“VAMOS JUNTAS!”: Análise do Instagram da Seleção Feminina durante a Copa América 2025

Por Ellen Canabrava (@ellencanabrava) e Mariana Taveira*

    A Seleção Feminina de Futebol possui um perfil próprio no Instagram, gerenciado pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF). O perfil, cujo nome de usuário é @selecaofemininadefutebol, é dedicado à criação, promoção e divulgação de diversos conteúdos relacionados às mulheres que vestem a camisa amarelinha — como ações das quais participam ou que apoiam indiretamente, registros de treinos e preparações para partidas, agenda de competições e escalações pré-jogo.

    Embora a data exata de criação da conta não esteja especificada, o perfil principal da CBF (@brasil, anteriormente @cbf_futebol) já publicava sobre a Seleção Feminina e marcava o perfil dedicado a ela pelo menos desde julho de 2021, em uma postagem relacionada aos Jogos Olímpicos — o que indica que a conta já estava ativa nessa época. Vale ressaltar que, mesmo com a Seleção Feminina possuindo um perfil próprio, a CBF não deixou de compartilhar conteúdos sobre ela também no Instagram principal, o @brasil.

    Neste estudo, será analisado como o Instagram da Seleção Feminina, durante a Copa América 2025, construiu performatividades de gênero, visibilidade e narrativa. A análise se dividirá em três eixos — (1) Performance de Gênero e o “Feminino” Disputado, (2) Estratégias de Visibilidade e a Lógica Institucional e (3) Narrativa Institucional e o Discurso do Futebol Feminino — e buscará compreender quais narrativas a CBF está construindo em torno das mulheres que defendem a amarelinha. Além disso, serão investigados os modos como a instituição redefine ou reafirma estereótipos que recaem sobre o que significa ser mulher e jogar futebol, bem como as implicações disso nas percepções do público sobre essas atletas.

    Metodologia

    Para essa investigação, serão analisados os enquadramentos usados em fotos e vídeos, as legendas e a periodicidade das publicações feitas durante a Copa América Feminina 2025 no perfil @selecaofemininadefutebol. Vale destacar que a competição aconteceu entre os dias 11 de julho e 3 agosto, mas antes e depois dessas datas houve publicações que faziam referência à Copa América. Esse estudo, porém, só leva em consideração as postagens feitas durante a competição.

    No eixo Performance de Gênero e o “Feminino” Disputado, será conduzida uma investigação para compreender como as jogadoras são apresentadas em termos de comportamento, emoções e traços associados ao “feminino” — como força, sensibilidade, coletividade, emoção e vaidade —, buscando identificar se a CBF reforça estereótipos de feminilidade ou constrói novas formas de ser mulher no futebol. Para isso, o conteúdo das legendas, as expressões corporais nas imagens e as escolhas de enquadramento serão peças-chave na análise.

    O eixo Estratégias de Visibilidade e a Lógica Institucional analisará a frequência, o destaque e o contexto em que a Seleção Feminina aparece no Instagram — especialmente em comparação com períodos de baixa competição ou com a Seleção Masculina. O objetivo será compreender como a instituição gerencia a visibilidade da Seleção Feminina e o protagonismo das atletas. Para esse subtópico, serão consideradas a quantidade de postagens, as hashtags utilizadas e o tipo de conteúdo divulgado (bastidores, jogos, lifestyle).

    Por fim, o eixo Narrativa Institucional e o Discurso do Futebol Feminino investigará como a CBF constrói discursivamente a identidade da Seleção Feminina — seja por meio de valores como patriotismo, superação, igualdade de gênero ou marketing emocional. Assim, será possível compreender qual imagem a instituição busca projetar sobre o futebol feminino e qual o papel do gênero nessa narrativa. O tom das legendas e o vocabulário utilizado serão as principais fontes de análise.

    Análise e discussão dos eixos

    Os eixos de análise foram pensados para organizar de forma clara e aprofundada as dimensões centrais do objeto estudado, permitindo compreender como diferentes aspectos — visuais, discursivos e institucionais — se articulam na construção da representação da Seleção Feminina no Instagram. A partir deles, é possível observar não apenas o modo como a CBF comunica o futebol praticado por mulheres, mas também as estratégias e sentidos que sustentam essa narrativa nas redes sociais.

    Performance de Gênero e o “Feminino” Disputado

    Para entender de que modo a CBF apresenta as jogadoras ao público, foram selecionadas quatro publicações de momentos distintos. As duas primeiras são reels que acompanham as jogadoras Luany Rosa e Kerolin durante os treinos, e as duas últimas são carrosséis que registram as atividades da Seleção Feminina em campo.

