Perfil: Mariana Becker e a ressignificação do feminino no paddock

Por Luiza Fonseca Lima (@luiza_fonsecal)*

O autódromo de Interlagos, em um domingo de corrida, é mais do que um circuito de asfalto, pode ser compreendido como um espaço social estruturado por relações de poder, no qual diferentes agentes disputam legitimidade, visibilidade e reconhecimento. Historicamente, o automobilismo consolidou-se como um ambiente dominado por uma masculinidade hegemônica que define quem pode falar, como pode falar e quais corpos são considerados legítimos naquele espaço. Nesse cenário, a presença feminina não é apenas minoritária, mas frequentemente tensionada por expectativas e estereótipos que limitam sua atuação. 

É nesse contexto que, há mais de três décadas, emerge a figura de Mariana Becker. Mari Becker, como é conhecida, não é apenas uma jornalista esportiva, é uma agente de transformação em um universo onde, quando começou, as redações esportivas eram majoritariamente compostas por homens. Através de sua trajetória, que transita entre a Rede Globo e a Band, Becker não apenas narra a história da Fórmula 1, ela utiliza sua posição para subverter a “estética da limitação” imposta às mulheres no esporte, provando que a competência técnica e a sensibilidade podem coexistir no asfalto. 

Mariana Becker no GP de São Paulo 2024

A trajetória de Mariana Becker antes de se tornar a “voz da Fórmula 1” é fundamental para entender a construção de seu habitus, ou seja, as disposições duráveis e transponíveis que orientam sua ação no mundo. Nascida em Porto Alegre em 1971, Mariana Becker cresceu em um ambiente que, embora não fosse de fãs fervorosos de automobilismo, não impôs as barreiras tradicionais de gênero em sua criação. Diferente de muitas mulheres de sua geração, Mariana não foi educada sob a “estética da limitação” descrita por Susan Brownmiller, que impõe restrições físicas e de visão às mulheres. Filha de um ginecologista e uma graduada em literatura inglesa, Mari e seus cinco irmãos receberam tratamento igualitário do pai. Essa base familiar foi fundamental para o desenvolvimento de um habitus que não via o esporte radical como um tabu.

Desde cedo, Mariana demonstrou autonomia e curiosidade pelo mundo. Ainda na adolescência, aos 15 anos, viajava sozinha com sua prancha de surfe, caneta e produziu narrativas sobre mulheres que ocupavam espaços considerados incomuns. Aos 17, começou a escrever sobre mulheres interessantes, focando em pioneiras como a primeira mulher a voar de asa-delta no Rio Grande do Sul. Essa curiosidade pelo “outro” e pela quebra de normas de gênero seria a marca de sua carreira.

Como define Silvana Goellner, o corpo feminino é uma construção social sobre a qual se inscrevem marcas de gênero. Nesse sentido, a trajetória de Mariana evidencia uma reconfiguração dessas inscrições, ao deslocar o corpo feminino de uma posição de limitação para uma de ação e protagonismo. Com a resiliência de sempre, Mariana começou a carreira escrevendo sobre o que vivia, na época, o surfe, depois vela, mas houve também o momento em que escreveram sobre ela, quando praticava mais ativamente esportes, como as trilhas do Rally dos Sertões, onde atuou como piloto e navegadora.

“Só uma Loira de Olhos Claros” 

A entrada de Mariana no jornalismo esportivo da Rede Globo, em 1995, colocou-a em rota de colisão com a violência simbólica. Em diversas ocasiões, ouviu comentários que associavam sua competência à aparência física, formas de deslegitimação recorrentes, nas quais mulheres têm sua credibilidade questionada por critérios que não se aplicam aos homens. No caso de Mariana, seu corpo não foi treinado para a “docilidade” ou para a “fragilidade vitoriana”, mas para a resiliência e para o enfrentamento de territórios de incerteza.
Em entrevista ao Notícias da TV, relatou enfrentar discriminações de gênero. Entre relatos de sexismo, machismo e misoginia relata: “Eu ouvia coisas do tipo: ‘Você consegue isso porque é loira de olhos verdes’. Comentários que nenhum homem ouviria”, revela a jornalista. Essa desvalorização da informação em prol da estética pode ser compreendida como manifestação de violência simbólica, na medida em que reforça hierarquias e limita as possibilidades de reconhecimento profissional. A necessidade constante de reafirmação evidencia que a presença feminina nesses espaços não ocorre em condições de igualdade, sendo atravessada por expectativas e julgamentos específicos.

