Por Enzo Beber (@enzobeber) e Maria Polito (@maria_polito_)*
Os esportes femininos ocupam, cada vez mais, um local de destaque no mundo do entretenimento. As Olimpíadas contribuem ativamente para tal crescimento, colocando nos holofotes atletas excelentes que, em um cenário comum, não teriam tanto espaço. Nomes como Bia Souza, Beatriz Ferreira e Ana Marcela Cunha mantêm-se em esportes de alta-performance constantemente durante os quatro anos que antecedem o maior evento olímpico do mundo, entretanto, só têm reconhecimento do maior público ao ganharem medalhas. Ainda que seja importante e significativa a maior exposição durante eventos mundiais, as modalidades femininas e as atletas são símbolo de resistência em um meio tradicionalmente masculino.
Ilona Maher, atleta estadunidense de 29 anos, já competiu em duas edições das Olimpíadas e se mostra um destaque dentro e fora das quadras. Em Paris, ganhou medalha de bronze no rugby sevens pelo time dos Estados Unidos. Nas redes sociais, acumula mais de nove milhões de seguidores e utiliza o espaço para promover assuntos importantes, sendo o principal a positividade corporal. Maher é um exemplo de força no mundo esportivo e, on-line, prova-se influente e presente do mesmo modo.
De poliatleta à promessa do rugby
Incentivada desde cedo nos esportes pelo pai, Ilona Maher tem história como poliatleta nas quadras de field hockey, basquete, softball e futebol antes de transacionar para o rugby sevens durante sua passagem pela Universidade de Quinnipiac, pela qual possui um diploma em enfermagem. Após liderar o time universitário em duas vitórias consecutivas do Campeonato Nacional NIRA, Maher ganhou, em 2017, o MA Sorensen Award, prêmio que reconhece as melhores atletas universitárias de rugby dos Estados Unidos.
O prêmio, que honra excelência, liderança e impacto na modalidade, foi apenas o início da carreira da atleta. Em 2018, teve participação na vitória do título da Las Vegas Invitational’s Elite pela Scion Rugby Academy. Ainda no mesmo ano, foi convocada para o Paris Sevens de 2018, seu primeiro torneio internacional, e para a Rugby World Cup Sevens 2018, na qual o time estadunidense conquistou o quarto lugar na primeira Copa do Mundo de Rugby. Em 2021, foi convocada para as Olimpíadas de Tóquio de 2020 e, nas Olimpíadas de Paris de 2024, conseguiu, em sua segunda participação no evento, a medalha de bronze.
Embora seja conhecida no mundo do rugby, sendo citada pela Forbes em 2023 como uma das jogadoras mais empolgantes da modalidade, Ilona Maher só virou realmente famosa em 2024, após publicações no TikTok sobre sua participação nas Olimpíadas de Paris. Com uma atitude que celebra o esporte feminino, as mulheres e o movimento body positivity, a atleta cresce de maneira significativa nas redes sociais e se estabelece como figura pública que luta pela visibilidade de seus ideais.
Este artigo busca analisar as postagens de Maher em seu perfil no Instagram (@ilonamaher) no período das Olimpíadas de Paris de 2024. Serão investigadas duas categorias: qual personagem a atleta performa na postagem e de que modo a atleta se posiciona e expõe seu corpo nas fotos e vídeos.
Entre a força e a visibilidade
O rugby, atualmente, ainda se encontra na segunda prateleira dos esportes estadunidenses quando comparado aos “grandes”, como futebol americano (NFL), basquete (NBA) e beisebol (MLB). A fim de comparação, a final da Major League Rugby de 2024 recebeu 12.085 espectadores, enquanto o Super Bowl de 2024 teve público de 61.629 pagantes – para além do recorde de audiência no país com 127,7 milhões de espectadores.
Contudo, apesar de ainda não ter o mesmo prestígio de tais modalidades, o rugby vem conquistando seu espaço, principalmente entre as mulheres. Dados da USA Rugby mostram crescimento de 12% no número de jovens praticantes em 2024, com aumento expressivo da participação feminina. Nas universidades, existem mais de 400 equipes femininas, quase igualando o número masculino. E, no nível profissional, a criação da Women’s Elite Rugby, que estreou em 2025, substituindo a liga amadora Women’s Premier League (WPL), simboliza um novo marco para o esporte no país.
Globalmente, o rugby norte-americano se mantém competitivo, sobretudo no formato de 7 jogadores (7s). Tanto a seleção masculina quanto a feminina têm bom desempenho internacional. No estudo A Blueprint For Growth, da World Rugby, o engajamento de fãs aumentou 69% nos últimos quatro anos nos Estados Unidos e quase metade do público que acompanha o rugby feminino no mundo é formado por mulheres — um dado que desafia o estereótipo de um esporte exclusivamente masculino.
Destaca-se, nesse quesito, um ponto importante: a conquista do bronze olímpico. Após a conquista, aumentou o interesse pelo esporte no país, além do investimento de US$ 4 milhões da empresária Michele Kang para o programa feminino de sevens, de modo a incentivar a produção e o preparo de atletas. Em matéria publicada no The National Collegiate Athletic Association, Ilona incentiva: “We need more girls in the U.S. trying rugby” (Precisamos de mais meninas nos EUA praticando rúgbi, tradução nossa). Após as olimpíadas, a atleta ganhou cerca de 1,5 milhão de seguidores no Instagram com seus vídeos (que serão analisados mais abaixo).
Esse movimento reflete uma transformação cultural. O rugby — tradicionalmente associado à força, brutalidade e resistência — é reapropriado por mulheres que o transformam em palco de empoderamento e visibilidade. A jogadora Ilona Maher, por exemplo, ganhou projeção não apenas por sua performance, mas por reivindicar a liberdade de ser forte e feminina ao mesmo tempo, desafiando o padrão estético imposto às atletas.
Maher e a positividade corporal
Ilona Maher é uma mulher de 1,78m de altura e com cerca de 90kg, com um corpo que foge dos padrões de beleza estabelecidos pela sociedade. Ainda que seu corpo seja musculoso, saudável e exatamente o que lhe permite ser excelente em sua modalidade, para o público, há algo de errado. Em uma era em que os padrões estéticos são dominados pela magreza extrema e pelo uso de medicamentos para perda de peso, Maher é uma figura que desafia o que se espera esteticamente de uma mulher, principalmente ao se considerar o modo com que performa feminilidade.
Body positivity é definido como um movimento que promove a aceitação e o amor próprio por todos os tipos de corpo, independentemente da aparência, tamanho, forma ou características físicas. O movimento de positividade corporal é praticado por Maher em muitos dos posts a serem analisados neste tópico.
Jaeger e Goellner (2012) analisam a produção de feminilidades no fisiculturismo, esporte que tensiona a normatividade das performances de gênero. As autoras abordam a extrapolação do volume muscular, que é visto, comumente, como preocupante e que pode colocar em questão a feminilidade da mulher, que corre risco de masculinização. É citado ainda como mulheres musculosas são percebidas como sujeitos desviantes, que, por possuírem um físico que chama a atenção, são incentivadas a investir em atributos que indiquem a feminilidade normativa da qual seus corpos desviam.
Ainda que Ilona Maher não pratique fisiculturismo e possua um corpo distinto do presente no esporte, é possível fazer um paralelo entre os dois universos. A produção de hiperfeminilidade citada pelas autoras pode ser vista na atleta, como o uso de maquiagens destacadas, unhas pintadas e poses delicadas (no caso de Maher, presentes nas redes sociais, não na performance esportiva). É necessário ainda considerar que Ilona é atleta de um esporte visto como violento e que exige muita força física, o que, por si só, já provoca e opõe o que se espera do papel de uma mulher na sociedade.
Maher é bastante musculosa, mas parte de seu conteúdo nas redes é apresentar a realidade de uma atleta de elite cujo corpo é constantemente objeto de debate, mas que é natural e saudável. É possível observar que a atleta não tem vergonha alguma de seu físico, muito pelo contrário, mas, ainda assim, mostra-se uma pessoa que performa feminilidade de maneira sutil, mas perceptível.
Ilona Maher – IMC de 30%

