O beijo que expôs o sistema: patriarcado e poder em #SeAcabó

Por Maria Polito Antoniol, Mariane Baia Castro e Pedro Falco Romero*


FICHA TÉCNICA
Título:
#SeAcabó: Diario de las campeonas
Ano de produção:
2024
Direção:
Joanna Pardos
Duração:
94 minutos
Classificação:
16 anos
Gênero:
Documentário
Países de Origem:
Espanha


Em agosto de 2023, após vencer a Inglaterra por 1 a 0 na final da Copa do Mundo, Jenni Hermoso, atacante e camisa 10 da Espanha, foi beijada sem o seu consentimento por Luis Rubiales, então presidente da federação de futebol nacional, durante as comemorações. O gesto instantaneamente repercutiu nas redes sociais e nas principais emissoras do país. Inicialmente abafado pelo executivo, que tentou se defender — e atacar a jogadora, inclusive, em assembleia transmitida ao vivo —, o fato iniciou uma revolução, orientada pela #SeAcabó, que alcançou diferentes esferas sociais e gerou uma série de mudanças estruturais na organização. A produção da Netflix, que tem a hashtag como título, percorre os momentos antes, durante e depois da competição, analisa escolhas e como a seleção foi, na maior parte do tempo, tratada em um dos principais polos do futebol feminino mundial.

Por muitos anos, a equipe espanhola feminina foi tratada apenas como uma obrigação. Apesar de contar com grandes nomes — que venceram a Bola de Ouro mais de uma vez — a seleção não recebia respeito por parte da Federação e nunca se tornou a potência esportiva que tinha o potencial para ser. O beijo não consentido de Luis Rubiales em Jenni Hermoso iniciou alguns dos momentos mais tensos do esporte de mulheres, mas também foi responsável pelo movimento que encerraria um ciclo de opressão e hegemonia. O movimento #SeAcabó foi além das redes sociais e se tornou uma mobilização mundial pelos direitos femininos dentro e fora das quatro linhas.

Mais do que um episódio isolado, a narrativa apresentada pelo documentário evidencia o funcionamento de estruturas patriarcais no esporte. Compreendido como um sistema de organização social que historicamente concentra posições de poder nas mãos dos homens e naturaliza desigualdades de gênero, o patriarcado se manifesta na exclusão das mulheres dos espaços de decisão, na deslegitimação de suas reivindicações e na normalização de práticas de violência e assédio (SAFFIOTI, 2004). Nesse contexto, o caso envolvendo Jenni Hermoso e Luis Rubiales representa a expressão mais visível de um problema estrutural que antecede o beijo não consentido.

O silenciamento das (ainda) não campeãs

A primeira Copa do Mundo aconteceu em 1930, no Uruguai, com a participação de 13 seleções convidadas. Foram 14 edições e 61 anos até que as mulheres pudessem disputar o torneio, em 1991. Pouco antes, em 1988, Ignacio Quereda assumia a Seleção Espanhola, cargo que ocupou até 2015, mesmo com graves denúncias de abuso psicológico e conduta misógina, que também lhe renderam um longa-metragem, o Selección F: De clandestinas a campeonas.  Denunciado após o mundial daquele ano, o treinador foi substituído por Jorge Vilda, filho de Ángel Vilda, um dos maiores apoiadores de Luis Rubiales, que havia passado pelas categorias de base de La Roja.

Foram oito temporadas de Vilda até que a insatisfação com o comportamento do técnico se transformasse em atitude concreta. Após a eliminação para a Inglaterra na Eurocopa de 2023, as principais futebolistas do elenco se uniram para cobrar do mandatário da entidade algumas reestruturações. Entre elas, estavam Irene Paredes, Alexia Putellas, Aitana Bonmatí e Jenni Hermoso, que atuavam juntas pelo Barcelona e eram consideradas lideranças do vestiário.

As campeãs, já parte do elenco espanhol há pelo menos duas edições de Copa do Mundo, questionavam a disparidade de tratamento entre as seleções feminina e masculina. As atletas não tinham direito a voos fretados, então viajavam em horários comerciais impróprios para as partidas, que seriam disputadas sem tempo ideal de descanso. Além disso, Las Soñadoras não possuíam comissão profissional completa, com ausência de nutricionista, por exemplo, ou acesso a uma academia.

O principal tópico, entretanto, era a insistência da diretoria em um treinador que parecia não saber como comandar tantas estrelas. Ao longo do filme, várias relataram se sentir perdidas em campo, guiadas por alguém que não sabia como superar qualquer adversário. Por mais de 30 anos, a seleção feminina nunca havia conquistado nenhum título. Em Mundiais, a Espanha só venceu sua primeira disputa em fases eliminatórias em 2023. Tudo era muito diferente do futebol de clubes, em que o país contava com alguns dos melhores elencos da Europa e representava um polo importante.

