Por Raphaela Ferro (@raphaelaferro) e Bárbara Sarinho (@babisrn)*
Em novembro de 2024, o narrador Galvão Bueno retornou pontualmente à Rede Globo de Televisão anunciando que comandaria um reality show, o Craque da Voz. A competição tinha o objetivo de escolher um(a) novo(a) narrador(a) para o grupo de comunicação e foi veiculada no programa dominical Esporte Espetacular entre novembro e dezembro daquele ano. O prêmio: um contrato com a Globo. Na disputa, estavam dez concorrentes: cinco homens e cinco mulheres – duas delas já haviam vencido competições de narração anteriormente. Na apresentação de candidatos e candidatas, havia uma ideia de paridade. Disponível para acesso pelo streaming Globoplay, o programa teve apenas uma temporada, cujo campeão e contratado foi o narrador Leandro Chaves.
Apesar do tempo passado, considera-se neste artigo a necessidade de promover algumas discussões não sobre o programa especificamente, mas sobre como sua realização evidenciou questões de gênero relativas à narração esportiva brasileira. Aqui, analisamos esse cenário a partir de três pontos de tensionamento centrais: 1) a recorrência da seleção de mulheres para atuarem como narradoras por meio não convencional de reality shows e competições semelhantes, a partir da proposta de revelar talentos; 2) a falsa equiparação entre homens e mulheres, em paralelo exclusivamente binário apresentado pela produção analisada; 3) a quantidade de testes a que mulheres são submetidas para se provarem no exercício de uma função difícil, mas realizável, principalmente a partir de treinamento adequado.
Galvão Bueno e Karine Alves apresentaram o programa Craque da Voz em 2024

Concursos para narradoras
Embora a narração feita por mulheres não seja uma novidade no Brasil, sua popularização tem sido mais recente, sobretudo na televisão e nos canais de streaming, e principalmente a partir de 2018. Desde a década de 1970, com as transmissões de partidas na Rádio Mulher, pioneiras como Zuleide Ranieri e Claudete Troiano já protagonizavam narrações de jogos de futebol. A estreia para a televisão ocorreu somente em 1997, após Luciana Mariano vencer um concurso que buscava “uma voz feminina” para transmissões na TV Bandeirantes, onde permaneceu inicialmente narrando jogos de futebol feminino no Torneio Primavera, até 1998, com cerca de 40 jogos narrados.
O contexto de maior visibilidade para a narração de futebol feita por mulheres só se deu nas décadas seguintes, após vários anos sem a presença de narradoras na televisão brasileira, impulsionado por uma série de concursos e realities promovidos por emissoras que buscavam “revelar talentos” na narração feminina. O Garota da Voz, em 2014, promovido pela Rádio Globo, teve Renata Silveira como grande vencedora. O Narra Quem Sabe, em 2018, promovido pela Fox Sports, teve três vencedoras na primeira edição: Manuela Avena, Isabelly Morais e Renata Silveira. Na segunda edição, em 2021, esta realizada pela ESPN, as vencedoras foram Isabelly Melo e Eduarda Gonçalves. Já o Narradora Lay’s, do Esporte Interativo (EI), premiou Vivi Falconi em 2018. Cabe mencionar também a participação de Milla Garcia, 5ª colocada na competição do EI, no programa Looking For a Caster, o primeiro reality show de e-sports do SporTV. Ela saiu campeã da disputa que envolvia quatro homens e duas mulheres, a partir do voto do público, com 55% dos votos, e do casting da Globo. A conquista foi alvo de críticas e ataques nas mídias digitais. Milla, como as demais profissionais aqui citadas seguem ativas no mercado até hoje, com carreiras na Globo, SporTV, ESPN, streaming, mesmo que com muitas oscilações de percurso.
Essas iniciativas, com exceção do Looking For a Caster, previam apenas participantes mulheres em sua formação, como espécie de mecanismo de entrada ou política afirmativa pontual para fomentar a inserção de mulheres nos contextos do jornalismo esportivo, contrastando com trajetórias masculinas, que historicamente se dão por outros meios, como a formação interna com ascensão gradual nas emissoras. Essa dinâmica aponta para a noção de “revelação” enquanto ativo no formato do produto midiático: a ideia de que há um talento raro escondido a ser revelado por aquela competição. Além disso, a competência feminina é abordada como ferramenta de atração, com objetivo de gerar repercussão, mas acabam por corroborar a ideia de que as mulheres precisam se provar em arenas competitivas para conseguir assumir essa função. Como escreveu Olga Bagatini, em 2018: “expõe mulheres a suposta diversão do público, reforça o estereótipo de que elas não entendem tanto de futebol quanto eles, mostra a desconfiança com as profissionais do meio esportivo”.