No vídeo acima, Ilona responde ao comentário sobre seu Índice de Massa Corporal (IMC) provavelmente ser maior que 30%. Maher afirma que realmente tem em torno dessa porcentagem e que a vida inteira foi vista como acima do peso, mas que já foi à nutricionista, a qual afirmou que IMC não é exatamente útil para atletas, já que o índice não é capaz de determinar o que uma pessoa pode ou não fazer. O post exemplifica a participação da atleta no movimento body positivity, ao mostrar para seus seguidores que um número em um papel não pode determinar as capacidades de alguém.
Ilona Maher – parceria com a New Era

Na postagem em parceria com a marca New Era, Ilona utiliza vestuário que mostra seus ombros e braços, posando de modo a evidenciar seu corpo e seus músculos, mas, ainda assim, possui um ar de feminilidade, marcada pela maquiagem, mesmo que sutil.
Ilona Maher – Gainlines Fitness

No vídeo cômico acima, a atleta demonstra interesse em aparecer na Gainlines Fitness, perfil nas redes sociais que posta atletas com corpos de alto rendimento. A legenda no vídeo se traduz para “Fazendo tudo que podemos para termos um post na Gainlines Fitness”. O post é exemplo de como Maher se posiciona de modo a evidenciar seus músculos e posta sua presença na academia e tudo que faz para manter o corpo como está.
Ilona Maher – Você não quer ficar muito musculosa

