Crítica de mídia: Richarlyson Barbosa, uma carreira vitoriosa marcada pela homofobia

Por Alice Vitoria Queiroz Clementino, Ana Beatriz Viana Arruda, Luiza de Melo Andre, Yaskara Aryane de Melo Martins


Richarlyson Barbosa Felisbino, de 39 anos, natural de Natal, no Rio Grande do Norte, e ex-jogador profissional de futebol. Apesar da passagem vitoriosa por grandes clubes do futebol nacional como atleta, nem sempre esse foi o motivo para que seu nome fosse citado na mídia. Em 2005, época em que atuava como meio-campo do São Paulo, o atleta sofreu o que seria o primeiro de muitos casos de preconceito que viriam ao longo de sua carreira.

O jogador, que acabava de começar sua carreira no time tricolor, marcou o seu primeiro gol em um jogo contra o Palmeiras, válido pelo Campeonato Brasileiro. Em comemoração, ele e alguns de seus colegas de time reproduziram alguns passos de funk, rebolando com as mãos nos joelhos. Logo a dança foi alvo de chacota e ridicularização por parte da imprensa, assim como não foi bem aceita pelos torcedores e dirigentes do time paulista.

Fonte: Reprodução Youtube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=-AKuWxHVlHI

Dentre todos os jogadores que participaram do momento de celebração, o meio-campo foi o único a receber o apelido de “Bambi”, o qual carrega uma série de estigmas machistas e homofóbicos. Quando pensamos nos comportamentos aceitáveis dentro de campo, seja no gramado ou nas arquibancadas, chegamos ao conceito das masculinidades hegemônicas. Segundo Bandeira & Seffner (2013), essa masculinidade hegemônica se dá como um parâmetro que subordina as demais representações de masculinidades, que são desviantes, transgressoras ou se aproximam de uma feminilidade não desejada. Desse modo, o futebol é, para além de um esporte, um espaço no Brasil que ressalta uma masculinidade do homem que é agressiva e, sobretudo, viril. Apelidos homofóbicos são um tipo de violência permitida neste lugar, um xingamento que está dentro da performance de masculinidade adequada. Por isso, comportamentos homofóbicos e agressivos são, para além de permitidos, muitas vezes incentivados.

De volta ao apelido, “Bambi” se firmou como um chamamento que se tornou recurso de provocação dos adversários do São Paulo, levando à criação de um certo sentimento de hostilidade para com o Richarlyson. A desaprovação instaurada foi um sentimento que levou muitas vezes a torcida a não reconhecer o desempenho e conquistas do jogador. Com a moral baixa, a partir daí as situações de machismo e homofobia direcionadas ao meio-campo se tornaram mais frequentes. Neste momento, a mídia também não estava ao seu lado.

Dois anos depois do ocorrido, o jornal Agora São Paulo publicou um boato de que havia um jogador de futebol de um grande time paulista que iria “sair do armário” e assumir sua homossexualidade. O boato não se concretizou, mas teve grandes repercussões, tanto que o então diretor administrativo do Palmeiras, José Cirillo Júnior, durante uma participação em um programa de televisão, deu a entender que Richarlyson seria gay. O jogador logo saiu em sua própria defesa, reafirmando a sua heterossexualidade, o que demonstra novamente o que falamos sobre as masculinidades hegemônicas. Não estamos mais em 2007, mas, ainda hoje, o homem em campo precisa se adequar a um padrão para ser bem aceito, e se questionado, recorrentemente reafirma o lugar a que precisa pertencer. Para muitos ser homossexual está tudo bem, mas futebolista e homossexual? Aí é demais.

Após as acusações de Cirillo, o atleta entrou com uma queixa-crime contra o dirigente. No entanto, a causa foi arquivada, demonstrando como esse pensamento atrelado ao futebol não se restringe ao gramado. O juiz responsável apresentou como justificativa que aceitar a homossexualidade dentro do futebol brasileiro não é razoável uma vez que prejudicaria a uniformidade de pensamento da equipe.

“Futebol é jogo viril, varonil, não homossexual. Não há ídolos de futebol que são gays” disse o juiz Manoel Maximiano Junqueira Filho, 9ª Vara Criminal de São Paulo.

 O juiz responsável pelo caso ainda ironizou um grupo de manifestantes da Bahia que protestavam a favor da inclusão no esporte. Segundo o então juiz, se a moda pegasse e o futebol desse espaço a homossexuais, logo o esporte teria um sistema de cotas. Além disso, o juiz que julgou em primeira instância o caso do jogador afirmou que situações de xingamento e ofensas entre boleiros deveriam ser resolvidas dentro do campo. O que podemos entender é que a sentença da queixa-crime só reafirmou o posicionamento preconceituoso direcionado à figura do jogador tricolor.