Mensagens trocadas entre Paredes e Rubiales vazaram, repercutiram na mídia e as jogadoras decidiram abandonar a seleção até que mudanças significativas ocorressem — o grupo ficou conhecido como Las 15 e foi a primeira afronta à gestão. Os embates foram constantes até que Alexia Putellas decidiu se reunir com o presidente para uma conciliação. Mesmo sem conquistar todas as reivindicações, sete atletas retornaram à convocação, entendendo que poderiam fazer a diferença de dentro. Outras até se colocaram à disposição de Jorge Vilda, mas assistiram à vitória na final de suas casas — mais uma demonstração de força vindo do treinador e do dirigente.

Fonte: Reprodução/Marca

Apesar do retorno, as jogadoras encontraram um ambiente hostil. Rubiales e Vilda entenderam a luta por melhores condições de trabalho como uma afronta pessoal. Entre a polêmica na mídia espanhola e a Copa do Mundo de 2023, as atletas precisaram enfrentar o desafio de atuar em alto nível ao mesmo tempo em que conviviam em um cenário de desconforto e desvalorização.

O beijo não consentido

Em 20 de agosto de 2023, a Espanha vencia a Inglaterra por 1 a 0 e conquistava o título inédito da Copa do Mundo Feminina. Olga Carmona fez o gol da vitória que levou a Seleção Espanhola à primeira comemoração de sua história. Durante a celebração, Luis Rubiales, presidente da Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF) e responsável pela entrega das medalhas, decidiu dar um beijo não consentido em Jenni Hermoso. A narrativa em torno do ato de violência se iniciou nos segundos seguintes. A final do Mundial estava sendo transmitida ao vivo em todo o planeta e a cena, comandada por Rubiales, foi vista e criticada em tempo real. A conquista da taça virou, instantaneamente, segundo plano.

Fonte: Reprodução/BBC News

Os veículos de imprensa rotularam a ação como inaceitável. O dirigente, por sua vez, se negou a admitir o erro. Em entrevistas, o presidente se referiu ao caso como um ato “de alegria”, “com consentimento” e, eventualmente, como “conversado e iniciado” por Jenni Hermoso. Em momento algum o executivo assumiu a responsabilidade, mas, sim, buscou jogar a culpa para a vítima.

Minutos antes do episódio, no momento em que o juiz apitou pela última vez, Rubiales, que acompanhava a família real, protagonizou outra cena antiprofissional, imprópria e moralmente inaceitável. Apontando para Jorge Vilda, que estava no gramado, o executivo balançou o órgão genital, quase uma resposta às críticas sofridas ao longo dos meses anteriores. Para ele, aquela era uma conquista pessoal.

Luis Rubiales, em direção ao campo, após o apito final.

Fonte: Reprodução/GE

Quase imediatamente após as primeiras repercussões na mídia, o presidente da RFEF buscou iniciar o controle de danos. Nas lives de Instagram das atletas campeãs, é possível perceber a presença do dirigente, que busca convencer a todos de que tudo estaria bem. No avião de volta para a Espanha, Jenni Hermoso foi cercada inúmeras vezes por funcionários da instituição, que buscavam uma declaração oficial de que nada demais havia ocorrido. A atleta se recusou, assim como todo o elenco, a se pronunciar. Em dado momento, ainda no voo, Rubiales cerca a atacante e lhe pede para gravar um vídeo para uma mulher com quem o homem estaria saindo, para explicar que o ocorrido não tinha sido nada.

Após o caso de assédio, a camisa 10 viajou a Ibiza com as colegas de equipe em uma comemoração paga pela Federação. As atletas citam que a viagem pareceu mais uma tentativa de contenção, para ter todas em um só lugar, mais fáceis de controlar e manipular. Em dias que deveriam ser repletos de alegria e alívio, a atacante foi perseguida pela equipe da entidade, que tentou abafar o caso. Hermoso relatou, ainda, que Albert Luque, amigo próximo e diretor da seleção masculina da época, procurou contatá-la em nome do dirigente, com tentativas de suborno. Ele afirmava, repetidamente, que Jenni deveria ao menos escutá-lo depois de tudo que havia feito por ela.

O assédio permeia a obra do início ao fim. Apesar de ser o ponto alto da história, o ato não é discutido o tempo inteiro. O documentário busca, em um formato de narrativa não linear, expor o contexto de desrespeito e violência enfrentado pelas jogadoras espanholas. O gesto se tornou o protagonista de uma história que havia chegado ao ápice após anos de assédios morais e psicológicos. A produção transita entre o passado e o presente para contextualizar a luta interna vivida pela Seleção Espanhola. No início, o beijo é citado como introdução a todo o assunto, que se revela uma “bola de neve” até a repercussão da #SeAcabó. Dessa maneira, o documentário demonstra que a violência sofrida por Jenni Hermoso não pode ser interpretada como um episódio isolado, mas como resultado de relações de poder historicamente construídas em esportes considerados masculinos (Goellner, 2025). Nesse sentido, a conquista esportiva e a mobilização promovida pela #SeAcabó evidenciam que transformações institucionais dependem tanto do desempenho em campo quanto da capacidade de contestar estruturas de desigualdade. 