A legenda em branco no vídeo se traduz como “Tome cuidado para não levantar muito peso. Você não quer ficar muito musculosa”. A legenda do post se traduz como “Você talvez não ache um marido se você ficar muito forte; perfeito, eu não iria querer esse cara de qualquer jeito”. Apesar do tom cômico, o vídeo traz o movimento body positivity ao deixar claro o que a atleta pensa sobre se moldar e deixar de ser ela mesma para encontrar um parceiro.
Ilona Maher – Ombros grandes e largos

No vídeo acima, Maher responde a comentários que falam sobre seus ombros serem muito largos e não femininos, incentivando pessoas que têm características similares a ficarem mais confiantes em si mesmas. A legenda do post se traduz como “Já é hora de começarmos a amar e apreciar nossos ombros grandes, largos e maravilhosos e eu não vou parar até que todos coloquem seus ombros para jogo com orgulho.”
Ilona Maher – Rumo à Paris

No post, que a atleta fez em preparação para as Olimpíadas, ela expõe seus músculos.
Ilona Maher – Manequim padrão

Neste vídeo, a atleta faz piada sobre o manequim de corpo padrão do posto de recolhimento de uniformes e roupas casuais do Team USA. Ainda que seja em tom cômico, a atleta expõe o modo como, mesmo em um local cheio de atletas com corpos diferentes, o físico padrão ainda é o usado em manequins.
Ilona Maher – Não teria isso se não tivesse tido você

A legenda em branco do vídeo se traduz para “Não teria isso, se não tivesse tido você”, referindo-se a ela mesma nas Olimpíadas. A mesma não existiria caso não houvesse ela quando mais nova. Parte da legenda do post se traduz para “Foi dito a ela para ir mais devagar, não lançar tão forte e não ocupar tanto espaço. Ela foi julgada pelo seu tipo de corpo e chamada de masculina. Foi olhada pelos seus ombros largos e corpo poderosos, mas nunca deixou que isso a impedisse de ser ótima. Os esportes pegaram uma garota grande de Vermont e lhe deram um lugar. Deram ao seu corpo um propósito.”
Muito mais do que uma atleta
A atleta não se limita aos campos: ela é inspiração para milhões de pessoas. Brincadeiras, trends e questões cotidianas recheiam seu feed no instagram, aproximando-a do público ao se mostrar ser “gente como a gente”. Assim, ao olharmos para sua página na plataforma, observamos diversas personalidades: a jogadora, a engraçada, a modelo, a publicitária. Ilona, acima de tudo, mostra uma faceta muitas vezes irreconhecível em outras personalidades: ela é gente como a gente.
Ilona Maher – Camas de papelão

Nesse vídeo, Ilona interpreta como se cobrasse a organização da Vila Olímpica a tratar bem a ela e a “suas meninas”, brincando com a questão das camas de papelão, que viralizaram na época. Esse tom de leveza tem dois efeitos principais: primeiro, aproxima a atleta de seguidora/es que buscam identificação, e, segundo, contrasta com o estereótipo de atleta inacessível. Em parte, isso forma uma ponte entre “mulher forte”, “campeã”, e “mulher como eu”, o que amplia seu apelo, visibilidade e, principalmente, identificação com o público..
Ilona Maher – Quem é a mais?

O reels une esporte, humor e publicidade. Em tom descontraído, as atletas da seleção dos EUA de rugby são questionadas sobre “quem é a pessoa que mais transpira do time?”, e (quase) todas respondem de bate-pronto: Ilona. Enquanto isso, Maher parece confusa, e pensa bastante. Ao final, tudo se revela: se trata de uma propaganda de desodorantes.
Percebe-se, portanto, como Ilona extrapola o conceito de atleta e, também, desafia os estereótipos de sua modalidade: apesar de durona e uma mulher bastante forte, ela não deixa de ser doce e carismática ao participar da brincadeira. Ela se posiciona não apenas como atleta, mas, novamente, como uma pessoa comum, assim como a gente, que se diverte e que tem outras facetas para além daquela majoritariamente apresentada em campo.
Ilona Maher – Gente como a gente