    O primeiro reel foi postado no dia 15 de julho e acompanha Luany Rosa enquanto ela interage e treina com as companheiras de elenco. No vídeo, a jogadora aparece dançando, jogando bola e conversando com outras atletas e com a comissão técnica. Trata-se de um conteúdo leve, que aproxima o público da jogadora. Ao longo do vídeo, há também alguns momentos em que Luany fala diretamente com o espectador, mas o foco principal é mostrá-la em ação, durante o treino.

    Reels que acompanha Luany Rosa num treino realizado durante a Copa América 2025

    Reels que acompanha Luany Rosa num treino realizado durante a Copa América 2025. Fonte: Reprodução/Instagram

    O reel que acompanha Kerolin no treino foi publicado no dia 21 de julho. Assim como Luany, Kerolin também aparece interagindo e treinando com as companheiras. Porém, nesse segundo vídeo, há mais cenas da atleta em ação, fazendo o público ter a impressão de que está vendo de que modo a atleta se comporta em uma partida oficial. Além disso, como Kerolin aparece bem-humorada e com um sorriso no rosto, o conteúdo transmite uma sensação de leveza e camaradagem entre ela e o público.

    Vídeo que mostra Kerolin durante um treino da Seleção Brasileira e destaca atleta em ação durante as atividades táticas. Fonte: Reprodução/Instagram.

    Em nenhum dos dois reels as jogadoras reforçam estereótipos de feminilidade nem constroem novas formas de ser mulher no futebol. Apesar do uso de algumas gírias e memes — como o “toca aqui, amiga”, dito por Luany no primeiro vídeo — e da presença de abraços entre as atletas, ambos os conteúdos têm como foco aproximar e humanizar as jogadoras, sem necessariamente ressignificar o fato de serem mulheres que jogam futebol. Assim, nota-se que, nesses vídeos, a CBF não busca quebrar padrões, mas sim normalizar o futebol feminino. Vale ressaltar que a jogadora Gabi Portilho também teve um vídeo semelhante publicado no @selecaofemininadefutebol, reforçando o intuito da instituição de aproximar as jogadoras do público.

    Os carrosséis analisados, por outro lado, foram publicados nos dias 27 e 28 de julho e têm como principal característica a valorização do cotidiano das atletas. As imagens apresentam diferentes momentos das jogadoras conversando e participando de atividades táticas. Não há enquadramentos específicos que enfatizem traços tradicionalmente associados à feminilidade — como expressões de delicadeza, vaidade ou emotividade —, tampouco há apelos visuais voltados para a aparência das atletas. O foco das postagens recai sobre o trabalho coletivo, a intensidade das atividades e a concentração do grupo, reforçando a ideia de profissionalismo e comprometimento com o desempenho esportivo.

    Jogadoras conversando e se divertindo na presença uma das outras durante atividades táticas realizadas no gramado. Fonte: Reprodução/Instagram.

    Esse tipo de registro contribui para construir uma representação mais naturalizada do futebol feminino, em que as jogadoras são apresentadas prioritariamente como profissionais em ação, e não como mulheres que jogam futebol. Ao destacar o esforço, a coletividade e a rotina de treinos, a CBF parece buscar um enquadramento que aproxima a imagem da Seleção Feminina da mesma lógica narrativa utilizada para o futebol masculino, priorizando aspectos técnicos e esportivos.

    Atletas da Seleção Brasileira conversando durante um treino. Ao longo do carrossel há fotos individuais delas durante essa prática esportiva. Fonte: Reprodução/Instagram.

    Estratégias de Visibilidade e a Lógica Institucional

    Entender como a instituição gerencia a visibilidade da Seleção Feminina e o protagonismo das atletas, especialmente durante períodos de competição — no nosso caso, a Copa América 2025 —, é um passo importante para compreender como dinâmicas de gênero se manifestam nas estratégias comunicacionais da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

    A partir da análise das publicações no Instagram oficial da Seleção Feminina, observa-se que o espaço digital se torna uma ferramenta de mediação entre a instituição e o público e, principalmente, mostra ser mais que apenas um lugar de “conexão” entre o time e as pessoas torcedoras. Até o período final de análise, o instagram oficial da Seleção Feminina de Futebol acumulava 6.440 postagens, sendo 137 durante a disputa da Copa América de 2025 — torneio pelo qual, como mencionado anteriormente, a equipe foi campeã. Mais uma vez, é válido ressaltar que antes e após o período, há muitas postagens sobre a competição, mas que não necessariamente acontecem durante ela. Assim, para conseguir um foco melhor, decidiu-se analisar apenas as que estão dentro do período do torneio. 

