ser cumpridas para que determinadas vidas sejam reconhecidas como dignas de existir na tela.

Só o brilhantismo é visto

A resposta que o filme oferece, mesmo sem intenção explícita, é provocativa em sua clareza: para ser vista, uma menina negra pobre precisa ser extraordinária. Phiona não é apenas boa no xadrez, ela é brilhante, e supera as adversidades de forma espetacular, derrotando adversários mais experientes, viajando para outros continentes, tornando-se campeã. O filme celebra a exceção e, ao fazer isso, acaba naturalizando a regra: se você não for excepcional, o sistema permanece o mesmo. A comunidade de Katwe, com toda a sua pobreza e violência estrutural, aparece como pano de fundo para a história sobre uma exceção, não como problema a ser questionado, mas como obstáculo pessoal a ser superado.

Essa lógica da excepcionalidade é, como aponta Bell Hooks em seus estudos sobre representação e poder, uma das formas mais sofisticadas de reprodução da desigualdade na cultura de massas. Ao colocar o fardo da transformação social nos ombros de indivíduos extraordinários, narrativas como essa desviam a atenção das estruturas que produzem a pobreza, o racismo e a desigualdade de gênero. O xadrez, nesse contexto, funciona como um ‘ponto fora da curva’, o único espaço onde uma mente brilhante como a de Phiona poderia ser reconhecida, já que os caminhos convencionais, como o academicismo e as instituições formais, nunca a enxergariam e possibilitariam uma mudança de vida através destes meios.

A centralidade no talento individual como motor de ascensão social dialoga com uma lógica meritocrática percebida especialmente em narrativas esportivas. O filme sugere que, dadas as oportunidades certas (ainda que mínimas), o sucesso seria uma questão de esforço e foco. No entanto, essa construção ignora a desigualdade nas condições de partida. Ao não problematizar de forma mais incisiva as barreiras estruturais que atravessam gênero, raça e classe, a narrativa corre o risco de reforçar a ideia de que aqueles que não “chegam lá” não foram capazes o suficiente ou não se esforçaram o suficiente, deslocando a responsabilidade social para o indivíduo.

No campo das pedagogias de gênero, esse ponto se torna ainda mais sensível. A trajetória de Phiona, embora forte, é também apresentada dentro de limites de aceitabilidade: sua genialidade é acompanhada por disciplina, respeito à autoridade e uma relação constante de validação por figuras externas, sobretudo masculinas. Assim, o filme não apenas ensina que é preciso ser extraordinária, mas também indica como uma menina deve se comportar para que esse reconhecimento seja concedido. Trata-se de uma combinação entre exceção e conformidade, em que o acesso à visibilidade não rompe totalmente com normas de gênero, mas as reorganiza de maneira mais discreta.

Harriet: O olhar subversivo para a maternidade negra

A pedagogia de gênero mais problemática do filme, no entanto, não está na protagonista, mas na figura de sua mãe, Harriet, interpretada por Lupita Nyong’o. Mãe solteira de quatro filhos, vivendo em situação de extrema precariedade, Harriet é construída narrativamente como obstáculo: é ela quem resiste à participação de Phiona no xadrez, é ela quem representa o ceticismo, o medo, a limitação. A câmera a filma com dureza em vários momentos, e o roteiro reserva a ela pouca margem para que seu ponto de vista seja compreendido em profundidade. O que vemos é uma mulher difícil, carrasca, que precisa ser convencida pela filha e pelo treinador Robert Katende a acreditar no futuro.

Nesse sentido, é importante observar como o filme mobiliza um tipo de narrativa já bastante conhecida na representação de mulheres negras no cinema: o da mãe que precisa ser “corrigida” para que a história de sucesso possa se realizar. Harriet não é apenas alguém que hesita, mas alguém cuja hesitação é sugerida como falha moral ou falta de compreensão, e não como uma leitura racional das condições em que vive. Ao fazer isso, a narrativa desconsidera que sua resistência também pode ser interpretada como uma forma de cuidado: uma tentativa de proteger a filha de frustrações, violências e um futuro incerto. Assim, o que poderia ser construído como conflito entre diferentes perspectivas (a do sonho e a da sobrevivência), é simplificado em uma oposição entre atraso e progresso, na qual Harriet precisa, inevitavelmente, ceder. 