Por fim, a publicação acima reforça ainda mais a essência de “gente como a gente” em seu Instagram. Ela também vislumbra a oportunidade de ir à França, de passear e de conhecer novos lugares, fugindo da unicidade atlética e explorando as diferentes faces de uma pessoa comum. No post, não vemos a Vila Olímpica, chuteiras e nem propagandas. Vemos, apenas, Ilona, uma jovem estadunidense de Burlington, Vermont, de 29 anos, aproveitando sua viagem pela França.
Conclusão
Em um esporte marcado pela força, Ilona demonstra, também, sua doçura e simplicidade tanto dentro quanto fora dos campos. Em um ambiente regado de estereótipos “masculinizados” de força, a atleta mostra que não se trata apenas de músculos – o que tem de sobra e, sempre que pode, faz questão de exibir. Mais do que medalhista olímpica, Ilona Maher tornou-se símbolo cultural e modelo de identificação para muitas mulheres nos Estados Unidos.
Sua postura inspira outras a se reconhecerem em ambientes antes considerados “masculinos”, naturalizando a presença feminina no rugby e em outras modalidades de contato. Assim, Maher não apenas amplia a visibilidade do rugby feminino, mas também contribui para a transformação de valores — mostrando que ser mulher pode, sim, significar ser forte, competitiva e protagonista, sem abdicar de sua delicadeza, sensibilidade e, principalmente, sua beleza.
Ilona prova que uma mulher pode cumprir vários papéis em uma sociedade: atleta, influencer, modelo e apenas pessoa. O que a atleta faz nas redes sociais é extremamente importante para que o rugby e o movimento body positivity sejam mais reconhecidos.
REFERÊNCIAS
CAHILL, C. USA Rugby partners with ChildFund Rugby to empower women community leaders to create change. Disponível em: <https://usa.rugby/news/usa-rugby-partners-with-childfund-rugby-to-empower-women-community-leaders-to-create-change-2023118?>. Acesso em: 4 nov. 2025.
FREE. Burlington’s Maher named nation’s top rugby player. Disponível em: <https://www.burlingtonfreepress.com/story/sports/2017/05/05/burlingtons-maher-named-nations-top-rugby-player/101348658/>. Acesso em: 4 nov. 2025.
FRYE, A. Is Ilona Maher Rugby’s Most Exciting Player? Disponível em: <https://www.forbes.com/sites/andyfrye/2023/06/07/is-ilona-maher-rugbys-most-exciting-player/>.
HASSAN, A. Who is Ilona Maher? A Breakout Rugby Star Before Her First Olympic Match. Disponível em: <https://www.nytimes.com/2021/07/28/sports/olympics/ilona-maher-rugby-tik-tok.html>.
Ilona Maher. Disponível em: <https://web.archive.org/web/20210430044236/https://www.usa.rugby/player/ilona-maher/>. Acesso em: 4 nov. 2025.
Ilona Maher. Disponível em: <https://www.teamusa.com/profiles/ilona-maher-1118568>.
Ilona Maher. Disponível em: <https://eagles.rugby/players/ilona-maher/2562>.
IOC. Ilona MAHER. Disponível em: <https://www.olympics.com/en/athletes/ilona-maher>.
JAEGER, A. A.; GOELLNER, S. V. O músculo estraga a mulher? a produção de feminilidades no fisiculturismo. Revista Estudos Feministas, v. 19, n. 3, p. 955–976, dez. 2011.
Maher Makes Most of Young 7s Career – The Rugby Breakdown. Disponível em: <https://therugbybreakdown.com/2018-07-20-maher-makes-most-of-young-7s-career/>. Acesso em: 4 nov. 2025.
NCAA.ORG. Ilona Maher Leads U.S. Women’s Rugby to Historic Olympic Bronze, Eyes Growth in College Programs. Disponível em: <https://www.ncaa.org/news/2024/7/31/olympics-us-rugby-team-hopes-olympic-medal-increases-number-of-college-opportunities?>. Acesso em: 4 nov. 2025.
Team USA medals for first time in Paris Olympic women’s rugby, beating Australia. Disponível em: <https://www.cbsnews.com/news/olympics-paris-womens-rugby-bronze-medal-ilona-maher/?>. Acesso em: 4 nov. 2025.
Team USA Paris 2024 Olympic Rugby Team. Disponível em: <https://www.teamusa.com/paris-2024/olympics/sports/rugby>.
US Collegiate Rugby Membership By The Numbers. Disponível em: <https://goffrugbyreport.com/news/us-collegiate-rugby-membership-numbers>. Acesso em: 4 nov. 2025.
USA Youth and High School Rugby Celebrates Milestone of Over 50,000 Registrations. Disponível em: <https://www.usayhs.rugby/news/usa-youth-and-high-school-rugby-celebrates-milestone-of-over-50-000-registrations?>. Acesso em: 4 nov. 2025.
Women’s Elite Rugby | About. Disponível em: <https://www.womenseliterugby.us/about#TheHistoryofWER>. Acesso em: 4 nov. 2025.
WORLDRUGBY.ORG. World Rugby launches “A Blueprint for Growth – Women’s Rugby” – the most comprehensive fan, data and commercial analysis ever undertaken in the women’s game | World Rugby. Disponível em: <https://www.world.rugby/news/1002587/world-rugby-launches-a-blueprint-for-growth-womens-rugby-the-most-comprehensive-fan-data-and-commercial-analysis-ever-undertaken-in-the-womens-game?>. Acesso em: 4 nov. 2025.