Enfrentou esse “universo de incertezas” com resiliência, perguntando-se a cada crítica se sua vontade de fazer jornalismo era maior do que a hostilidade do meio. E podemos observar que, sim, é. Defendida pelos pilotos e amada pelos brasileiros, é conhecida pelas suas perguntas relevantes e fundamentadas, além de relatar o Paddock com a proximidade que muitas vezes o telespectador não consegue presenciar.

Lando Norris elogia e defende Mariana Becker no Grande Prêmio da Áustria de Fórmula 1 em 2023

Fonte: Youtube / Canal Decifrando F1.

Com a maturidade profissional, Mariana Becker deixou de tentar apenas “se encaixar” para passar a ditar novas narrativas. A transição de Mariana Becker da Rede Globo para a Band, em 2021, marca um ponto de inflexão na sua agência profissional e na forma como o esporte é mediado para o público. Após 27 anos na Globo, onde a cobertura muitas vezes seguia padrões mais rígidos de “isenção” e foco técnico.

Ssua ida para a Band, em 2021, permitiu uma liberdade criativa, onde ela pôde humanizar as transmissões, um processo que desafia a “razão pura” masculina do campo automobilístico. Mariana passou a introduzir elementos sensoriais e narrativos que retiram o piloto do pedestal de “super-homem” para mostrá-lo como um sujeito complexo. Um exemplo emblemático é sua descrição de que “a Ferrari tem cheiro de café”, ou mesmo os relatos pessoais do seu dia-a-dia em contato com o grid. Esse tato, retira o esporte do campo meramente técnico e estatístico para inseri-lo no campo da experiência humana e da desrotinização da vida cotidiana.


Na Band, Mariana passou a ocupar a função de “comentarista de bastidores” e não apenas repórter, o que lhe confere maior poder simbólico para ditar o que é relevante na notícia. Ela utiliza essa liberdade para mostrar os “perrengues” de viagem e a logística exaustiva, de-sacralizando a imagem glamourizada da F1 e aproximando o espetáculo da experiência cotidiana das torcedoras.

Nas redes sociais, Mari utiliza sua plataforma (com mais de 574 mil seguidores) para construir uma autorrepresentação que permite o re-significado do que é ser uma “mulher no esporte”. Ela não se apresenta apenas como a voz da técnica, mas como um sujeito complexo que vive e apresenta seu pessoal enquanto viaja o mundo, tema central de seu livro “Não Inventa, Mariana”. O título do livro, inclusive, é uma resposta satírica às frases desencorajadoras que ouviu ao longo da vida.

Capa do livro “Não inventa, Mariana”

Fonte: Amazon.com.br.

Seu livro reforça essa perspectiva ao apresentar relatos que dialogam com sua trajetória pessoal e profissional, evidenciando como experiências individuais podem se conectar a questões estruturais mais amplas. Além disso, possibilita aprender com suas vivências e a partir delas inspirar novas mulheres a entrarem para o ramo do automobilismo.

 Mariana Becker na noite de autógrafos de seu livro

Foto: Valentine Boutsiavaras/Revista Esquinas.

A trajetória de Mariana Becker é um espelho das mudanças no Global Sport Media Complex. Em entrevista para o Uol, relata que antes a mulher era apenas acompanhante ou “musa” nos bastidores, hoje ela é reconhecida como um mercado consumidor vital e uma contadora de histórias essencial. Mariana observou de perto a transformação de pilotos como Lewis Hamilton em ativistas, conectando a pista com questões de raça e justiça social.

