Resenha: A representação feminina no filme “Carros 3” da Pixar

Por Dominic Braz, Filipe Ribeiro e Leone Brabo


Ficha técnica

Título: Carros 3
Ano de produção: 2017
Direção: Brian Fee
Duração: 102 minutos
Classificação: Livre
Gênero: Animação
Países de Origem: Estados Unidos


“Carros 3” é o terceiro filme da franquia homônima, produzida pela Pixar, um dos estúdios Disney. Lançado em 2017, faturou mais de 380 milhões de dólares e era aguardado há mais de 6 anos, após o fracasso de crítica que foi seu antecessor. Dirigido pelo animador Brian Fee, a obra foi criticada por diversos internautas por colocar os holofotes em uma personagem feminina.

A narrativa acompanha o protagonista do filme inicial, Relâmpago McQueen, 7 vezes campeão da “Copa Pistão” que está assistindo lentamente os corredores de sua geração serem substituídos por novatos, e sua relação com Cruz Ramírez, uma treinadora de alta performance da equipe “Rusteeze”, com métodos modernos que conflitam com os tradicionais do personagem principal.

No decorrer da animação, as verdadeiras ambições de Cruz Ramírez vêm à tona, quando ela revela após uma briga com McQueen, que desde a infância sonhava em ser uma corredora, mas era alertada por sua família que devia “sonhar baixo” e, em sua única tentativa de correr, percebeu um ambiente dominado por figuras masculinas, maiores e extremamente confiantes. Desse momento em diante, se sentiu incapaz de continuar correndo, que não “pertencia” àquele lugar, deixando subentendido o conflito de gênero. 

Em seguida, o núcleo visita a cidade de antigos campeões: Junior “Meia Noite” Moon, River Scott e Louise “Nada Modesta”, além de Smokey, ex-chefe de corrida do antigo mentor de McQueen. Durante a passagem pela cidade de “ThomasVille”, ocorre um treinamento rústico, à moda antiga, com os personagens, desenvolvendo tanto a relação entre eles, quanto as habilidades naturais de Ramírez que demonstra ser extremamente talentosa no esporte.

McQueen e sua equipe ouvem pela primeira vez a história de Cruz Ramirez

Fonte: Carros 3. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=hqi_XiHIUOI, acesso em: 03/10/2022

Ao final do filme, McQueen, após um conflito entre Cruz e o dono da equipe, dá a ela a oportunidade de correr com seu número e completar o resto da corrida em seu lugar, com a justificativa de que é sua última chance de dar a ela uma primeira chance. A jovem corredora consegue vencer a corrida, com apoio de seu tutor, mesmo sofrendo pressão psicológica de Jackson Storm, antagonista da história, que afirma que a garota “está fantasiada de corredor” (driver em inglês, no original, não tem variação de gênero), e que “seu GPS deve estar quebrado, e você perdida” deixando entender que ela não pertence àquele ambiente.

Com isso, o filme termina com McQueen e Cruz Ramírez em uma pista disputando uma corrida, a corredora ganha seu número de competição, o mesmo que Doc utilizava. Já Relâmpago, consegue decidir quando vai parar de correr, já que por ter participado do começo da corrida se torna “campeão” também, marcando o fim de sua carreira como corredor ao se aposentar para virar chefe de equipe.

Sobre a caracterização das personagens femininas: as mulheres do universo de Carros são ligeiramente diferentes dos homens, com algumas características pontuais. Elas são representadas com traços no geral mais curvilíneos (lábios, para-choques, e toda a carroceria), ao contrário das figuras masculinas, que possuem um semblante mais “quadrado”. O tamanho também é um fator a ser considerado: as mulheres são sempre consideravelmente menores, seja em largura ou mesmo altura, quando comparadas aos homens. 