Se acabó

Previsto inicialmente como um momento de admissão de culpa, Luis Rubiales surpreendeu as jogadoras e o mundo ao aparecer em uma assembleia extraordinária e performar um show de ego. O dirigente declarou, em transmissão ao vivo, que o caso não o derrubaria. O mandatário decidiu criar uma rivalidade ainda maior com todas as suas atletas ao afirmar que o beijo foi consentido, que sua presença era essencial à Federação e que não se demitiria do cargo. Além disso, o cartola anunciou a renovação de Jorge Vilda por mais quatro anos.

Em uma verdadeira manifestação pública, Luis Rubiales encontrou seu fim como presidente da Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF) a partir da #SeAcabó. Diante do desrespeito transmitido mundialmente, todas as futebolistas da Seleção Espanhola feminina assinaram um comunicado declarando que se afastariam da equipe até que providências fossem tomadas. Além disso, prestaram solidariedade a Jenni Hermoso pelas redes sociais. De modo rápido, a hashtag tomou conta da internet, que apoiou a jogadora. A campanha digital tornou-se real, com protestos na Espanha em apoio não apenas à atacante, mas ao movimento feminino como um todo.

Fonte: Reprodução/BBC News

Com o impacto da discussão, a história chegou às mãos da FIFA, que abriu uma investigação. Mesmo negando a possibilidade de demissão, Luis Rubiales renunciou à presidência de modo definitivo. Após a queda do dirigente, Jorge Vilda também foi demitido do cargo de treinador, assim como vários outros profissionais que ocupavam posições de poder graças à influência do ex-presidente.

Com a saída de Rubiales, Pedro Rocha assumiu de forma interina a RFEF. Em dezembro de 2024, Rafael Louzán foi oficialmente eleito presidente da entidade para o ciclo 2024-2028. No comando técnico, Montse Tomé assumiu a vaga deixada por Vilda em 2023 e fez história ao se tornar a primeira mulher a treinar a equipe espanhola principal. Em agosto de 2025, Sonia Bermúdez substituiu a comandante, tornando-se a segunda técnica a liderar o time.

No ano seguinte à conquista do Mundial, em fevereiro de 2024, a Espanha venceu de modo inédito a Liga das Nações Feminina da UEFA. Em 2025, as espanholas brilharam novamente e garantiram o bicampeonato. Por mais de 30 anos, a seleção feminina nunca havia ganhado nenhum título. Após o Mundial de 2023 e a destituição de uma liderança pouco interessada em assegurar boas condições ao elenco, a equipe mostrou que nem mesmo as melhores jogadoras do mundo conseguem avançar sozinhas. É necessário que o futebol feminino seja tratado com respeito, igualdade e confiança.

REFERÊNCIAS

CRISTIANINI, Matheus. A conduta misógina de Ignácio Quereda na seleção espanhola virou documentário. Trivela, 2024. Disponível em: <trivela.com.br/futebol-feminino/misoginia-ignacio-quereda-selecao-espanhola/>. Acesso em: 22 jun. 2026.

GOELLNER, Silvana Vilodre. Mulheres e futebol no Brasil: entre sombras e visibilidades. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, São Paulo, v. 19, n. 2, p. 143–151, 2005. 

FONSECA, Diego. De la marginación a la élite: 50 años de la selección femenina de fútbol. El País, 2021. Disponível em: <elpais.com/especiales/2021/50-aniversario-seleccion-futbol-femenino/>. Acesso em: 22 jun. 2026.

‘It’s all over’ – new documentary on the kiss that shook Spanish football. BBC, 2024. Disponível em: <www.bbc.com/sport/football/articles/c3wq1737vjpo>. Acesso em: 22 jun. 2026.

REIS, Heloisa Helena Baldy Dos; MARTINS, Mariana Zuaneti. Futebol de mulheres na Espanha: um exemplo de luta e resistência!. Ludopedio, 2019. Disponível em: <ludopedio.org.br/arquibancada/futebol-de-mulheres-na-espanha-um-exemplo-de-luta-e-resistencia/?srsltid=AfmBOoobQ0SIWdnWNRGtww9nZYW3934DsN0Q286kguwhqAhh3-n4gCT8>. Acesso em: 22 jun. 2026.

SAFFIOTI, Heleieth I. B. Gênero, patriarcado e violência. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2004.

* Esta resenha foi produzida como atividade da disciplina Jornalismo esportivo, gênero e representação midiática ofertada na UMFG no semestre 1 de 2026 pela doutoranda em Comunicação Social Flaviane Rodrigues Eugênio.

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