As reverberações do título de Roland Garros de Alexander Zverev

Tenista Alexander Zverev segurando o trofeu de Roland Garros 2026. Imagem publicada no site de Roland Garros

Por Rafaela Souza (@rafarelasouza) e Ana Carolina Vimieiro (@carolvimieiro13)

Em junho de 2026, o tenista alemão Alexander Zverev, atual número 3 do ranking da ATP, conquistou seu primeiro título de Grand Slam ao vencer o italiano Flavio Cobolli na final masculina de simples de Roland Garros. Em quadra, vimos um tenista muito emocionado, e a transmissão do jogo feita pela ESPN Brasil ajudou o telespectador a relembrar o histórico do atleta: Zverev já havia se lesionado gravemente em uma semifinal no mesmo torneio francês, em 2022; ele também convive com diabetes tipo 1; e já perdeu três finais de Majors, uma inclusive em Roland Garros 2024 para o espanhol Carlos Alcaraz. Durante toda a transmissão e no pós-jogo, identificamos uma narrativa de superação de diferentes adversidades até a conquista do título, algo comum no jornalismo esportivo.

No entanto, quando recuperamos a história de Zverev, há outro elemento importante: o tenista foi acusado de violência doméstica por duas ex-namoradas, uma delas sendo a mãe de sua filha. Desde a transmissão até o tradicional programa Pelas Quadras da ESPN, chamou a nossa atenção como o fato não foi mencionado. Assim como no momento do título, vimos a celebração da vitória de um tenista merecedor, com nenhuma menção ao histórico fora das quadras.

Diante desse silêncio em relação ao caso, analisamos as reverberações do triunfo de Zverev, buscando entender quais discursos emergiram nas mídias sociais, especialmente no Instagram e no jornalismo esportivo após a conquista do tenista. Além disso, recuperamos reportagens da época das acusações para compreender as tramitações legais do caso. Introduzimos aqui uma prévia dessa análise que será apresentada em setembro no GP Comunicação e Esporte do 48º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação (Intercom).

A partir de uma análise qualitativa, identificamos que Zverev foi celebrado a partir de diferentes discursos, desde seu diagnóstico de diabetes tipo 1, passando pela superação de lesões e problemas de saúde mental, até uma representação muito ligada à família, com fotos e vídeos com o cachorro, a atual namorada e o pai. Por outro lado, algumas iniciativas como a do jornal francês L’Équipe que não deu o destaque da primeira página para o campeão de Roland Garros — algo que não acontecia há 20 anos —, ajudaram a recuperar o episódio, ainda que sem muitas informações do processo, com grande foco para as falas de inocência de Zverev.

As acusações de Sharypova e Patea

Antes de passarmos para a análise em si, recuperamos brevemente as duas acusações contra Zverev a partir de reportagens publicadas na época em que os casos foram divulgados.

Em 2020, a ex-tenista russa Olga Sharypova acusou Zverev de agressão física durante o período em que os dois tiveram um relacionamento, entre 2018 e 2019. Segundo Olga, Zverev tentou estrangulá-la com um travesseiro e bateu sua cabeça contra a parede em um quarto de hotel pouco antes da edição de 2019 do US Open. As declarações foram concedidas ao jornalista Ben Rothberg e publicada no portal Racquet Magazine com detalhes, prints de conversas no WhatsApp e fotos de lesões causadas por vários episódios de agressão — a entrevista não está mais disponível no site, mas ainda é possível acessar uma versão pelo Internet Archive. Na época, a ATP realizou uma investigação de 15 meses sobre o caso, mas optou por não punir o atleta por falta de evidências ou testemunhos concretos. Nenhum relatório sobre as conclusões do caso foi publicado e Rothenberg está sendo processado por Zverev.

Três anos depois, já em 2023, Zverev foi novamente acusado de agressão, dessa vez por outra ex-namorada e mãe da filha do tenista, Brenda Patea. Na época, o tribunal de Berlim emitiu uma ordem de sanção contra o atleta por agredir Patea fisicamente em 2020. Patea disse em uma entrevista ao jornal alemão Süddeutsche Zeitung que demorou mais de um ano para fazer a denúncia por vergonha, preocupação com a filha e medo dos advogados do atleta. Seguindo os trâmites da legislação alemã, esse tipo de ordem penal é utilizada como forma de resolver alguns casos criminais sem a necessidade de julgamento, quando há provas convincentes que sustentem a acusação e caso o suspeito não conteste o desfecho do caso.

Assim como no caso de Olga, Zverev negou as acusações e contestou as alegações, o que levou o caso a um julgamento durante o torneio de Roland Garros 2024. No entanto, o julgamento foi encerrado após um acordo entre Zverev, Patea e o Ministério Público, que incluiu uma indenização no valor de 200 mil euros, sendo que 150 mil foram destinados para o estado alemão e outros 50 mil para um fundo de caridade. Segundo o tribunal, “a decisão não é um veredicto e não se trata de uma decisão sobre culpa ou inocência”. Além disso, os advogados de Patea disseram que a decisão foi motivada pelo seu desejo de encerrar o caso, especialmente pela preocupação com a filha.

