Posts de Páscoa: religião, política e LGBTfobia no futebol

Imagem de reprodução dos posts de Cruzeiro e Atlético sobre a Páscoa 2026.

Por Alana Milo Campos e João Augusto Porto*

A Páscoa de 2026, celebrada em 5 de abril, reacendeu debates sobre valores cristãos nas redes sociais dos clubes mineiros. O Cruzeiro destacou elementos religiosos da data em suas postagens, tanto na imagem quanto na legenda, com a presença de cruzes e imagens que mostram a cripta de Jesus Cristo, representando e ecoando tradições da fé cristã. Enquanto isto, o Atlético optou por sinalizar a data sem enfatizar nenhum valor religioso na imagem utilizada no post, mas sinalizando na legenda elementos cristãos, de uma forma mais neutra que o rival. Essas divergências representativas não somente chamaram atenção dos torcedores rivais, mas também expôs tensões mais profundas: a disputa entre narrativas de religião, política e LGBTfobia no futebol.  

Entretanto, antes de analisar os posts de Páscoa em si, é essencial contextualizar o cenário em que eles estão inseridos. É possível identificar elementos que revelam uma geração sistemática de públicos e opiniões sobre o tema, articulados em torno das disputas não só no futebol, mas em toda a sociedade brasileira. Isso reflete a polarização política atual, em que cada lado se utiliza de diferentes interpretações sobre os mesmos temas para fundamentar seus próprios valores e ideais.

Podemos, também, adotar uma abordagem relacional, ao buscar compreensão das interações entre os indivíduos envolvidos nas postagens. Por este prisma, podemos pensar sobre os significados presentes em cada ação inserida nesse cenário, das ideias originais do post aos comentários. Eles mostram, de forma simples, que, além da interação entre os indivíduos, existe também uma interação entre ideologias, ações individuais e coletivas, que acabam por criar e reforçar as reações observadas das torcidas.

Dessa forma, esse texto propõe uma análise sobre como os clubes mineiros representam a Páscoa, tensionando debates sobre a simbologia de datas comemorativas para as torcidas e as reações reproduzidas por elas. A disputa vai além das imagens religiosas em clubes de massa, revela alinhamentos discursivos com questões de masculinidade hegemônica e LGBTfobia no futebol. Ao longo do texto, observaremos como os eventos pascais sinalizam essas tensões, com discursos cooptados não só por torcedores em defesa das cores dos seus clubes, mas por posicionamentos ideológicos nas redes sociais. Compararemos comentários nos posts do X (antigo Twitter) para uma análise de discurso, chegando a conclusões sobre as disputas no tecido social e o papel do futebol na construção de públicos engajados em arenas discursivas mais amplas. 

Contexto sócio-político do Brasil

Para entendermos a relação entre os posts de Páscoa e a LGBTfobia, precisamos dar enfoque para o cenário político vigente no Brasil. Nos últimos anos, tem aumentado a produção acadêmica e midiática afirmando que o Brasil se encontra num cenário de polarização política. Danilo Medeiros (2024) afirmou, em um texto desenvolvido para o Nexo Políticas Públicas, que 

[…] o aumento da radicalização da direita a partir do impeachment da Presidenta Dilma Roussef e das eleições de 2018 levou a um crescimento da polarização ideológica das massas. Enquanto os eleitores que se identificam com o PT ou votaram no partido nas eleições presidenciais seguem adotando posições relativamente moderadas, a direita deu uma guinada aos extremos do continuum ideológico. Pesquisas de opinião pública ainda destacam que 2018 marcou um aumento considerável dos eleitores que se identificam com um dos polos, sobretudo daqueles que se autoclassificam de direita. Além disso, a polarização é mais visível quando se leva em consideração a fatia dos eleitores politicamente engajados. (Medeiros, 2024)

Ainda considerando o cenário do aumento da identificação com a direita radical no país, Sampaio e Oliveira (2025) defendem que o crescimento da extrema direita e o fortalecimento do discurso de ódio contra as pessoas LGBTQIAPN+ estão conectados. Esse aspecto ideológico da extrema direita consistiria em aliar o conservadorismo a valores religiosos fundamentalistas, utilizando não só os espaços políticos e redes sociais, mas também, as igrejas, para a reprodução de discursos preconceituosos.