O Craque da Voz estreou em 2024 com formato e premissa diferentes das competições citadas anteriormente: apresentado por Galvão Bueno e Karine Alves, o programa contava com cinco homens e cinco mulheres, e prometia ao finalista um contrato assinado com a Rede Globo de Televisão. A noção de paridade de gênero é notoriamente um pilar do reality, inclusive na apresentação e na seleção de jurados, operando em uma lógica simbólica de representatividade. Disputaram a final Manu Avena, Henrique Pereira e Leandro Chaves, sendo o último o campeão. Em comum, os três compartilhavam uma trajetória profissional no jornalismo esportivo e na narração, mas apenas Manu Avena já tinha participado de outra competição com esse mesmo intuito, o Narra Quem Sabe, da Fox Sports, em 2018, mesmo ano em que narrou uma partida de Copa do Mundo de Futebol Masculino. Aqui, fica evidente uma tendência persistente de que as narradoras no Brasil atuam por meio de múltiplas provações em trajetórias profissionais inseridas por meios não convencionais, e, muitas vezes, inconsistentes.
Disparidade de gênero
A inconsistência no discurso de equiparação de gênero já se identifica na apresentação do programa em questão. A parceria entre Galvão Bueno e Karine Alves em nenhum momento é equilibrada, assim como a flexão de gênero não alcança todas as palavras, reforçando-se na linguagem do masculino generalizante. A condução do programa é feita pelo famoso narrador, que está sozinho, inclusive, em propagandas iniciais da atração global. No fim, é o que Breiller Pires (2024) denomina por diversidade alegórica, se referindo à inserção de pessoas negras como “pedágio para o discurso de responsabilidade social”. Em situações como a criada pelo programa Craque da Voz, ocorre algo semelhante tanto na questão racial, considerando apresentador e apresentadora, quanto no que diz respeito às mulheres competidoras – passa-se longe de uma diversidade real.
Manu Avena e Vivi Falconi já ganharam concursos de narração, já se provaram capazes de executar a função. Assim, porque, então, estão ali, sendo testadas, mais uma vez, e eliminadas em um simulacro de igualdade de gênero que diz a elas que seus erros são avaliados equivalentes aos erros cometidos pelos homens? Vivi Falconi, por exemplo, foi eliminada por esquecer de dizer um bordão em uma etapa que exigia apenas isso. Mais do que a desclassificação, sua saída, marcada pelo relato de dificuldades financeiras, gera também questionamentos sobre trajetórias profissionais tortuosas no contexto do jornalismo esportivo quando vivenciado por mulheres. Quanto mais elas têm de se provar para ocupar postos de trabalho nesse campo? Será que homens que tivessem sido submetidos a concursos de narração já não estariam contratados? É difícil dizer, porque não são realizados concursos só para homens testarem sua capacidade de narrar.
Eles são só contratados, o que é facilmente comprovável dada a proporção de narradores em relação a narradoras no próprio grupo Globo. Se o gênero do jornalismo é masculino, conforme identificou Márcia Veiga (2014), o é ainda mais no jornalismo esportivo. O monopólio masculino em todas as áreas desse campo profissional foi considerado evidente por Leonardo Pacheco (2020) no final dos anos 2010. Atualmente, a emissora tem quatro mulheres em sua equipe de narração: Renata Silveira, Natália Lara, Isabelly Morais e Letícia Pinho, esta a única que se identifica como mulher negra. Das quatro, três delas já passaram por pelo menos um concurso em que foram testadas e tiveram de se provar na função. Contratado a partir do Craque da Voz, Leandro Chaves tem essa experiência compartilhada com elas, em termos, considerando que a narração para elas, ainda hoje, se apresenta, muitas vezes, como um tabu. Contudo, além dele, quantos mais têm essa vivência entre os narradores da casa?
