Resenha: Minha Primeira Luta

Por Ana Clara Crepaldi Souza

Ficha técnica

Título: First Match (Original)
Ano de produção: 2018
Direção: Olivia Newman
Duração: 102 minutos
Classificação: 16 anos
Gênero: Drama
Países de Origem: EUA

Quando o assunto é interseção entre gênero e esporte, há uma ampla discussão que podemos realizar em torno do tema. Para o presente texto, analisaremos o filme “Minha Primeira Luta” (First Match), lançado em 2018 originalmente pela Netflix, que traz a história da personagem Mo, interpretada pela atriz Elvire Emanuelle.

Mo vive em uma situação de negligência parental e abandono, e por isso ela reage com mal comportamento e muita agressividade. Já no início do filme descobrimos que ela tem mantido relações sexuais com o padrasto, que é o namorado da mulher que a estava hospedando e que deveria cuidar dela. Esse caso leva Mo a ser expulsa de casa (mais uma vez), e acaba sendo realocada para outro lar provisório.

Durante essa realocação, a adolescente, andando pela cidade com seu amigo, se depara com seu pai Derrel (interpretado por Yahya Abdul-Mateen II), e fica muito surpresa já que não sabia que ele já havia saído da prisão e não teve a iniciativa de procurá-la.

Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=xFYjs-CkJY0 Acesso em 17/05/2022

Dessa maneira, a fim de resgatar os laços e até mesmo impressionar seu pai, Mo começa a praticar luta livre, esporte que ele praticava quando era mais novo. Um importante ponto a se destacar é que o grupo era composto apenas por garotos e, portanto, a jovem já em seu primeiro dia de aula começa a enfrentar comentários negativos, criando assim a necessidade de se afirmar e dar o seu melhor quando enfrentava algum adversário.

Segundo Oliveira (2004), “O esporte, em particular, tornou-se durante mais de um século, o lugar de disputas intensas sobre o que pode/dever fazer um ‘corpo masculino’ ou um ‘corpo feminino’, tanto pelo lugar central que ocupava na construção de novas formas mais ‘pacificadas’ da construção da masculinidade”. Exatamente por isso, percebemos cenas emblemáticas durante as lutas, que seu corpo é visto como incapaz, fraco e inadequado para aquele lugar quando seu pai a questiona ao voltar de sua primeira aula: “nunca vi garota lutando com homem”.

Mesmo assim, Mo continua com as aulas, e vai para sua primeira luta.

Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=xFYjs-CkJY0 Acesso em 17/05/2022

Pensando ainda sobre tal visão acerca dos corpos femininos ocupando espaço no esporte, trago a reflexão da escritora feminista Susan Brownmiller, que dizia que a feminilidade pode ser definida como a “estetica da limitação”. Para a autora, a partir de tal limitação, entendemos o porquê do esporte, prática que incentiva a desafiar os limites corporais, torna-se um cenário de conflito sobre o que pode ser ou fazer uma mulher. Ou seja, para as mulheres, há um significado diferente ao ocupar tal lugar: é uma disputa por acessos a espaços, legitimidade, recursos materiais e simbólicos que trazem consigo a luta para o maior controle sobre o corpo e a vida.

E é exatamente nesse cenário que Mo continua a trama: sendo treinada pelo seu pai, ela desafia seus limites corporais e se sujeita a diversas situações para conseguir disputar um lugar e ganhar respeito no esporte. Quando seu time observa que ela tem potencial e está ganhando os jogos, a garota começa a ser respeitada e há um incentivo da parte dos garotos e até mesmo pelo seu pai.

Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=xFYjs-CkJY0 Acesso em 17/05/2022

Segundo Miriam Adelman (2006):

O avanço das mulheres no mundo do esporte, desde o espaço muito limitado que tinham na época em que a noção de fragilidade feminina imperava, até a gradual conquista de atuação esportiva diversificada tanto a nível do esporte amador quanto profissional, é um fenômeno amplamente reconhecido hoje em dia. Mas, […] continua sendo um terreno muito sensível e que potencialmente pode nos dizer muito sobre o status atual das mudanças sociais e culturais no âmbito das relações de gênero. […] Quais as representações hegemônicas das atletas na mídia? A antiga preocupação com a “masculinização” das mulheres que se dedicam ao esporte continua pautando comportamentos e julgamentos? E – talvez a questão mais central ainda – como é que as próprias atletas vivem e interpretam suas experiências no mundo do esporte, e o que podemos dizer sobre as formas em que a prática de esporte, a nível profissional e/ou amador, estruturam a subjetividade e a identidade das mulheres que se envolvem nela?

É justamente sobre tal visão acerca dos outros olhares sobre o corpo feminino, bem como a própria experiência da mulher frequentando esses espaços, e entendendo sua subjetividade, que a narrativa de “Minha Primeira Luta” vai se construindo. No caso, reafirmo, a personagem utiliza da luta para se afirmar, ganhar notoriedade e respeito, e assim o faz até o momento em que percebe que o próprio pai utiliza de tal privilégio com o objetivo de “fazer dinheiro”.

