Por Larissa Fátima de Azevedo Lellis*
FICHA TÉCNICA
Título: As Bicampeãs
Ano de produção: 2023
Direção: Rafael Pirrho
Duração: 4 episódios
Classificação: 10 anos
Gênero: Série Documental
Países de Origem: Brasil
Plataforma: Globoplay
Trailer da série “As Bicampeãs”

O vôlei é um dos esportes mais vitoriosos do Brasil, a Seleção Brasileira mora no coração dos torcedores e arrasta multidões para as arenas e para a frente da televisão, consolidando-se como uma paixão nacional que rivaliza até mesmo com o futebol em dias de grandes decisões. No entanto, a caminhada dessas mulheres até o topo do pódio não teve apenas barreiras físicas e táticas.
A série documental “As Bicampeãs”, produzida e lançada pelo Globoplay, conta a história da geração que ganhou os inéditos ouros olímpicos em Pequim (2008) e Londres (2012). Mas a obra vai muito além da quadra, mais do que apenas relembrar os jogos ou fazer um compilado de melhores momentos, a série mostra como a sociedade julga, cobra e, muitas vezes, pune as mulheres que chegam ao esporte de alto nível.
Através das falas de atletas que marcaram o voleibol mundial e principalmente das bicampeãs olímpicas reunidas, como Fabi Alvim, Paula Pequeno, Sheilla Castro, Thaisa Daher e Jaqueline Carvalho, o documentário nos leva aos bastidores de um grupo que precisou lutar contra grandes adversárias na quadra e contra um machismo estrutural estampado nos jornais e na TV. É uma viagem no tempo que nos faz repensar a forma como consumimos o jornalismo esportivo e como o julgamento público afeta a saúde mental de quem veste a camisa do país.
Atletas da geração bicampeã olímpica reunidas no documentário “As Bicampeãs”

O trauma de Atenas e a culpa no “emocional”
Para entender o tamanho da vitória que viria anos depois, a história volta no tempo e lembra a dolorosa semifinal nos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004. O cenário era de vitória, o Brasil vencia a gigantesca seleção da Rússia por 24 a 19 no quarto set, estavam a apenas um ponto de ir para a tão sonhada final olímpica. O país inteiro já comemorava, porém, o time sofreu uma virada histórica, traumática e inexplicável para quem assistia. De modo que, abaladas psicologicamente pelo apagão em quadra, acabaram perdendo também a disputa pelo bronze dias depois. Assim, a partir daquele dia fatídico, a equipe ganhou da imprensa e da torcida o rótulo de “amarelonas”.
Semifinal entre Brasil e Rússia nos Jogos Olímpicos de Atenas (2004)

Como explica a ex-líbero Fabi Alvim, com a clareza de quem vivenciou diretamente esse processo, o rótulo de “amarelona” não se sustenta apenas como uma análise esportiva, mas ganha força a partir da forma como aquelas atletas eram percebidas. Como em situações semelhantes envolvendo equipes masculinas, derrotas costumam ser explicadas por questões táticas, desempenhos individuais ou pela qualidade do adversário. No caso da seleção feminina, no entanto, a interpretação seguiu outro caminho: a derrota passou a ser associada ao emocional, como se evidenciasse uma suposta fragilidade.
Cobertura midiática que atribui a derrota ao fator emocional.

Além disso, como afirma o jornalista Daniel Bortoletto no documentário: “Arrisco a dizer que nenhum outro atleta brasileiro nos últimos tempos e, nesse caso, um grupo de atletas, ficou tanto tempo com uma chancela na testa de ‘somos amarelões, somos amarelões’” A repetição insistente desse rótulo ajuda a entender como determinadas narrativas se consolidam e ultrapassam o próprio jogo, moldando a forma como essas atletas passam a ser vistas publicamente.
Essa fama continuou assombrando a equipe nos anos seguintes, ganhando ainda mais força no vice-campeonato Mundial de 2006, no Japão. A maldade de parte da cobertura esportiva chegou a um nível que jornais publicaram manchetes pedindo, com todas as letras: “Que o feminino seja mais masculino”.
Manchete que reforça padrões masculinos como referência

Essa frase resume o preconceito, a força, a garra, a resiliência e o controle emocional eram vistos pela sociedade apenas como qualidades exclusivas dos homens. Portanto, para que uma mulher pudesse vencer, o mundo exigia que ela deixasse de agir como mulher e apagasse sua feminilidade, como se chorar ou demonstrar frustração fosse um crime esportivo. Ademais, a derrota na final do Pan-Americano de 2007, jogando em casa, no Maracanãzinho lotado no Rio de Janeiro só piorou as coisas, criou-se a ideia de que aquelas atletas “jogavam como nunca, mas perdiam como sempre”, ignorando o fato de que estar sempre em finais já era, por si só, um atestado da excelência técnica daquele grupo.
Seleção brasileira no pódio após o vice-campeonato no Pan-Americano de 2007.

