Resenha: King Richard, um filme que deu o que falar

Por Ana Flávia Castro, Rani Costa, Sarah Kato, Taís Guimarães


Ficha técnica

Título: King Richard (Original)
Ano de produção: 2021
Direção: Reinaldo Marcus Green
Duração: 140 minutos
Classificação: 10 anos
Gênero: Drama
Países de Origem: EUA


Você com certeza ouviu falar do filme King Richard, seja pelo Oscar de melhor ator recebido por Will Smith, seja pela repercussão do tapa dado por ele em Chris Rock durante a premiação. Fato é que a obra rendeu importantes análises cinematográficas e sociológicas. Nesta resenha, serão apresentados fatos pontuais sobre a relação entre esporte e sociedade nos dias atuais, com algumas pitadas de opinião.

Quem é King Richard e por que ele mereceu um filme?

Quem somos nós para falarmos quem merece ou não estrelar seu rosto e seu nome nas telonas? No entanto, Richard Williams é o pai de ninguém menos que Vênus e Serena Williams, grandes campeãs do tênis, e o grande incentivador da carreira das filhas. Juntamente com sua ex-mulher, Oracene Price, ele treinava as meninas utilizando métodos questionáveis de incentivo. É essa história de altos e baixos que a obra do diretor Reinaldo Marcus Green nos conta. Com um total de 2h25m, o filme passa num piscar de olhos, emocionando e entretendo os espectadores, além de nos fazer questionar alguns pontos-chave presentes no enredo.

Um rápido resumo sobre as verdadeiras protagonistas

Caso você não saiba quem são Venus e Serena Williams, vamos a um rápido contexto. As irmãs são duas mulheres negras criadas em Compton, Califórnia, considerada uma das cidades mais perigosas do estado. Elas começaram a praticar tênis aos 4 anos de idade em quadras públicas, treinadas pelos pais. As duas são, historicamente, dois dos maiores nomes do tênis feminino, tanto em dupla quanto individualmente, e colecionam todo tipo de conquistas e prêmios, além de se posicionarem em relação a questões de gênero e raça dentro do esporte. Elas são exemplo para jogadoras de todo o mundo, como grandes referências de mulheres negras no esporte, atletas incríveis e que mantêm a amizade e cumplicidade entre si.

Venus Williams e Serena Williams

Fonte: CelebFamily Disponível em: https://www.celebfamily.com/sports/serena-williams.html

O filme tem como foco a trajetória da família permeando um esporte que constantemente reforça a divisão de classe e raça, uma vez que o tênis, até os dias de hoje, é considerado um esporte de ricos e brancos, dado que classe e raça possuem problemáticas que se enlaçam.

No início do filme, Richard aparece em clubes de tênis tentando patrocínio para suas filhas e um senhor o faz uma pergunta muito simbólica: “já considerou o basquete?”. Esse é um questionamento interessante, já que nos Estados Unidos o basquete é associado a pessoas negras e também a classes menos abastadas. Ao longo do filme, é possível notar ainda outros tencionamentos além do exemplo citado.

No que tange às questões de classe, Serena e Venus não treinaram em quadras apropriadas e com materiais de qualidade, o que era uma dificuldade a mais, mesmo apresentando desempenho admirável após muita dedicação nos treinos. Sendo moradoras de Compton, uma comunidade humilde e escassa de segurança pública, a família Richard teve seu enredo e sua realidade permeados por violência das ruas, disputas de gangues, racismo e violência policial. Ademais, as irmãs Williams tiveram que provar diversas vezes suas habilidades para que pudessem ser consideradas dignas de disputar campeonatos da modalidade, o que é claramente uma consequência de um racismo estrutural muito presente nos Estados Unidos no universo do esporte.

No que tange à raça, as duas foram das primeiras mulheres negras a se destacarem num esporte de elite. É muito interessante notar como isso fica evidente durante o filme, principalmente quando a família Williams adentra locais de competições e quando as atletas competem apenas com outras meninas brancas. O pai enfrenta barreiras nesse aspecto ao buscar treinadores e investidores para a carreira das filhas. Em uma cena, quando o desempenho das filhas é destacado como uma coisa incrível, ele faz questão de provocar questionando o porquê da performance delas ser considerada admirável, já que as atletas brancas não ouviam tal elogio. A cena evidencia o racismo que a família Willians enfrentava no tênis, pois, o desempenho delas só era tido como destaque por acharem que aquele não era um lugar que eles poderiam e conseguiriam ocupar com tanto talento.

Imagens do filme

Fonte: Yahoo. Disponível em: https://uk.style.yahoo.com/not-over-guide-thanksgiving-binge-211854862.html

Além disso, em uma das cenas finais, Richard diz que Venus é uma representação de todos os jovens negros e um exemplo de luta e persistência. A todo momento isso é mostrado como uma grande preocupação de Richard, que entende esse lugar de minoria e se orgulha das conquistas das filhas. Ainda assim ele teme que elas sofram as consequências do racismo durante suas carreiras. Ele e Oracene sempre reforçam que as filhas devem se lembrar de onde vieram, da história delas, e mostrar para o mundo do que são capazes. Na cena que antecede a primeira grande final de Venus ainda adolescente, a mãe arruma o cabelo da filha e enfatiza o simbolismo que ela carrega consigo.