Uma mulher negra sozinha, responsável por quatro crianças em situação de pobreza extrema, que desconfia de promessas vindas de fora e prioriza a sobrevivência imediata sobre sonhos incertos, não é uma vilã, é alguém que aprendeu com a experiência que o mundo não costuma cumprir o que promete. O filme poderia ter explorado esse ponto de vista com a mesma riqueza que dedica à jornada de Phiona. Em vez disso, opta pelo drama fácil: a mãe que não acredita, que se converte, que chora de orgulho no final. Harriet é reduzida a uma função narrativa, o obstáculo que precisa ser superado, quando poderia ter sido um segundo sujeito da história, igualmente complexo e digno de análise. Essa escolha revela o que Patricia Hill Collins chamaria de apagamento da maternidade negra como experiência política e subjetiva: a mãe negra existe, na mídia hegemônica, como sacrifício ou como resistência ao sonho alheio, raramente como protagonista de seu próprio desejo.

É impossível analisar Rainha de Katwe sem considerar a tensão constitutiva de sua produção: uma diretora indiana, mulher do Sul Global, comprometida com uma estética não colonialista, trabalhando dentro dos limites narrativos e comerciais da Disney. Mira Nair faz escolhas visuais cuidadosas: a paleta de cores vibrante de Katwe, o elenco local, a recusa em filmar a pobreza como espetáculo de sofrimento. Há momentos de beleza genuína e de dignidade visual que contrastam com o que Hollywood costuma fazer com histórias africanas. Mas a estrutura narrativa da jornada do herói, o arco de redenção da mãe, o final triunfante e inspiracional, esses são elementos que a Disney não abre mão, e que acabam domesticando o potencial subversivo da história.

Chimamanda Ngozi Adichie alertou, em sua famosa conferência, para o ‘perigo de uma história única’: quando ouvimos sempre a mesma narrativa sobre um povo ou lugar, aquela narrativa se torna a única realidade possível. Rainha de Katwe, apesar de suas qualidades, reproduz em partes essa armadilha. Uganda aparece sobretudo como contexto de adversidade a ser superada, deixada para trás, transformada em origem para uma história de ascensão. O xadrez funciona como portal para um mundo mais amplo, mais legítimo, mais ocidental: os campeonatos internacionais, as viagens, o reconhecimento fora de Katwe. A pergunta que o filme não faz é: o que teria acontecido com Phiona se não fosse o xadrez? E o que isso nos diz sobre um sistema que só abre espaço para quem encontra o portal certo?

Essa ausência de outras possibilidades narrativas não é casual, mas sintomática de um modelo de representação. Ainda que Mira Nair tensione esse modelo em termos estéticos, a lógica de validação permanece ancorada no reconhecimento externo: é fora de Katwe, e sobretudo em circuitos internacionais, que o talento de Phiona adquire valor pleno. Esse deslocamento reforça uma hierarquia simbólica na qual o local é associado à carência e o global à legitimação. Assim, o filme participa de uma pedagogia mais ampla que ensina não apenas quem pode vencer, mas onde essa vitória precisa ser reconhecida para que importe.

Ao mesmo tempo, a própria ideia de “portal” como saída individual coloca em segundo plano a possibilidade de transformação coletiva. Se apenas alguns conseguem atravessar (os mais talentosos, disciplinados, resilientes…), o que acontece com aqueles que ficam? A narrativa não se detém sobre essa pergunta porque seu compromisso maior é com a excepcionalidade inspiradora, não com a justiça estrutural. Nesse sentido, o filme se alinha a uma tradição de histórias que oferecem esperança sem necessariamente oferecer crítica, produzindo uma sensação de superação que pouco questiona as bases que tornam essa superação necessária em primeiro lugar.