Corpos julgados e a cobrança pela beleza
Além da imensa pressão psicológica por resultados, “As Bicampeãs” mostrou como o corpo das jogadoras era vigiado e julgado o tempo todo. Existe uma cobrança intensa, imposta quase exclusivamente às mulheres, por um padrão de beleza perfeito, mesmo quando elas estão exercendo uma profissão que exige o máximo de esforço físico.
A série mostra isso de perto ao lembrar do doping da ponteira Jaqueline antes do Pan de 2007. Ela caiu no exame antidoping por causa de um chá verde que tomou para combater celulites, mesmo conseguindo provar na justiça desportiva e reverter a punição, já que ficou claro que a substância não foi tomada para tirar nenhuma vantagem no jogo, o caso é um retrato da sociedade que apesar de ter sido a mais de 10 anos atrás, ainda carrega em partes esse pensamento.
Outrossim, mostra o quanto as atletas de elite sofrem para equilibrar a rotina exaustiva e pesada de treinamentos com a cobrança irreal para estarem sempre bonitas e dentro dos padrões estéticos das revistas de moda, logo a angústia de Jaqueline, que quase perdeu a carreira por conta da pressão estética.
Montagem de fotos da Bicampeã Jaqueline Carvalho

Naquela mesma época, a mídia esportiva também adorava chamá-las de “musas”, na qual as matérias frequentemente focavam mais na maquiagem que elas usavam, no corte de cabelo e no ajuste do uniforme do que no talento, no salto ou na potência do bloqueio delas. As jogadoras odiavam isso profundamente, elas queriam ser reconhecidas pelo que realmente eram, profissionais de altíssimo rendimento, que dedicavam horas intermináveis de suor na quadra, na academia e na fisioterapia.
Ensaio de fotos com a bicampeã Paula Pequeno

À vista disso, a central Thaísa traz um depoimento abertamente sobre não se arrepender de ter deixado uma juventude “normal” de lado (festas, viagens, família e amigos) pelo vôlei, pois encontrou no esporte o seu lugar no mundo. O vôlei foi um espaço de aceitação fundamental para uma mulher muito alta, musculosa e fora dos padrões comuns físicos da feminilidade que a sociedade impõe.
Outro ponto de análise sobre o corpo feminino trazido pelo documentário é a questão da medicalização e do mapeamento biológico. A comissão técnica de José Roberto Guimarães passou a monitorar intensamente o ciclo menstrual das atletas, inicialmente, essa atitude foi recebida como uma prática invasiva, no entanto, a ação se mostrou um diferencial na gestão do treinamento de cada jogadora, identificando até mesmo o impacto negativo que certos anticoncepcionais tinham no rendimento físico e comportamental.
Esse acompanhamento fisiológico, embora carregue sempre o risco de biologizar excessivamente o comportamento e o humor das atletas, foi ressignificado no contexto da seleção. Tornou-se um avanço da ciência do esporte, que finalmente parou de tratar o corpo humano como se fosse apenas masculino e passou a aplicar estudos voltados às especificidades do corpo feminino.
José Roberto Guimarães, técnico da seleção brasileira de vôlei feminino

Estrutura, carreira e desigualdades
A história da ponteira Paula Pequeno abordada no documentário é o exemplo de como o esporte de alto nível pode ser cruel com as mulheres no que diz respeito à vida pessoal e familiar. Ela descobriu que estava grávida no auge de sua forma física e técnica, a série relata que a atleta treinou com bola até o sexto mês de gestação e, apenas 45 dias depois do nascimento da sua filha, deixou ela no Brasil para cruzar o mundo e ir jogar o Campeonato Mundial no Japão.
A mídia e o público em geral costumam romantizar esse tipo de atitude, vendem isso como uma grande história de “superação” ou como prova da força inabalável de uma mãe heroína. Mas, na verdade, uma análise mais crítica escancara a falta de apoio e de estrutura para a maternidade no esporte. A mulher se vê obrigada a fazer sacrifícios absurdos e dolorosos, porque o sistema esportivo não perdoa pausas. É evidente que, se ela não voltasse rápido, corria o sério risco de ser esquecida, substituída ou de perder definitivamente o seu espaço conquistado na seleção. É uma pressão esmagadora, que expõe com clareza como a estrutura do esporte profissional foi moldada por homens e para homens, sem levar em conta as necessidades reais, biológicas e emocionais da vida da mulher.
Apesar das dificuldades expostas ao longo da série, é possível perceber que trajetórias como a de Paula Pequeno deixaram marcas importantes. As experiências vividas por essa geração contribuíram para abrir caminhos que, ainda que lentamente, começam a produzir mudanças no cenário atual. Um dos reflexos disso pode ser observado na carreira da líbero Nyeme Costa, destaque do Minas Tênis Clube e da Seleção Brasileira.
Diferentemente de momentos anteriores, após a conquista do bronze nos Jogos Olímpicos de Paris 2024, a atleta pôde realizar uma pausa planejada na carreira para vivenciar a maternidade. De volta à Superliga, Nyeme tem sido frequentemente vista com sua filha, Antonella, na Arena UniBH, em uma presença que, pouco tempo atrás, dificilmente seria naturalizada no ambiente esportivo.
A repercussão de uma cena em que a jogadora precisou se dirigir rapidamente ao vestiário, durante uma partida contra o Fluminense, para cuidar da bebê, evidencia essa mudança em curso. A imagem das companheiras celebrando vitórias ao lado da criança em quadra aponta para um deslocamento importante: o de um esporte que começa, ainda que de forma gradual, a reconhecer que a maternidade não precisa ser ocultada ou tratada como obstáculo para a permanência em alto nível.
Nyeme Costa e sua filha durante o treinamento do Minas Tênis Clube

