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Por Alice Vitoria Queiroz Clementino, Ana Beatriz Viana Arruda, Luiza de Melo Andre e Yaskara Aryane de Melo Martins


“Apresentadora e Repórter (e cantora quando dá tempo 😜)”. É assim que Karine Alves se apresenta na bio do Instagram. Natural de Porto Alegre (SC), a gaúcha tem trilhado seu caminho no universo do jornalismo desde 2006, quando deu início à sua carreira como repórter na RBS TV Porto Alegre, emissora local afiliada à Rede Globo. Antes editora de imagens, foi quando passou a atuar como repórter, posição que almejava, que Karine se consolidou na empresa e na profissão, especialmente quando sua carreira migrou para o ramo esportivo. É nesse lugar do jornalismo esportivo, que abriu portas para Karine se aventurar pelos mais diversos programas e veículos de comunicação, que a conhecemos e apresentamos hoje. 

Ser jornalista sempre foi o sonho? A resposta é não. Karine chega até a comunicação, mas tinha o sonho de ser cantora. Amor este que ainda é presente quando pensamos na apresentação que abre seu perfil e que inicia esse texto. Quando sobra um tempo ela se transforma da Karine jornalista para a Karine cantora. Sua trajetória musical foi longa, começando ainda adolescente e segue presente até hoje – para o Carnaval deste ano, 2022, a apresentadora gravou no ano passado uma canção com Xande de Pilares para o samba-enredo da Mangueira. 

Trecho do samba-enredo da escola de samba Mangueira. Reprodução/Twitter

Nascida em uma família na qual a música é muito presente, descobriu a força e presença da sua voz perto dos 15 anos, quando ganhou o primeiro violão de presente de seu pai. Com o passar do tempo, a jornalista desenvolveu não só o amor e aptidão para a música, mas também para a escrita, com a participação  no grupo de jovens da igreja católica que frequentava, em que uma das atividades eram as participações musicais . Além das visitas a asilos e orfanatos, Karine participava das atividades musicais e do jornal da igreja, um dos lugares que se inicia a familiaridade com a comunicação. Fã de Michael Jackson e Elis Regina, iniciou aulas de canto e entrou de cabeça no que gostava, mas aos poucos foi desenvolvendo também amor por ouvir: não somente músicas, mas também histórias.

Quando chegou a hora do vestibular, houve um pequeno desvio em uma tentativa de cursar biologia que acabou dando errado. Após não ser aprovada na primeira tentativa, Karine corrigiu o curso da bola (em bons termos esportivos) e iniciou a graduação em jornalismo. Formada pela PUC-RS, faculdade particular, ela teve auxílio dos pais para custear a parte da mensalidade que sua bolsa não cobria. Karine, como nós mulheres e jornalistas, ouviu que a carreira não seria fácil. Mas os desafios se apresentam desde a graduação: ser uma mulher negra no jornalismo é difícil, e ser uma universitária negra em uma faculdade particular também é. Por isso, a trajetória de Karine diz tanto sobre presença e pertencimento. Ela veio para ocupar os espaços que devem ser ocupados por essas mulheres, e foi assim que iniciou sua vida profissional. 

Como apresentadora e repórter, Karine coleciona “títulos”, principalmente no que se refere ao jornalismo esportivo. Nos últimos 10 anos, ela trabalhou nos mais relevantes e conhecidos programas e canais de esportes brasileiros, o que já é motivo suficiente para que ela se torne alvo de admiração. Marcada por sua postura irreverente e bem-humorada, a jornalista atuou em programações esportivas da Fox Sports,  Sportv e TV Globo, como Boa Tarde Fox, Central Fox Madrugada, Troca de Passes, Tá na Área, Globo Esporte e Esporte Espetacular. Não somente isso, mas ela também participou ativamente das coberturas dos eventos esportivos mais tradicionais do mundo – integrou as equipes de cobertura dos Jogos Olímpicos do Rio, em 2016, da Copa do Mundo da Rússia, em 2018 e, mais recentemente, dos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2021.