Anos depois, em 2011, Richarlyson foi envolvido mais uma vez em um caso que gerou reações homofóbicas. Na época, o jogador, que atuava pelo Atlético Mineiro, foi cogitado para atuar no Palmeiras. A notícia não foi bem aceita pelos torcedores do antigo Palestra Itália, que fizeram pressão em oposição à contratação do meio-campo, tanto nas redes sociais quanto fora delas. Uma das torcidas organizadas do Palmeiras, a Mancha Alviverde, promoveu um protesto na frente do clube. Os participantes carregavam uma faixa com a frase: “A homofobia veste verde”.

Fonte: ESPN. Disponível em: http://www.espn.com.br/noticia/377750_veja-o-balanco-de-cada-jogador-do-atletico-mg-e-ajude-a-montar-o-time-para-2014

Em análise do caso publicada no Ludopédio em 2012, Giovana Capucim e Silva apresenta uma breve curadoria da cobertura da mídia sobre o caso citado. Nele, a autora constata que a mídia pouco noticiou a homofobia praticada. Nos resultados, a maior parte das notícias saíram antes do manifesto, apenas uma mencionava a faixa, e as demais atenuavam a violência praticada nas redes sociais ou sequer citavam falas que se referiam a orientação sexual do jogador. Nesse momento, a imprensa não foi a precursora de um boato que gerou uma manifestação homofóbica, mas, ao invés de denunciá-la, a escolha foi minimizar o fato que ocorreu. Mais uma vez, o comportamento agressivo foi visto como permitido no meio do futebol.

Mais recentemente, em 2017, ao ser anunciado como um novo reforço para o time do Guarani, Richarlyson se viu alvo, novamente, da homofobia. A diretoria e o técnico do Guarani, Vadão, até tentaram manter a contratação do jogador em sigilo, mas assim que a imprensa descobriu os ataques ao jogador começaram, que vieram desde a própria torcida até piadinhas infames dos rivais. Devido a toda esta recepção, a breve passagem do jogador pelo time foi marcada por muita rejeição. Dentre as falas vistas, alguns exemplos eram:

Fonte: Reprodução Uol. Disponível em: https://observatoriog.bol.uol.com.br/noticias/richarlyson-e-vitima-de-insultos-homofobicos-e-bombas-apos-ser-contratado-pelo-guarani

Dentro do futebol, é possível identificar dois padrões de jogador. O primeiro é aquele homem “pegador”, “mulherengo” e “festeiro”, popularmente conhecido como boleiro. Já o segundo, é aquele mais quieto, discreto, mais focado na família. Os jogadores que demonstram comportamentos que fogem desses padrões começam a gerar luzes de alerta para dirigentes, colegas de time e torcedores. É isso que vemos através desses comentários que foram destacados, e dos vários casos citados. E é justamente por não se encaixar nestes padrões, ou cometer alguma ação que esteja minimamente fora dessa curva, que atletas, como foi com Richarlyson, começam a enfrentar uma série de ataques e preconceitos que podem impactar profundamente sua imagem.

Já que seu nome sempre era colocado em meio a tais falas, o jogador passou a adotar como seu posicionamento ser contra os preconceitos machistas e homofóbicos que vemos no meio do futebol. Em 2020, em sua ida ao programa “Os Canalhas”, ele abordou o tema e ressaltou a importância de respeitar os outros, independente das suas diferenças. “Eu costumo dizer assim: você não precisa aceitar aquilo que você não gosta, mas você precisa respeitar. E quando as pessoas não respeitam, elas acabam fazendo essas coisas de forma grosseira, de forma babaca, de forma julgadora”, disse Richarlyson.

Richarlyson ainda contou o quanto ficou chocado ao descobrir que a maioria dos suicídios hoje são cometidos por pessoas da comunidade LGBTQIA+, e como isso é culpa da sociedade e da pressão que ela impõem.

“A sociedade é esmagadora, a sociedade impõe coisas absurdas e às vezes você é obrigado a lidar com isso, sabe? É um absurdo isso. É triste, é uma situação deplorável, me entristece, não só por essa questão, porque realmente nós devemos respeitar o próximo, isso eu estou dizendo como cristão, alguém que acredita em Deus”, completou Richarlyson.

Apesar das falas progressistas e do posicionamento contra a homofobia, Richarlyson não é uma figura transgressora do meio do futebol; ele é vítima de um esporte que historicamente reproduz preconceitos. O jogador não é exemplo de quebra de padrões hegemônicos de masculinidade, muito pelo contrário, nunca existiram atitudes que comprovassem as suposições referentes a sua sexualidade. Uma dança, um momento de comemoração entre os jogadores, não prova nada, e, ainda que provasse, ninguém tem direito de julgar e apontar o dedo sobre a orientação sexual de outra pessoa. 