Ainda assim, o documentário expõe desigualdades financeiras significativas nos bastidores da Confederação Brasileira de Voleibol, foi apenas após a conquista do ouro olímpico em 2008 que as jogadoras passaram a ter maior poder de negociação sobre as premiações. Até então, mesmo acumulando resultados expressivos, como os bronzes olímpicos de 1996 e 2000, as pratas em Campeonatos Mundiais e os títulos do Grand Prix, os valores conquistados não eram repassados às atletas. Trata-se de um contraste evidente com o que já ocorria, de forma mais consolidada, na seleção masculina.
Para além das questões financeiras, a própria estrutura de trabalho revela diferenças importantes, em algumas situações, decisões sobre viagens, como o acesso à classe executiva em voos, aparecem como benefícios condicionados ao status ou ao desempenho dentro da equipe. No entanto, para atletas de alto rendimento, especialmente no voleibol, em que a estatura média é elevada, viajar com espaço adequado está longe de representar um luxo.
Esse tipo de condição impacta diretamente a recuperação física, a circulação sanguínea em trajetos longos e a prevenção de dores e lesões, especialmente em regiões como coluna e joelhos. Quando aspectos básicos de cuidado passam a depender de critérios de mérito, cria-se um cenário em que o bem-estar das atletas deixa de ser ponto de partida e passa a ser algo a ser conquistado.
O pacto de Pequim e a virada épica em Londres
A virada de chave dessa geração começou em 2008, cansadas de serem constantemente associadas à ideia de fracasso e tratadas como o ponto frágil do esporte nacional, as jogadoras tomaram uma decisão, estabeleceram um pacto de silêncio e interromperam o contato com a imprensa brasileira. A estratégia funcionou como uma forma de proteger o grupo e reorganizar o foco, mas também o receio de Fofão, uma das atletas mais experientes do elenco, era claro, sem o ouro em Pequim, o investimento no voleibol feminino poderia sofrer um impacto significativo.
E a resposta ao silêncio veio dentro de quadra, focadas e dominantes, a seleção atropelou todas as grandes potências da época, incluindo China, Rússia e Estados Unidos, ganhando o primeiro ouro olímpico da história do voleibol feminino brasileiro, perdendo apenas um set em toda a competição. Como resumiu a líbero Fabi, “ganhar acaba com a discussão”. A conquista não apenas garantiu o título, mas também alterou imediatamente o tom das narrativas que cercavam a equipe. A imagem do chamado “avião da Fabi”, no ponto final contra os Estados Unidos, tornou-se um símbolo marcante daquele momento de alívio e afirmação das chamadas Meninas de Ouro.
Seleção brasileira feminina de vôlei medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Pequim 2008

No ciclo seguinte, porém, a pressão voltou com ainda mais força. Com a aposentadoria de jogadoras importantes e com o time atual sendo tratado como um grupo de celebridades intocáveis, a desconfiança da torcida reapareceu nos primeiros tropeços. A primeira fase dos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, foi terrível para o Brasil, classificando-se no limite para o mata-mata.
Foi nesse contexto que a equipe protagonizou um dos jogos mais emblemáticos da história do voleibol, nas quartas de final contra a Rússia, salvando seis match points (ponto do jogo) no tie-break, a seleção brasileira conseguiu uma virada que ultrapassa qualquer leitura puramente tática. A atuação de Sheilla Castro naquele momento sintetiza o nível de concentração e intensidade exigido, mais do que uma vitória, aquele jogo representou a superação definitiva de um passado que ainda ecoava.
Com uma campanha de recuperação consistente, o Brasil chegou novamente à final olímpica e conquistou o bicampeonato diante dos Estados Unidos. Assim, a vitória em Londres consolidou o que já havia sido construído em Pequim, não se tratava de um resultado isolado, mas de um processo sustentado por trabalho, continuidade e alto nível técnico.
Seleção brasileira feminina de vôlei medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Londres 2012