Além disso, é perceptível na franquia a posição de fã em que são colocadas as personagens mulheres, na posição de tiete, tendo como momento emblemático uma cena de duplo sentido do primeiro filme. No trecho em questão, duas fãs de McQueen piscam seus faróis para ele, sendo uma alusão ao ato de mostrar os seios para um ídolo, um estereótipo da fama para os homens, que objetifica as mulheres, e é perpetuado em um filme para crianças.

Fãs do Relâmpago McQueen comemoram animadamente a vitória de seu ídolo

Disponível em https://observatoriodocinema.uol.com.br/listas/2018/01/15-piadas-adultas-que-voce-nao-percebeu-nos-filmes-da-pixar. Acesso em: 03/10/2022

Dessa forma, podemos relacionar essa cena das fãs de McQueen com a obra da autora Leda Maria da Costa, pesquisadora de futebol, que mesmo não sendo o esporte abordado no filme, traz reflexões válidas sobre como é o imaginário social sobre torcedoras. No texto “O que é uma torcedora? Notas sobre a representação e auto-representação do público feminino do futebol.”, Leda expõem que há uma espécie de luta por legitimidade para ser vista como torcedora autêntica, e não uma “Maria Chuteira”, que podemos definir como mulheres que vão aos estádios não para torcer, mas para ver seus ídolos, ou seja, um estereótipo machista para mulheres interesseiras.

De tal maneira, partindo de uma análise crítica, é visível que em Carros 3 há um esforço por parte do roteiro para quebrar o contínuo uso na franquia desse estigma para as personagens femininas. O que fica visível não só na personagem de Cruz Ramírez se tornando a campeã e dominando todos os aspectos do conhecimento cabíveis a esse universo das corridas, mas também na personagem Natalia Certezas, uma apresentadora de TV e analista estatística de corridas, que reflete também um movimento social do mundo real de maior participação feminina em programas esportivos.

Personagem Natalia Certezas, de Carros 3

Disponível em https://pixar.fandom.com/pt-br/wiki/Natalia_Certeza Acesso em: 09/10/2022

É válido falar também de Maria Busão, conhecida nas pistas de Thunder Hollow como “A diva da demolição”. Maria Busão é um ônibus escolar que compete em corridas de demolição, nas quais o vencedor é o último sobrevivente. A corredora é representada com chifres de touro e piercing, sua presença quebra estereótipos, já que ela é grande, forte, corajosa e, até, um pouco maldosa. Posto isso, conseguimos identificar um perfil feminino muito diferente dos já apresentados durante a trilogia. McQueen entra em uma dessas competições disfarçado para testar suas habilidades para o torneio e Cruz acaba entrando por acaso. Quando enfrentam Maria, conseguimos ver traços de agressividade que não são transmitidos fora da competição, onde em momentos externos às disputas, se mostra muito doce e amigável.

No filme também percebe-se um paralelo quando Louise Nash, lendária corredora da Copa Pistão, é introduzida na história. Num primeiro momento, McQueen e Cruz comentam admirados sobre os feitos de Louise, cuja notoriedade a tornou uma figura imortalizada no mundo das corridas, porém, logo em seguida, esta já é relacionada romanticamente a um homem (Doc Hudson, o ex-corredor, mentor e técnico chefe de equipe de Relâmpago). Esse lugar de segundo plano é mostrado de forma sutil, porém em seguida o telespectador se depara com o relato de Louise sobre outra situação na qual ela também esteve em segundo plano: o início de sua carreira na Copa Pistão.

Louise foi a primeira corredora mulher da Copa Pistão. Segundo ela, “eles” não gostavam da ideia de uma mulher nas pistas e, portanto, se negavam a lhe dar um número, mas, não foi o suficiente para impedi-la de correr. A lenda das pistas revela ter roubado um número de outro corredor e conquistado “na marra” seu espaço, pois acredita que a vida é muito curta para aceitar um “não” como resposta. Após isso, foi a primeira mulher a ganhar títulos da Copa Pistão e se eternizou na história das corridas.