Richarlyson não desafiou as masculinidades hegemônicas no futebol, não por si só, mas o que passou levanta o tópico e nos permite analisar como essas manifestações aparecem ainda hoje. Se essa ideia de masculinidade é contrária ao que se entende por feminilidade, no futebol feminino vemos muitos exemplos de transgressão. No ano de 2021, a atleta Katiusca Fernandes, lateral do time feminino do Corinthians, comemorou o título do Brasileirão Feminino entrando no gramado envolta na bandeira do movimento LGBTQIA+. Esse comportamento transgride o que se vê como feminino hegemônico, como dócil e delicado. É um comportamento de presença e luta, o que traduz força. Mas, ainda assim, cria-se um viés de aproximação da masculinidade: a sociedade aceita uma mulher LGBTQIA+ no futebol porque assume que, primeiro, ela é lésbica, e, segundo, que seu comportamento é masculinizado. O preconceito segue resistindo mesmo quando mudamos de modalidade dentro do futebol.

Katiuscia, atleta do Corinthians, e companheiras de equipe com a bandeira LGBTQIA+
Fonte: olimpiasports.com.br. Disponível em: https://olimpiasports.com.br/2021/09/28/katiuscia-faz-homenagem-a-comunidade-lgbtqia-apos-titulo-do-brasileirao-feminino-neoenergia/

São muitos os jogadores que têm suas conquistas apagadas por questões pessoais. Richarlyson é um dos principais jogadores que passaram pelo São Paulo no início dos anos 2000, sendo responsável por inúmeros gols e peça importante para a conquista de grandes campeonatos, entre eles o Mundial de Clubes da FIFA de 2005. Mesmo após tantas glórias, a sua imagem segue mais marcada por episódios de preconceito do que por suas vitórias – o que se deu mesmo sem que o jogador assumisse qualquer orientação sexual que senão a de um homem heterossexual. Torcedores, dirigentes, jogadores e até mesmo mídia esportiva, o conjunto todo reproduz discursos que ferem e machucam as pessoas. É inaceitável que qualquer pessoa tenha a sua história atrelada a episódios tão violentos. É vergonhoso olhar para o futebol e perceber que ainda é um lugar tão hostil para certos grupos sociais.

O caso do Richarlyson data primeiramente de 2005. Já se passaram 17 anos, e ao avaliar o esporte pelo viés social, é possível perceber que pouco se evoluiu no sentido de combater desigualdades. Quantos jogadores/dirigentes/torcedores assumidamente gays você conhece? Quantas torcidas LGBTQIA+ e queers você conhece? A resposta é sempre a mesma. E a resposta vai continuar sendo a mesma até que personagens do futebol sejam condenados por atitudes preconceituosas, até que juízes cumpram o seu papel e julguem os fatos pelo o que eles são e não por falácias sobre um esporte historicamente marcado por violências.

Referências bibliográficas

ALEIXO, Bianca. Katiuscia Fernandes faz homenagem a comunidade LGBT após título do Brasileirão Feminino Neoenergia. Observatório G, 2021. Disponível em:

<https://observatoriog.bol.uol.com.br/noticias/esporte/katiuscia-fernandes-faz-homenagem-a- comunidade-lgbt-apos-titulo-do-brasileirao-feminino-neoenergia> Acesso em 18 mai. 2022

BANDEIRA, Gustavo Andrada; SEFFNER, Fernando. Futebol, gênero, masculinidade e homofobia: um jogo dentro do jogo. Espaço Plural, Nº 2, 2013. p. 246 – 270

PINHEIRO, Aline. Juiz nega ação de Richarlyson e diz que futebol é para macho. Consultor Jurídico, 2007. Disponível em:

<https://www.conjur.com.br/2007-ago-03/juiz_nega_acao_jogador_futebol_macho> Acesso em 11 mai. 2022

PINTO, Maurício Rodrigues. Richarlyson, um transgressor da bola. Ludopédio, São Paulo, v. 106, n. 20, 2018. Disponível em: <https://ludopedio.org.br/arquibancada/richarlyson/>Acesso em 11 mai. 2022

SILVA, Giovana Capucim e. A Homofobia veste verde?. Ludopédio, São Paulo, v. 34, n. 3, 2012. Disponível em: <https://ludopedio.org.br/arquibancada/a-homofobia-veste-verde/&gt; Acesso em 18 mai. 2022

***Esta análise foi produzida como atividade da disciplina Mídia, Esporte e Gênero ofertada no semestre 1 de 2022 no Departamento de Comunicação Social da UFMG. A disciplina foi ministrada pela Profa Ana Carolina Vimieiro, pela doutoranda Olívia Pilar e pela mestranda Flaviane Eugênio.***

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