Ao retornar para a Rede Globo em 2026, agora como comentarista, Mariana Becker consolida seu lugar de fala. Ela não precisa mais pedir permissão para entrar no paddock, ela ajudou a redesenhar as regras do jogo. Hoje as mulheres já representam cerca de 42% do público total. Ainda que esse cenário tenha passado por mudanças nas últimas décadas, com maior presença feminina nas redações e no público da Fórmula 1, a desigualdade de gênero permanece evidente, sobretudo nos cargos de maior visibilidade e autoridade. A presença de Mari contesta a ideia de que o esporte é um domínio exclusivamente masculino, mostrando que “enquanto houver gente, há histórias para contar”.

Nesse sentido, a atuação de Mariana Becker também pode ser compreendida a partir da recepção do público, especialmente das mulheres que acompanham a Fórmula 1. Sua presença no paddock não apenas informa, mas produz identificação, funcionando como mediação simbólica entre o espectador e um espaço historicamente percebido como inacessível. Ao ocupar esse lugar, contribui para ampliar o sentimento de pertencimento feminino no esporte, aspecto que tem sido apontado como central nas motivações de mulheres que se interessam por eventos automobilísticos. 

A trajetória de Mariana Becker evidencia que o esporte é um campo atravessado por disputas simbólicas que definem formas de pertencimento e reconhecimento. Sua atuação no jornalismo esportivo demonstra como práticas profissionais podem contribuir para tensionar normas de gênero e ampliar possibilidades de participação.

Ela utilizou o esporte para desconstruir a representação naturalizada da fragilidade feminina, transformando cada entrevista e cada crônica em um ato de resistência cotidiana. Seu percurso indica que a ampliação da presença feminina no esporte envolve transformações que vão além da representação numérica, alcançando dimensões simbólicas e culturais que impactam a forma como o esporte é vivido e narrado. Seu perfil é o de uma “guria” que não parou de “inventar”, e que ao fazê-lo, abriu caminho para que milhares de outras meninas não precisassem pedir ajuda para “subir nos carros” da vida profissional, elas agora sabem que podem pilotá-los. 

REFERÊNCIAS

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BECKER, M. Não Inventa, Mariana. Editora Labrador, 2022.

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HARPER’S BAZAAR. Mariana Becker: mais que jornalista, uma contadora de histórias. 2024. Disponível em: https://harpersbazaar.uol.com.br/estilo-de-vida/mariana-becker-mais-que-jornalista-uma-contadora-de-historias/. Acesso em: 24 abr. 2026.

MCKAY, J.; MESSNER, M. A.; SABO, D. (Eds.). Masculinities, Gender Relations, and Sport. Thousand Oaks/California: Sage, 2000.

PIRES, F. Mari Becker ouvia que era ‘só uma loira de olhos claros’ enquanto fazia história na F1. Notícias da TV, 2024. Disponível em: https://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/televisao/mari-becker-ouvia-que-era-so-uma-loira-de-olhos-claros-enquanto-fazia-historia-na-f1-139130. Acesso em: 24 abr. 2026.

SERTÕES. Entre desafios e superações, Mariana Becker relembra título do Sertões em 2003. Disponível em: https://sertoes.com.br/entre-desafios-e-superacoes-mariana-becker-relembra-titulo-do-sertoes-em-2003/. Acesso em: 24 abr. 2026.

UOL AD LAB. Insights: Fãs da Fórmula 1. 2024. Disponível em: https://blog.publicidade.uol.com.br/insights/fas-da-formula-1/. Acesso em: 24 abr. 2026.

* Esta resenha foi produzida como atividade da disciplina Comunicação, Esporte e Gênero ofertada no modelo interinstitucional (PPGCOMs da UFMG e da UFPE) no semestre 1 de 2026 pelas professoras Ana Carolina Vimieiro e Soraya Januário.

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