É possível dizer, então, que a polarização política com tendência à extrema direita, se apropriando de ideais religiosos deturpados, tem trazido os discursos de ódio contra as pessoas LGBTQIAPN+ não só como sustento ideológico, mas também como base fundadora. Luis Felipe Miguel (2021) aponta que o mito da ideologia de gênero – que é um dos principais argumentos LGBTfóbicos utilizados pela direita radical – “é, por um lado, um dos alimentos da radicalização da direita e, portanto, da polarização. […] Por isso, catalisa reações muito mais imediatas e violentas. Por outro lado, ele depende da polarização para se reproduzir” (p. 12). 

Considerando que o ano de 2026 é um ano de eleição, é natural pensar na tendência que ideais políticos e sociais sejam colocados em disputa de forma inflada. E, assim, que essa defesa de valores seja cada vez mais enunciada como uma manifestação política pública da própria moral.

Até aqui, foi estabelecida a relação entre a extrema direita, valores religiosos fundamentalistas e a LGBTfobia. Mas onde entra o futebol nesse contexto?

O futebol parece ser um campo que naturaliza alguns comportamentos e, até mesmo, acaba por os incentivar muitas vezes. Bandeira e Seffner (2013) desenvolvem como os estádios no Brasil se tornaram ambientes centrais para a concepção do que é a masculinidade e, além disso, para a criação dessa masculinidade nos indivíduos. A questão central é que essa masculinidade se fortalece em bases LGBTfóbicas, que são abertamente reforçadas nos estádios sem grandes represálias sociais.

Os torcedores de futebol que frequentam os estádios são produzidos ao longo de diferentes jogos e situações. Os cânticos repetidos, performances executadas, emoções explicitadas são didaticamente empregados, produzindo uma lógica de atitudes fundamental para o tipo específico de fruição dos espetáculos futebolísticos nos estádios. Dentre os mais variados conteúdos que se ensinam, aprendem e disputam nos estádios de futebol a masculinidade possui preponderância. É importante frisar que a masculinidade vivida nesse contexto cultural específico possui algumas características particulares: ela é machista e homofóbica. Em muitos momentos, essa homofobia é naturalizada e manifestações dessa ordem não são entendidas como violentas. (Bandeira; Seffner, 2013, p. 247-248)

A partir dessa leitura dos estádios e das próprias manifestações dos torcedores, é possível estabelecer paralelos entre o contexto político atual, religião e a LGBTfobia no futebol. Para fazer essa análise, foram selecionados os dois clubes mineiros que estão na série A do Campeonato Brasileiro Masculino – Cruzeiro e Atlético -, a fim de que seja possível ilustrar essa relação com exemplos práticos e palpáveis.

Dois dias antes da Páscoa, na Sexta-feira Santa – data cristã que, em 2026, foi no dia 03 de abril e que marca a crucificação de Jesus – já era possível perceber cobranças vindas de torcedores de ambos os times, diante da falta de publicações sobre a data. Algumas delas possuíam, inclusive, falas abertamente LGBTfóbicas.

Comentários no post do Atlético. Fonte: Reprodução X 

Essa demanda pelas publicações dos times na Sexta-feira Santa não é algo frequente ou regular. Não foram identificados no X (antigo Twitter) comentários de cobrança direta aos times sobre postagens na data em nenhum dos dois anos anteriores, 2025 e 2024, o que intensifica a hipótese de que, com a polarização política inclinando para a extrema-direita e com o contexto de 2026 ser um ano eleitoral, os debates e defesas públicas das posições políticas individuais tende a ser fortalecido e potencializado. Esse comportamento se expande para diversos campos sociais, um deles, o futebol, como observado na conduta analisada das torcidas. 