Ainda segundo Susan Brownmiller, o conflito envolvendo gênero e esporte envolve uma série de atores sociais: homens e mulheres como indivíduos e como familiares, bem como o Estado em função do investimento de deveres, direitos e funções sociais, profissionais da saúde, educação, imprensa, etc.

Isso é claramente visto no filme quando em um certo momento, Derrel pressiona Mo para participar de uma luta em um espaço ilegal, com o objetivo de ganhar dinheiro, e a polícia acaba por cercar o local após a garota vencer (e estar muito machucada). Ele o abandona e a garota se decepciona e, em seguida, decide mudar o rumo de sua história. Neste momento, percebemos então até como o próprio estado intervêm sobre o tema, quando há limites e regras relacionados ao esporte.

A postura de Mo ao longo de toda a trama, bem como após essa situação com seu pai, continua por trazer à tona a questão da corporalidade feminina. A autora Judith Butler discorre sobre o caráter fluido das construções de identidades e corporalidades de gênero, em que há um reconhecimento do corpo enquanto corpo “generificado”; ou seja, corpos femininos são vistos como submissos enquanto que masculinos são vistos como poderosos.

Segundo Butler, o gênero:

se institui através da repetição estilizada dos atos […] através da estilização do corpo […] como a forma mundana em que gestos e movimentos do corpo, assim como vários tipos de encenações, constituem uma ilusão de um obediente self generificado […] uma façanha performativa na qual o público social mundano – que inclui os atores mesmos – acaba acreditando e encenando de acordo com a crença. Se a base da identidade de gênero é a repetição estilizada dos atos através do tempo […] então as possibilidades de transformação do gênero se encontram nas relações arbitrárias entre os atos, na possibilidade de outras formas de repetição, na quebra ou repetição subversiva desse estilo.

É de se destacar também que, para além da questão exclusivamente do gênero, outros temas atravessam a vida da personagem, como a questão da raça, classe social, história de vida, e a questão da paternidade acabam por influenciar a trajetória de Mo, que vê no esporte a força que ela precisava para lidar com suas próprias questões. Por ter sido sempre exposta à violência, ela assim reage.

Da mesma maneira, principalmente ao final do filme, Mo demonstra sua vulnerabilidade. Ela consegue chorar e se expressar com seu pai e seu amigo, e opta por seguir um caminho correto no seu processo de amadurecimento, colocando também limite em seu pai.

A luta livre realmente simboliza o caráter da personagem. Espera-se que agora a cultura relacionada à “libertação dos corpos”, como sugere a autora Denise Sant’Anna (2000), principalmente os corpos femininos cercados por tabus e códigos de repressão, permitam a construção para o caminho da igualdade, que ultrapasse a cultura comercial e machista que infelizmente ainda persiste no que tange ao tema do esporte.

Para pensar e refletir sobre o tema que envolve gênero e esporte, bem como para assistir um filme com uma fotografia realista, atores excelentes e um enredo cativante que prende a atenção, “Minha Primeira Luta” realmente é um filme que vale a pena ser assistido.

Referências

BUTLER, Judith. Gender Trouble: Feminism and the Subversion of Identity. New York: Routledge, 1990.

ADELMAN, Miriam. Mulheres Atletas: Re-significações da Corporalidade Feminina? Revista Estudos Feministas, Florianópolis. v. 11, n. 2, p. 445-265, 2003.

BORDO, Susan. Feminism, postmodernism, and gender skepticism. In: NICHOLSON, Linda J., org. Feminism/postmodernism: Thinking gender. New York: Routledge, 1994. p. 133-156.

BORDO, Susan. Twilight Zones: the Hidden Life of Cultural Images from Plato to OJ. Berkeley: University of California, 1997.

OLIVEIRA, Pedro Paulo. A Construção Social da Masculinidade. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004.

LORBER, Judith. Paradoxes of Gender. New Haven: Yale University, 1994.

BORDO, Susan. “O corpo e a reprodução da feminidade: uma reapropiação feminista de Foucault” In: JAGGAR, Alison; BORDO, Susan. (Orgs.). Gênero, corpo, conhecimento. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1997a. p. 19-41

SANT’ANNA, Denise Bernuzzi de. As infinitas descobertas do corpo. Cadernos Pagu, Campinas, v.14, p. 235-249, 2000.

***Esta resenha foi produzida como atividade da disciplina Mídia, Esporte e Gênero ofertada no semestre 1 de 2022 no Departamento de Comunicação Social da UFMG. A disciplina foi ministrada pela Profa Ana Carolina Vimieiro, pela doutoranda Olívia Pilar e pela mestranda Flaviane Eugênio.***

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