Falsa equiparação
O formato de reality shows de competição (ou game shows) se estrutura em torno de uma disputa (individual ou coletiva) baseada no desempenho em provas que geram eliminações ou premiações, sendo um dos modelos de grande sucesso da televisão, com destaque especial para o baixo custo de produção: incluindo tanto despesas reduzidas em relação a produções roteirizadas quanto o baixo pagamento aos participantes. Programas como Masterchef Brasil, exibido pela Band desde 2014, que já soma 12 temporadas e spin offs, representam a popularização do formato de competição profissional, na qual os competidores são avaliados com base em critérios técnicos e habilidades de trabalhar sob pressão frente a um corpo de jurados especialistas com autoridade em determinado campo.
Esse tipo de produto tende a produzir narrativas centradas no mérito individual e o prêmio final aparece como resultado direto de uma trajetória de competência demonstrada durante a competição. Assim, acabam por ocultar desigualdades sociais pré-existentes dentre os participantes como acesso à formação, oportunidades profissionais, desigualdades de classe, raça e gênero, reforçando a ideia de que essas assimetrias não perpassam a sociedade, e que os competidores partem de condições equivalentes. Em uma disputa entre homens e mulheres, narradores e narradoras, será mesmo que as condições de competitividade são equiparáveis?
Em uma realidade em que, como afirma Pacheco (2020), a linguagem do futebol é masculina e a sua socialização é feita na infância por homens, entre homens, dificultando o acesso de meninas e mulheres a seus termos e especificidades, onde está a equidade da competição para selecionar quem deve dizer sobre a modalidade? Adiciona-se a esse cenário a proibição por lei de práticas esportivas para mulheres, incluindo o futebol, até o fim da década de 1970, que tornou a segmentação da prática de esportes por gênero uma política de Estado. Até que ponto é possível para elas se perceberem como parte do grupo de quem pode não só praticar, mas também relatar detalhadamente o esporte?
Em alguns pontos do Craque da Voz é possível perceber como todo esse contexto agrega mais confiança aos homens que se candidatam à narração esportiva, mesmo que tenham menos experiência no exercício profissional do que as mulheres. A autoconfiança, quando apresentada por mulheres, é percebida com estranhamento, mesmo que elas já atuem como narradoras profissionalmente. Passar por esse tipo de concurso uma, duas vezes, quantas vezes for necessário até uma contratação, pode até parecer uma boa oportunidade para quem busca um emprego e não encontra outros meios para atuar na área que escolheu para si. Entretanto, são essas práticas, mesmo quando mascaradas de equiparação de gênero, que reforçam como o espaço do esporte e principalmente do futebol só está aberto para as vozes de quem sempre esteve por lá, como uma reserva de mercado pouco sutilmente estabelecida.
REFERÊNCIAS
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DAGA, Bianca. 1ª narradora da TV no Brasil foi pupila de Luciano do Valle e volta a narrar após 19 anos, na ESPN. ESPN, 2018. Disponível em: https://www.espn.com.br/undefined. Acesso em 25 abr. 2026.
FERRO, Raphaela. Narradoras em Transmissões Esportivas no Brasil: Mapeamento Histórico da Presença Feminina na Narração em Veículos de Rádio, Televisão e Internet. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 44., 2021, Remoto. Anais… São Paulo: Intercom, 2021, p. 1-15. Disponível em: https://portalintercom.org.br/anais/nacional2021/resumos/dt1-hj/raphaela-xavier-de-oliveira-ferro.pdf. Acesso em: 21 abr. 2026.
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PIRES, Breiller; MEZZAROBA, Cristiano. Entrevista com Breiller Pires: Visões do campo da comunicação social/jornalismo sobre o racismo no esporte/futebol e ações antirracistas. Cadernos do Aplicação, Porto Alegre, v. 37, 2024. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/CadernosdoAplicacao/article/view/143187. Acesso em: 21 abr. 2026.
SPORTV. #PorqueÉMulher: movimento contra preconceito sofrido por Milla, do Looking For a Caster. 2019. SporTV.com. Disponível em: https://sportv.globo.com/site/e-sportv/noticia/porqueemulher-movimento-contra-preconceito-sofrido-por-milla-do-looking-for-a-caster.ghtml. Acesso em: 25 abr. 2026.
VEIGA, Márcia. Masculino, o gênero do jornalismo. Modos de produção das notícias. Florianópolis: Insular, 2014.
*Esta resenha foi produzida como atividade da disciplina Comunicação, Esporte e Gênero ofertada no modelo interinstitucional (PPGCOMs da UFMG e da UFPE) no semestre 1 de 2026 pelas professoras Ana Carolina Vimieiro e Soraya Januário.