Imagens do filme

Fonte: Hollywood Reporter. Disponível em: https://www.hollywoodreporter.com/movies/movie-features/king-richard-editor-serves-a-climactic-tennis-match-1235060324/

Esporte e Gênero

O lugar de Oracene Price na família é muito marcado por esse aspecto de maternidade e de seguir o “papel” esperado das mulheres, ao cuidar da casa e apoiar o marido. Há pouco destaque para a parte profissional dela e para sua contribuição como impulsionadora da carreira das filhas.

É importante entender que o esporte é uma instituição social produzida por pressupostos de gênero e que também participa dessas produções: a virilidade masculina e a delicadeza feminina. Discursos e práticas esportivas produzem feminilidades e masculinidades construídas cultural e socialmente. Sendo assim, historicamente, mulheres devem ser delicadas, femininas e graciosas nos espaços esportivos, se subjugando a práticas que reiteram esses valores, como a ginástica, por exemplo.

No entanto, em um momento da trama, Richard diz que suas filhas precisam ser brutas e fortes para serem grandes vencedoras no tênis, o que vai contra essa ideia histórica de graciosidade que excluiu mulheres da prática de esporte. Não obstante, ainda é possível perceber uma representação contemporânea apologética no tênis, considerando as vestimentas das esportistas. Os rapazes usam shorts e as moças usam saias durante as competições formais, como uma reafirmação de que, apesar de praticarem esporte, as tenistas ainda continuam femininas.

Apesar de termos duas mulheres como protagonistas do esporte dentro do filme, se notarmos o contexto ao redor das duas, podemos ver a presença constante de homens. Não apenas homens, mas homens que levam os créditos de serem os melhores atletas ou treinadores. Se observarmos os treinadores que aparecem no filme, vemos que todos os admirados e com muita credibilidade na área são homens e não há exemplos de referências femininas. A única presença de treinadora feminina é da própria mãe das tenistas, mas há um apagamento da sua atuação como atleta e um destaque quase que completo para o pai de Venus e Serena.

Este apagamento é discutido dentro do filme, quando ela confronta o marido após ele insinuar que é o único que realmente agiu para que a carreira das filhas fosse bem-sucedida. Assim, ela o lembra que também é atleta, que fez correções na técnica das filhas e que, além disso, ela sempre cumpriu com as responsabilidades da maternidade, trabalhou e cuidou de todos para garantir um futuro promissor para a família.

Filmagens do filme

Fonte: Hollywood Reporter. Disponível em: https://www.hollywoodreporter.com/movies/movie-features/king-richard-editor-serves-a-climactic-tennis-match-1235060324/

A participação feminina no tênis

Ao longo da história, o tênis foi um esporte praticado pelas elites, pois denota sentidos como elegância e sofisticação. Dessa forma, mulheres privilegiadas começaram a ter acesso aos clubes e espaços de sociabilidade propiciados pelo tênis. Os processos de negociação que permitiram a ampliação das esferas sociais pelas mulheres foram gradativos, e a prática do tênis feminino passou a ser aceita, porém restrita. A identificação dos homens com o esporte e o espírito competitivo é vista como inata, enquanto as mulheres eram vistas como passivas e frágeis. Também é importante problematizar a erotização dos corpos femininos e o histórico de representações de atletas na mídia esportiva, reflexo de questões sociais e culturais profundas.

Percepções a partir do filme

A partir do filme King Richard, podemos enxergar o quanto o esporte é atravessado por questões de gênero, raça e classe por mais que as regras e normas nos dissessem que não até pouco tempo atrás. Discursos e práticas esportivas trazem reflexos de normas sociais de condutas adequadas ao mesmo tempo em que produzem feminilidades e masculinidades. Venus e Serena Williams adentraram o universo majoritariamente masculino, branco e elitizado do tênis e se tornaram campeãs mundiais, desafiando os sistemas de hierarquia e subordinação.

Dentre os torneios de Grand Slam – Aberto da Austrália, Roland Garros (França), Wimbledon (Inglaterra) e US Open (Estados Unidos) – Venus conquistou sete troféus e Serena faturou 23. Algumas vezes, inclusive, elas se enfrentaram nas decisões. Venus é a maior vencedora olímpica, com quatro medalhas de ouro e uma prata em Jogos Olímpicos. Serena é vista por muitos como a maior jogadora de todos os tempos. Além de tudo, o filme nos deixa com várias indagações antes de partir, e nós as reproduzimos para você, caro leitor: qual o preço devemos pagar para viver o estrelato? Até que ponto os pais devem forçar os filhos a serem bons em algumas atividades simplesmente para cumprir seus desejos de sucesso? Em que medida os esportes e as pautas políticas se misturam? Vamos refletir juntos sobre os espaços ocupados por mulheres e homens na sociedade e nos esportes!

***Esta resenha foi produzida como atividade da disciplina Mídia, Esporte e Gênero ofertada no semestre 1 de 2022 no Departamento de Comunicação Social da UFMG. A disciplina foi ministrada pela Profa Ana Carolina Vimieiro, pela doutoranda Olívia Pilar e pela mestranda Flaviane Eugênio.***


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