Aqui abrimos um parênteses importante na sua história para falar sobre algo que já citamos antes: presença. Fazer a cobertura dos maiores eventos esportivos do mundo é um marco na carreira de um jornalista, uma experiência única. “Gosto muito dessa troca cultural que eventos dessa magnitude nos proporcionam. E, quando aparece uma oportunidade assim, mergulho de cabeça. A minha expectativa é conseguir passar a energia para quem vai estar assistindo aos Jogos” foi o que disse Karine em entrevista ao jornal O Tempo. Na sua fala, vemos a animação e o compromisso de uma profissional diferenciada e experiente, mas o que não vemos é o caminho para chegar ali. Não só o de Karine, mas das mulheres no jornalismo em geral. Especialmente das mulheres negras no jornalismo. 

E como chegou até ali? Quando Karine começou sua carreira estagiando na RBS TV, afiliada local da Rede Globo, passou por trabalhos na edição de um programa musical, passou por ilha de edição, se manteve focada em progredir na carreira como fosse necessário, mas sempre perseguindo o objetivo de ser repórter. Após saber sobre uma vaga temporária como repórter, Karine com toda sua coragem correu atrás, e com algumas semanas de reportagem começou a produzir reportagens para o Globo Esporte, além de outros programas nacionais da Rede Globo. Karine trabalhou, mais ou menos, 3 anos com esportes olímpicos e depois começou atuar no futebol. Em um salto para 2021, ela integrou o maior time feminino já escalado para a cobertura dos Jogos Olímpicos de Tóquio. 

Time feminino da cobertura esportiva dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 e Karine, mais à direita (Foto: Globo / Pedro Gomes)

Cobrir o maior evento esportivo do mundo é um mérito e uma conquista muito grande para repórteres, mas também abre espaço para uma importante discussão: onde a presença da mulher no jornalismo é permitida? Cobrir esportes olímpicos tudo bem, mas o futebol, que representa o alto escalão do jornalismo esportivo, aí já é demais. Cabe perguntar onde vemos essas mulheres, e quem são as mulheres que vemos? Quando transgridem e ocupam o espaço da cobertura futebolística, vemos um padrão de mulheres brancas, esguias, de cabelos longos. Karine não segue esse padrão, por isso ela, nesse momento Karine, jornalista negra, se torna ainda mais referência no que faz. Sua presença importa para além do bom trabalho realizado.

Não é surpresa após essa apresentação que Karine chegou até o futebol, e vai cada vez mais longe. Mas sua carreira encontra mais um desafio ao entrar de maneira mais presente nesse ramo da cobertura esportiva – o assédio, o que não é exclusividade do futebol mas é mais recorrente neste espaço. Em fevereiro de 2019, enquanto fazia a cobertura do clássico FLA x FLU no Maracanã, um torcedor tentou beijar a repórter à força, que se desvencilhou do homem e seguiu com sua cobertura. A descrição da cena não é novidade: pessoas ao redor olhavam mas não fizeram nada. O ocorrido se deu mais de um ano após o lançamento da campanha Deixa Ela Trabalhar, que segue presente em estádios e mídias sociais. Alguns dias após sofrer o assédio, Karine fez uma publicação em seu perfil na rede social Instagram discutindo o caso e a necessidade de respeito para o exercício de sua profissão. “Ninguém tem o direito de desrespeitar uma pessoa, ou alguém durante o trabalho…seja forçando um contato físico, como um beijo ou abraço, quando não há consentimento. O nome correto para isso é importunação sexual.” A presença de mulheres no estádio, seja dentro ou fora do campo, é sistematicamente desrespeitada e nesse momento ela desabafou, contando da sua relação com o futebol, que já existia em âmbito profissional há mais de 12 anos, e demonstrando a necessidade da alteração desse cenário de desrespeito: “E em time que está vencendo não se mexe… se “treina” muito pra ganhar de qualquer adversário seja qual for o campo, na frente ou atrás das câmeras”.

“Ah! E eu escolhi colocar esta foto no post, porque é essa imagem que desejo que o telespectador possa ver: uma repórter exercendo o seu trabalho com dignidade.” – Trecho da legenda da publicação de Karine. Fonte: Reprodução/Instagram

Atualmente Karine, que mora no Rio de Janeiro, faz participações no Jornal Hoje, comandado por César Tralli, trazendo as novidades esportivas e o esquenta da rodada. Além disso, a gaúcha de 38 anos também é responsável por um dos blocos do programa dominical Esporte Espetacular. Em 2021, foi a primeira mulher negra a apresentar o Globo Esporte em 15 anos, desde que Lica Oliveira,  ex-jogadora olímpica de vôlei brasileira, apresentou o programa de 2005 a 2006. Dentre “honras e grandes realizações” como Karine mesma definiu, a jornalista não tem usado seu espaço na mídia, tanto esportiva, quanto tradicional, para tratar apenas de assuntos relacionados ao mundo do esporte. Há 16 anos, a jornalista tem usado seu lugar nas bancadas e nas telas para militar em favor das lutas antirracistas. 