O preço do ouro e a visão dentro de quadra
Apesar das conquistas, dos sorrisos no pódio e do reconhecimento público, a série não ignora as partes mais difíceis da trajetória esportiva, ao contrário, abre espaço para que elas apareçam com a mesma intensidade. Por conseguinte, Paula Pequeno fala de forma direta sobre o custo dessa escolha, a formação acadêmica deixada em segundo plano, as tensões vividas em um relacionamento longo, a culpa por passar períodos afastada da filha ainda pequena e, sobretudo, as marcas físicas que permanecem após anos de alto rendimento, lesões, cirurgias e dores que seguem presentes mesmo após o fim da carreira.
Ainda assim, o sentimento que atravessa esses relatos não se limita à ideia de perda, há também um reconhecimento do que foi construído coletivamente, na qual a trajetória dessas atletas ajuda a compreender como o esporte se sustenta, em parte, por histórias que inspiram e mobilizam outras gerações. Nesse processo, ocupar esse lugar envolve não apenas conquistas, mas também escolhas difíceis e consequências duradouras.
Essa dimensão se torna ainda mais evidente na forma como o documentário é construído, não se limita às entrevistas e opta por manter lances longos, ralis completos e momentos decisivos sem cortes abruptos, a obra permite que o jogo se imponha por si só. Rever o rali do match point contra a Rússia, acompanhando o cansaço acumulado, a organização tática e a tensão antes de cada saque, produz uma compreensão que vai além da explicação verbal. É na quadra, no ritmo do jogo, que a dimensão do que essas atletas realizaram se torna plenamente visível.
Assim, o legado dessa geração ultrapassa as medalhas conquistadas, em retrospectiva, ele se manifesta sobretudo nas transformações produzidas dentro e fora das quadras. Fofão, por exemplo, seguiu no esporte como técnica das categorias de base da seleção brasileira, ocupando um espaço de liderança historicamente masculino. Já Fabi Alvim e Paula Pequeno levaram sua experiência para a televisão, ampliando a presença de mulheres na análise do jogo.
Ao mesmo tempo, trajetórias como as de Thaísa Daher e Jaqueline Carvalho evidenciam a continuidade de carreiras em alto nível, mesmo após ciclos olímpicos intensos e episódios de lesão. Esses percursos tensionam expectativas sobre duração de carreira e desempenho, frequentemente naturalizadas no esporte. Como aponta Sheilla Castro ao final da série, comparar gerações diferentes tende a simplificar trajetórias construídas em contextos distintos.
Em suma, “As Bicampeãs” permite compreender que essas conquistas não se limitam ao resultado esportivo. Ao longo do tempo, essas atletas contribuíram para ampliar as formas de presença e permanência de mulheres no esporte de alto rendimento, mostrando que desempenho, emoção e identidade podem coexistir sem que uma dimensão precise anular a outra.
REFERÊNCIAS
AS BICAMPEÃS. Direção: Eduardo Hunter Moura. Produção: SporTV; Globoplay. Brasil, 2024. Série documental (4 episódios). Produzido em 2023. Disponível em: Globoplay.
CYRNE, Rafael; BUENO, Pedro. Vídeo: Nyeme vai ao vestiário durante jogo do Minas na Superliga de Vôlei para cuidar da filha. No Ataque, 31 out. 2025. Disponível em: https://noataque.com.br/volei/superliga-feminina-de-volei/noticia/2025/10/31/video-nyeme-vai-ao-vestiario-durante-jogo-do-minas-na-superliga-de-volei-para-cuidar-da-filha/. Acesso em: 26 abr. 2026.
GOELLNER, Silvana Vilodre. Mulheres e esporte no Brasil: entre invisibilidades e protagonismos. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, São Paulo, v. 19, n. 2, 2005.
RUBIO, Katia. Atletas olímpicos brasileiros. São Paulo: Sesi-SP Editora, 2015.
* Esta resenha foi produzida como atividade da disciplina Comunicação, Esporte e Gênero ofertada no modelo interinstitucional (PPGCOMs da UFMG e da UFPE) no semestre 1 de 2026 pelas professoras Ana Carolina Vimieiro e Soraya Januário.