    Das 137 postagens mencionadas, as que mais se repetem, certamente, são as de “tempo real”, anunciando gols, lances e resultados dos respectivos jogos. Sempre elaboradas predominantemente na cor verde, essas imagens, na verdade, não são estáticas: são artes que se movem, com foco nas jogadoras destaques, no brasão da CBF e as legendas sempre as acompanham em caixa alta — certamente, para simular um grito de euforia. Outro ponto importante de ser destacado é que essas postagens, que são maioria, são acompanhadas de um toque musical curto, uma espécie de “dingle” que começa com um apito e termina com o ritmo de funk — altamente popular no país. Ao todo, são 28 postagens feitas desse modo — vídeos curtos durante os jogos, informando lances em tempo real. 

    Print da publicação realizada no dia 2 de agosto, comemorando o  primeiro gol da Marta no duelo da final contra a Colômbia. Fonte: Reprodução/Instagram

    A alta frequência é vista também nas postagens que mostram “bastidores” como treinos, dias de fotos, chegadas aos estádios e comemorações de aniversários das atletas. Esse tipo de conteúdo é essencial para a visibilidade presumida pela CBF e gera uma sensação de proximidade entre público e jogadoras, criando a ideia de que o torcedor tem acesso ao “lado humano” das atletas. A instituição parece compreender que a construção de vínculo passa não apenas pelo desempenho esportivo, mas pela exposição de momentos cotidianos, afetivos e espontâneos. Porém, ao observar o conjunto das postagens, nota-se que esse movimento não é isento de intencionalidade, uma vez que os bastidores aparentam ser cuidadosamente selecionados e editados, revelando apenas aspectos que reforçam uma imagem institucional positiva, tanto da equipe quanto da própria confederação.

    Além disso, o uso de hashtags pouco mostra um foco efetivo no futebol feminino, sendo as mais usadas #HegemoniaBrasileira e #ThisIsBrasil. As expressões parecem ter a intenção de mostrar mais um patriotismo e sentimento de orgulho do país, do que propriamente da Seleção Feminina de Futebol. Esse padrão reforça a narrativa de pertencimento e identificação brasileira, mas transforma a singularidade das jogadoras em uma representação coletiva e simbólica da “nação”. As atletas aparecem como partes de um todo, no caso, o país, e não necessariamente como protagonistas de suas próprias trajetórias. Assim, a visibilidade se organiza mais em torno da marca “Seleção Brasileira” do que das mulheres que a constroem dentro de campo.

    Ao olhar por uma lente teórica, essa dinâmica pode ser interpretada à luz do pensamento de Nancy Fraser (2006), que distingue dois tipos de injustiça: as de redistribuição, ligadas a desigualdades materiais, e as de reconhecimento, relacionadas à negação de status e prestígio simbólico. Para Fraser, a luta por reconhecimento não deve se restringir à visibilidade ou à celebração identitária, mas precisa vir acompanhada de uma transformação nas estruturas que sustentam a desigualdade. No caso do futebol feminino, a visibilidade conferida pela CBF no Instagram durante a Copa América representa uma forma de reconhecimento parcial — um “reconhecimento administrado” —, pois oferece exposição pública sem alterar as condições institucionais que mantêm o futebol das mulheres em posição secundária.

    A presença das jogadoras nas redes é, assim, celebratória, mas não emancipatória. O discurso visual e textual as reconhece como “representantes do Brasil” e como “guerreiras”, porém sem questionar o fato de que elas continuam a receber menos investimento, cobertura e oportunidades em comparação aos homens. Trata-se, portanto, de uma visibilidade que mascara a desigualdade, um mecanismo de reconhecimento simbólico que não implica redistribuição efetiva de poder ou recursos — exatamente o tipo de paradoxo que Fraser descreve ao analisar como o capitalismo contemporâneo se apropria das pautas de justiça cultural sem promover justiça social.

    Narrativa Institucional e o Discurso do Futebol Feminino

    Ao observar as publicações da Seleção Brasileira Feminina durante a Copa América 2025, é possível perceber que a CBF constrói uma narrativa institucional centrada na ideia de coletividade. Termos como “união”, “equipe” e “vamos juntas” aparecem de maneira recorrente nas legendas e vídeos, compondo um discurso que valoriza a força do grupo acima das individualidades. A ênfase na coletividade cria uma imagem coesa da Seleção, destacando a presença da harmonia e do conjunto — valores amplamente reconhecidos como positivos, mas que também funcionam como estratégia discursiva de controle e ordenação simbólica.