Posts de Páscoa dos clubes mineiros
Ao falarmos, agora, dos posts de Páscoa dos clubes mineiros da Série A do Campeonato Brasileiro Masculino, Atlético e Cruzeiro, vemos uma forte diferença que serve de base para nossa análise. Vamos analisar como a presença ou ausência de ícones religiosos nas artes desencadeou um debate sobre a validade dos valores cristãos em sua principal data comemorativa. Essa escolha está sendo usada como púlpito para discussões que vão além do futebol, alimentando embates entre religião e política.

Começando pelo Cruzeiro, que incorpora elementos cristãos relevantes: o Santo Sepulcro aberto, revelando cruzes no horizonte. Isso contextualiza a Páscoa e faz uma menção direta à iconografia cristã, mesmo sem a figura de Jesus. A legenda reforça a data com referências sacras, enfatizando o posicionamento do clube celeste. 

Já o Atlético opta por uma comunicação centrada na Arena MRV para se conectar com os torcedores. A legenda menciona a Páscoa e os valores cristãos de forma breve e moderada, priorizando a união. Como veremos adiante, os comentários focam prioritariamente na imagem publicada pelo clube, que se torna o principal ponto de diferenciação em relação ao rival Cruzeiro.

Assim, analisamos o viés da representação para compreender os discursos gerados. Podemos citar as contribuições de Laura Corrêa sobre como a representação oferece elementos para uma análise contextualizada e empírica. Como destacado em seus estudos, os discursos expressam vieses de grupos sociais para favorecer pontos de vista específicos. Nas palavras da autora: 

Cada indivíduo recebe/lê de uma maneira particular, mas essa leitura é feita de acordo com o contexto e os valores comuns, que fazem com que a interação aconteça dentro de enquadramentos preexistentes: “A estruturação das ações, a significação inscrita nas práticas, o valor das formas simbólicas estão dados numa pré-compreensão da ação humana e constituem a matéria-prima que vai edificar a construção (configuração) presente dos discursos.” (França; Corrêa, 2009, p.14). (Corrêa, 2010, p. 36)

Com isso em mente, compreendemos como o indivíduo interpreta os posts, relacionando-os a debates em voga, e como a disputa transcende o conteúdo das postagens. As interações revelam uma briga pela valorização da Páscoa, que valida discursos violentos contraditórios à data e alinha-se à extrema-direita brasileira. Os valores comuns são cooptados para uma disputa ideológica, não esportiva – típica da rivalidade mineira. Cada post é apropriado para sustentar agendas políticas: o Cruzeiro ganha apoio não só da torcida, mas de perfis ideológicos ligados à bancada cristã e conservadora. A conversa deriva para tons agressivos, potencializando reações políticas e LGBTfóbicas nos comentários.

Reações aos posts de Páscoa dos clubes mineiros

Como já afirmado, apesar de tanto o Atlético quanto o Cruzeiro terem feito postagens referenciando a Páscoa, as reações da torcida frente às publicações foram muito distintas. No post do Cruzeiro – que tinha a representação religiosa mais presente – os comentários eram, em sua grande maioria, parabenizando o clube pela postagem e afirmando que ela “representa os cristãos” e que “traz o verdadeiro significado da Páscoa”, exaltando a ação do clube e o viés religioso da postagem.

Comentários no post do Cruzeiro. Fonte: Reprodução X 

Já na publicação do Atlético – que não utilizou nenhuma representação religiosa direta no post -, o cenário é bem diferente. Além das críticas ao teor da postagem e ao conteúdo em si, foi possível, novamente, encontrar diversos comentários abertamente LGBTfóbicos.

Comentários no post do Atlético. Fonte: Reprodução X 

Além disso, foi possível também encontrar comentários feitos por torcedores enfatizando a relação entre os vieses religiosos e políticos das postagens. Eles apontavam que a cobrança da torcida para a representação cristã direta teria influência dessas duas frentes e, até mesmo, questionavam o fato de os comentários serem ou não orgânicos.