Em entrevista para a série Nossa Voz, do portal GZH, a marca de jornalismo digital do grupo RBS, Karine é questionada sobre como o racismo é presente nas pessoas que têm suas vidas marcadas pelo esporte. A jornalista respondeu: “Isso vem mudando com o passar do tempo, principalmente porque estamos nos posicionando cada vez mais. É um reflexo de tudo o que plantamos ao longo desse tempo. Mas sim, existe uma não fala, e acredito que seja maior entre atletas, por medo de ser prejudicado. Infelizmente a gente tem uma lógica mercantil. […]”. Em um texto do blog Dibradoras, a repórter apontou a importância da representatividade para a mudança desse cenário: “Eu tive que desbravar um caminho, porque nós mulheres temos que desbravar e a mulher negra tem ainda mais. A representatividade era escassa e hoje ainda é pequena, e eu faço questão de acompanhar o trabalho de outras meninas negras porque eu gosto de ver que está vindo um grupo novo, que tem mais gente pra me acompanhar nessa missão, que essa solidão vai acabar um dia”, ela disse.

Karine Alves vestiu a camisa do Observatório da Discriminação Racial no Futebol durante o programa “Troca de Passes” do SporTV. Fonte: Reprodução/Sportv

No lugar de jornalistas mulheres, é sempre uma honra escrever sobre uma colega de profissão, principalmente se for uma figura tão importante como a Karine. Mas, ao mesmo tempo, é preciso revisitar muitos sentimentos que doem em todas nós. A Karine não é a primeira, e, infelizmente, não é a última jornalista a sofrer com o assédio, racismo e o preconceito de tantas outras formas. Desde que escolhemos trabalhar com o esporte nós somos expostas diariamente a diversas violências, e a sensação é de que nada está sendo feito para que sejamos protegidas disso. Apesar do cansaço e do esgotamento, a gente luta, sempre, para que o jornalismo esportivo possa se tornar um lugar que acolha e respeite as mulheres e que, acima de tudo, se torne uma profissão com uma presença significativa e um local de pertencimento para meninas e mulheres que sonham em comunicar o esporte.  

Sobre a luta e a resistência, é simples (ou pelo menos deveria ser). “É trilhar esse caminho que ainda está com mato mas a gente vai andando e abrindo, e sempre vai precisar de alguém que faça isso, quanto mais mulheres a gente tiver fazendo isso mais a gente vai conseguir enxergar o que tem depois desse matagal e também quem vem atrás consegue ver com mais facilidade. Mas é claro que é um longo caminho, eu queria que as coisas estivessem mais evoluídas, mas ainda temos muita coisa pela frente”, afirma Karine. Por essas e outras, Karine, com todas as vírgulas e partes de si que apresenta para nós, é uma referência do jornalismo que você também precisava conhecer. 

REFERÊNCIAS

https://www.otempo.com.br/super-noticia/opiniao/social-ii/reporteres-lembram-perrengues-em-coberturas-de-olimpiadas-1.2511258

https://revistamarieclaire.globo.com/Mulheres-do-Mundo/noticia/2021/07/mulheres-no-comando-da-cobertura-de-toquio-2020-damos-conta-de-tudo.html

https://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2019/02/15/so-quero-poder-exercer-minha-funcao-diz-reporter-da-fox-apos-assedio/

https://gauchazh.clicrbs.com.br/esportes/noticia/2021/11/karine-alves-jornalista-do-grupo-globo-o-racismo-vai-se-renovando-mudando-de-roupa-ckw5di7m900at016fxrmchubn.html

https://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/televisao/quem-e-karine-alves-substituta-de-barbara-coelho-no-esporte-espetacular-51273

***Esta crítica foi produzida como atividade da disciplina Mídia, Esporte e Gênero ofertada no semestre 1 de 2022 no Departamento de Comunicação Social da UFMG. A disciplina foi ministrada pela Profa Ana Carolina Vimieiro, pela doutoranda Olívia Pilar e pela mestranda Flaviane Eugênio.***

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