Analisando criticamente a história e jornada de Cruz Ramirez apresentadas no filme, é notável que ela passou por inúmeras dificuldades por ser quem é. Desde sua infância, quando sonhava e se dedicava incansavelmente todos os dias para se tornar uma corredora, mas teve suas “asas cortadas” pela própria família. Cruz teve que lidar com uma constante pressão de não “pertencer” às pistas, pressão essa que, apesar de seus esforços para seguir seu sonho, fez Cruz sofrer cada vez mais, tendo que lidar com isso sem apoio algum, e provavelmente durante toda sua carreira como corredora, haja vista que essa pressão é tanto interna quanto externa, e numa sociedade dominada majoritariamente por figuras masculinas como a de Carros, provavelmente não deve ser fácil de quebrar tabus.

 É válido ressaltar que essa impossibilidade de alcançar seu sonho de se tornar uma corredora foi algo imposto à Cruz, tanto pelas pessoas com as quais ela conviveu, quanto pela sociedade na qual ela está inserida. Analisando cada um dos fatores, temos em primeiro lugar a própria família da corredora, que tentava fazê-la desistir de seu sonho sem mesmo ter tentado de fato correr, e, apesar de nunca terem verbalizado o motivo de tal postura, não é muito difícil entender o porquê. Há também o comportamento tóxico de Sterling, ex-patrão de Cruz e antagonista secundário da obra, que enxergava o potencial enorme que ela tinha para as corridas, mas apenas como treinadora, e reforçava isso sempre que possível, chamando-a até de “só uma treinadora” nas cenas finais do filme. 

Sterling tenta impedir Cruz Ramirez de “debutar” como corredora

Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=g_-pFxxf-rM&t=85s

Cabe lembrar também que a sociedade de Carros é fraquíssima no quesito de representatividade feminina, principalmente quando se trata do cenário de competições esportivas, uma vez que durante toda a trilogia vemos apenas três corredoras, enquanto o número de corredores é imensuravelmente maior. E isso não se restringe apenas ao cenário de alta performance, uma vez que Cruz revela já ter tentado correr quando era mais nova (numa competição provavelmente amadora), e que todos lá eram “maiores e mais confiantes”. Além disso, tirando Louise, não há registro de nenhuma outra corredora na Copa Pistão até Cruz estrear, configurando um cenário dominado por figuras masculinas e mais um fator para que ela tivesse dificuldade de se enxergar sendo parte daquilo que tanto sonhava.

 Por fim, vale pontuar que não são só grupos ou indivíduos específicos fortalecem esse cenário de exclusão das figuras femininas no mundo esportivo e na sociedade de Carros em si. Todos fortalecem de certa forma, conscientemente ou não. Além dos supracitados, podemos ver McQueen reafirmando para Cruz que ela não o entende porque não é uma corredora, e que deveria se enxergar (no sentido de se pôr em seu lugar). Ele não a enxergava com potencial para correr, mesmo sabendo que ela tinha um ótimo conhecimento e bagagem em relação a corridas, pois talvez sequer fosse algo que ele consideraria possível, já que só tinha visto uma corredora em sua vida inteira. Apesar de isso ter sido alterado no desenrolar da obra, é um ótimo exemplo sobre como reproduzimos aquilo que a sociedade na qual estamos inseridos nos induz a reproduzir, e como isso pode ser problemático.

Portanto, conseguimos ver um posicionamento bem claro da Walt Disney Company em querer demarcar o sonho de Cruz Ramírez e mostrar como ela se desvincula desse sentimento de “Síndrome da Impostora”, que corresponde a essa autopercepção pela qual uma pessoa se considera menos qualificada para uma determinada função, rompendo esse grande tabu. 

***Esta crítica foi produzida como atividade da disciplina Laboratório de Comunicação e Esporte ofertada no semestre 2 de 2022 no Departamento de Comunicação Social da UFMG. A disciplina foi ministrada pela Profa. Ana Carolina Vimieiro e pela mestranda Flaviane Eugênio.***

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