 Apesar de tudo, uma história de superação

Seria desonesto, no entanto, ignorar os pontos que “Rainha de Katwe” acerta. O filme recusa a erotização do corpo de Phiona, ela é filmada como criança, como atleta, como pensadora, como sujeito. Sua inteligência é respeitada e celebrada sem condescendência, e a relação entre ela e o treinador Robert Katende é construída com cuidado e respeito.  Além disso, há momentos em que a narrativa abre brechas para leituras mais complexas, como a cena em que Phiona volta para Katwe após seu primeiro grande torneio e percebe que o mundo ao redor dela não mudou. Essa cena, brevíssima, é talvez a mais honesta do filme: o sucesso individual não transforma as estruturas.

Essa ambiguidade é fundamental para compreender a potência do filme. Ao mesmo tempo em que oferece uma representação rara e necessária de uma menina negra africana pensada para além de estereótipos, a narrativa também se ancora em estruturas reconhecíveis que facilitam sua circulação global. Isso não é um detalhe menor: é justamente essa combinação entre novidade e familiaridade que permite que o filme alcance públicos amplos. No entanto, é nesse equilíbrio que reside também sua tensão central, pois aquilo que o torna acessível é, muitas vezes, o mesmo que dilui a possibilidade de questionamento mais radical. 

Rainha de Katwe é um filme que merece ser visto, mas a sua pedagogia de gênero é contraditória: ao mesmo tempo em que coloca uma menina negra africana no centro da narrativa com dignidade e complexidade, passa a mensagem de que a visibilidade só é possível através da exceção. Ao mesmo tempo em que apresenta a maternidade negra, a reduz a uma função dramática. Ao mesmo tempo em que recusa o olhar colonial mais grosseiro, opera dentro de estruturas narrativas que esse olhar construiu. Essa contradição não invalida o filme, mas é exatamente o que torna sua análise tão necessária: obras que parecem progressistas mas reproduzem hierarquias de forma sutil são, muitas vezes, mais eficazes na manutenção do status quo do que aquelas que o fazem abertamente. Reconhecer Phiona Mutesi como extraordinária sem questionar o sistema que tornou essa excepcionalidade a única via possível é, em última análise, uma forma de deixar o mundo como está.

Talvez a forma mais assertiva de analisar a obra seja a compreendendo a partir dessas tensões. É a partir delas que se torna mais evidente como produtos culturais podem tanto ampliar horizontes de representação quanto reforçar narrativas já estabelecidas. Apesar disso, não se pode esquecer que “Rainha de Katwe” é uma história real de superação que deve sim ser aplaudida e celebrada, Phiona Mutesi é uma agente de transformação social em sua vida e na de sua família. A arte, que se ateve apenas aos fatos e trouxe uma visão romantizada, poderia ter sido mais instigante e questionadora, mas cumpre o papel de trazer visibilidade para uma história sobre uma garota brilhante!

REFERÊNCIAS

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. O perigo de uma história única. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

COLLINS, Patricia Hill. Pensamento feminista negro: conhecimento, consciência e a política do empoderamento. São Paulo: Boitempo, 2019.

CRENSHAW, Kimberlé. Mapeando as margens: interseccionalidade, políticas de identidade e violência contra mulheres de cor. In: BUARQUE DE HOLLANDA, Heloísa (org.). Pensamento feminista: conceitos fundamentais. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2019.

DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo, 2016.

GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.

HALL, Stuart. Representation: cultural representations and signifying practices. London: Sage, 1997.

HOOKS, bell. Olhares negros: raça e representação. São Paulo: Elefante, 2019.

* Esta resenha foi produzida como atividade da disciplina Comunicação, Esporte e Gênero ofertada no modelo interinstitucional (PPGCOMs da UFMG e da UFPE) no semestre 1 de 2026 pelas professoras Ana Carolina Vimieiro e Soraya Januário.

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