Comentários no post do Atlético. Fonte: Reprodução X 

É importante também ressaltar que a diferença de engajamento entre os posts dos dois clubes é muito significativa. Mesmo que ambos tenham números semelhantes de seguidores no X (Cruzeiro com 2.226.732 e Atlético com 2.187.045, até o dia 16 de abril de 2026 – data final de observação). O Cruzeiro conta, em comparação com o post do Galo, com 237% o número de comentários, 885% o número de compartilhamentos, 1127% o número de curtidas e 872% o número de compartilhamentos.

Fonte: Reprodução X

As distinções gritantes, tanto no teor dos comentários, quanto no engajamento das postagens, demonstram que o fenômeno observado nos posts de Páscoa não pode ser avaliado puramente como um comportamento individual de torcedores. Ela deve ser analisada como uma ação coletiva, que não está apartada de um contexto político-social e que é, inclusive, impulsionada por ele. 

Considerações finais

O futebol seria assim um espaço onde a sociedade simbolicamente se expressa, manifesta-se, deixando descobrir-se. “O futebol praticado, vivido, discutido e teorizado no Brasil seria um modo específico, entre tantos outros, pelo qual a sociedade brasileira fala, apresenta-se, revela-se, deixando-se, portanto descobrir” (Da Matta, 1982, p. 21). 

Com base em Da Matta, o futebol transcende disputas esportivas, tornando-se arena de conflitos simbólicos. Na Páscoa de 2026, ele se configurou como palco de debates politizados sobre religião, evidenciando a agressividade rotineira do esporte, com o atravessamento de vieses ideológicos. O que está em jogo é uma coerção coletiva, inseparável do contexto político-social que a impulsiona. Não há fronteira entre futebol e sociedade: ambos se influenciam mutuamente, disputados por visões antagônicas, marca da polarização política brasileira. Vemos a cooptação do discurso cristão por uma bancada conservadora, que vai além do fundamentalismo religioso e contradiz valores do próprio credo. A Páscoa foi apenas mais um capítulo nessa guerra simbólica, e as reações das torcidas, um exemplo de como é possível criar cenários de embate ideológico, potencializando disputas em campos cada vez mais diversos.

REFERÊNCIAS

BANDEIRA, Gustavo Andrada; SEFFNER, Fernando. Futebol, gênero, masculinidade e homofobia: um jogo dentro do jogo. Espaço Plural, v. 14, n. 29, p. 246-270, 2013.

CORRÊA, Laura Guimarães (2010). Mães cuidam, pais brincam: normas, valores e papéis na publicidade de homenagem. Belo Horizonte.

DA MATTA, Roberto et. al. O universo do Futebol: esporte e sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1982. 

MEDEIROS, Danilo. A Polarização política, em 9 pontos. Nexo Políticas Públicas, 2024. Disponível em: https://pp.nexojornal.com.br/perguntas-que-a-ciencia-ja-respondeu/2024/11/19/a-polarizacao-politica-em-9-pontos. Acesso em: 16 de abril de 2026.

MIGUEL, Luis Felipe. O mito da “ideologia de gênero” no discurso da extrema direita brasileira. Cadernos Pagu, n. 62, 2021. Disponível em: https://doi.org/10.1590/18094449202100620016

PODER360. 7 dos 20 times da Série A citam Jesus em posts de Páscoa. Disponível em: poder360.com.br/poder-sportsmkt/7-dos-20-times-da-serie-a-citam-jesus-em-posts-de-pascoa/>. Acesso em: 24 abr. 2026.

SAMPAIO, Eliana Gondim; OLIVEIRA, Tibério Lima. O crescimento da extrema direita no Brasil e o fortalecimento do discurso de ódio contra as pessoas LGBTQIA+. Contribuciones a las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v. 18, n. 6, p. 1-19, jan. 2025. Disponível em: https://doi.org/10.55905/revconv.18n.6-063

* Alana e João são mestrandos em Comunicação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Esta resenha foi produzida como atividade da disciplina Comunicação, Esporte e Gênero ofertada no modelo interinstitucional (PPGCOMs da UFMG e da UFPE) no semestre 1 de 2026 pelas professoras Ana Carolina Vimieiro e Soraya Januário.

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