    Print de uma publicação realizada no dia 13 de julho, pré-partida da semifinal. Destaque para a legenda, onde a instituição evoca uma construção de coletividade. Fonte: Reprodução/Instagram

    Esse discurso do “todo” também é visto nas postagens em que as jogadoras aparecem enviando mensagens diretamente ao público ou mostrando “um dia no treino”. As publicações reforçam essa construção afetiva e horizontal. Nesses vídeos, as atletas assumem o papel de mediadoras entre a equipe e o público, aproximando a Seleção de quem acompanha o torneio. Frequentemente, o tom é leve, entusiasmado e intimista, o que contribui para humanizar a equipe e fortalecer o engajamento nas redes. Apesar disso, mesmo esse formato de “fala direta” é mediado pela lógica institucional: os discursos são padronizados, com ênfase no esforço coletivo, na alegria de representar o país e na importância da torcida, sem abertura para reflexões críticas sobre as condições do futebol feminino ou suas desigualdades estruturais existentes na modalidade. 

    Na presente análise, é extremamente perceptível que ao destacar o tópico da união e euforia, a CBF tenta construir um modelo ideal de comportamento feminino no esporte, no qual a emoção e a coletividade se sobrepõem à autonomia individual e passam a  fazer parte de uma coletividade. Essa representação, embora positiva em aparência, reforça um regime de gênero que enquadra as mulheres no papel de grupo coeso, colaborativo e harmonioso — atributos tradicionalmente associados à feminilidade.

    Assim, o discurso institucional da instituição durante a Copa América 2025 constrói uma narrativa que busca legitimar o futebol feminino sem tensionar suas fronteiras históricas. A ênfase na união e no coletivo, embora pareça democratizadora, acaba funcionando como um mecanismo de estabilização simbólica — uma forma de celebrar a presença das mulheres no esporte sem desafiar as estruturas que continuam a limitá-las.

    Considerações finais

      As análises feitas no estudo, com o recorte escolhido e os eixos previamente dados, são pontos importantes para compreensão da proposta de narrativa desejada pela CBF ao olhar para a Seleção Feminina de Futebol — especialmente durante o período de disputa da última Copa América de 2025.

      Primeiramente, é válido dizer que a linguagem escolhida é pertinente: não pressupõe nenhum tipo de preconceito, não reforça desigualdades e, muito menos — como talvez fosse esperado, ao menos pelas autoras deste escrito —, infantiliza a imagem das mulheres na modalidade. O tom utilizado pela instituição é construído a partir de enquadramentos minuciosamente elaborados, para, em suma, gerar uma aproximação com quem acompanha a competição e o time, além de reforçar a todo momento, a ideia de união. Esse último âmbito, inclusive, é o que mais gera uma reflexão: as mulheres da Seleção Feminina de Futebol não são vistas individualmente, mas são tidas como parte de um todo, de um mesmo “Brasil”. Frequentemente, as legendas, edições e escolha de conteúdos a serem postados destacam a existência de vasta união e harmonia entre o grupo, como se, dentro e fora de campo, todos — pessoas torcedoras, atletas, dirigentes, etc — estivessem juntos — o que, na realidade, não acontece.

      Ao tratar a coletividade como destaque maior e reforçar o valor da união, a instituição tem o objetivo de mediar e intensificar a relação da equipe com a torcida, mas, fora das redes sociais, essa finalidade não se traduz em medidas que de fato, levarão a esse propósito mais rapidamente.

      A disparidade econômica de investimentos entre a modalidade feminina e a masculina se traduz em um grande obstáculo para que essa união simbolicamente construída nas redes se materialize de forma concreta. O discurso de coletividade presente nas publicações da CBF, portanto, aparece como uma estratégia comunicacional eficaz para gerar engajamento e empatia, mas não necessariamente como um reflexo fiel das condições estruturais que permeiam o futebol feminino no Brasil. A ênfase na ideia de “um só time” mascara desigualdades históricas e institucionais que ainda limitam o alcance e o reconhecimento das atletas, mesmo diante de conquistas esportivas significativas.

      Assim, o Instagram da Seleção Feminina torna-se não apenas um espaço de celebração esportiva, mas também um território de disputa narrativa: entre o que se mostra e o que se omite; entre o ideal de união e a realidade das desigualdades; entre a visibilidade conquistada e a autonomia ainda negada às atletas.

      REFERÊNCIAS

      FRASER, Nancy. Redistribuição ou reconhecimento? Dilemas da justiça em uma era “pós-socialista”. Cadernos de Campo, São Paulo, n. 14/15, p. 231–239, 2006.

      *Esta crítica foi produzida como atividade da disciplina Laboratório de Comunicação e Esporte ofertada no semestre 2 de 2025 no Departamento de Comunicação Social da UFMG. A disciplina foi ministrada pela Profa. Ana Carolina Vimieiro.

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