Dalton (2024), ao analisar a cobertura da mídia britânica sobre o caso, aponta uma proteção do agressor a partir do que ela chama de empatia excessiva e de um status de “estrela do esporte”. Zverev é o foco das reportagens, especialmente suas negações e reações irritadas ao ser confrontado sobre o caso, ao mesmo tempo em que o relato das vítimas é visto como mera “alegação”: “As principais reportagens sobre essas acusações geralmente se referiram a Zverev como uma ‘estrela do tênis’ (em vez do neutro ‘jogador de tênis’) e se concentraram em suas negativas em vez dos depoimentos das mulheres.” (Dalton, 2024, p. 266, tradução nossa).

A autora também aponta que a falta de sanções pela própria ATP e a eleição de Zverev para o Conselho Consultivo de Jogadores ainda durante o processo judicial demonstram certa proteção ao atleta, além do tratamento do caso como individual — algo que também já foi identificado por pesquisas sobre a cobertura de casos de violência de gênero envolvendo atletas brasileiros (Almeida et al., 2026; Passos; Vimieiro, 2023) e na liga australiana de futebol (Toffoletti, 2007).

Análise das reverberações do título de Roland Garros 2026

Para compreender os sentidos em circulação a partir do título conquistado por Zverev, analisamos a transmissão da final de Roland Garros 2026 e o programa Pelas Quadras, ambos exibidos pela ESPN, detentora dos direitos de transmissão do torneio, além de postagens em páginas do Instagram e portais de notícias. De modo geral, identificamos a predominância das seguintes representações: o histórico como atleta com diabetes, a conquista após várias derrotas em finais de Grand Slam, e uma postura muito ligada à família, especialmente com fotos e vídeos com o cachorro.

Em primeiro lugar, destacamos um discurso muito presente especialmente no Instagram sobre o diagnóstico de diabetes tipo 1 de Zverev. Aqui, encontramos vários vídeos do atleta aplicando insulina em quadra, inclusive no próprio torneio francês, para ilustrar uma narrativa de superação da doença descoberta quando ele tinha 13 anos. Muitas dessas postagens foram publicadas por perfis focados em saúde, com frases como “Diabetes tipo 1 não é uma barreira” e “Zverev dá lição ao mundo sobre diabetes tipo 1”.

Exemplos de posts e notícias sobre o diagnóstico de diabetes de Zverev

Outro discurso muito presente tanto no jornalismo quanto no Instagram diz respeito à superação de Zverev por finalmente conquistar um torneio de Grand Slam. Na transmissão da ESPN, após o título, a comentarista Teliana Pereira e o comentarista Sylvio Bastos disseram que estavam muito emocionados com a vitória e lembraram o histórico de lesão, problemas de saúde mental e como Zverev bateu na trave diversas vezes: “Eu tô super emocionada, merecido por todos esses anos, por todo o trabalho, pela espera, ele estava na fila há muito tempo, chegou muito perto”. Aqui, palavras como “superação” e “merecimento” junto com imagens e com a memória de outras finais de Grand Slam e da lesão em 2022 foram frequentemente utilizadas para falar da conquista do atleta.

Exemplos de posts e notícias sobre a superação da lesão e derrotas em Grand Slams

Também encontramos muitas postagens com foco na relação de Zverev com o cachorro e a família, especialmente o pai e treinador do atleta que estava presente na Court Philippe-Chatrier. Ainda que seja muito comum que atletas comemorem títulos com seus familiares e pessoas próximas, esse tipo de postagem chama a atenção, já que em 2021, na esteira da repercussão do caso de Sharypova, Zverev também procurou se desvencilhar das acusações focando na expectativa de ser pai: “Os últimos dias foram desafiadores para mim. Eu serei pai aos 23 anos. Estou muito ansioso por essa criança. Ainda que eu e a Brenda não estejamos mais juntos, temos uma boa relação, e eu vou assumir minhas responsabilidades como pai”

Pouco depois, Brenda Patea disse em uma entrevista que Zverev mentia sobre o seu envolvimento durante a gravidez e que ela não tinha nenhum tipo de contato com o atleta. Tal estratégia de humanização a partir de laços familiares como escudo para acusações de violência também foi identificada por Petrucci (2019) em uma análise da cobertura do UOL sobre o caso do ex-goleiro Bruno, condenado pela morte de Eliza Samudio.

Vale destacar que a filha não aparece nessas postagens, ainda que inicialmente ela tenha sido usada como “escudo” para as primeiras acusações.

Exemplos de posts de Zverev com a família

Por fim, ainda que com menor frequência, também encontramos algumas narrativas que retomaram o histórico de acusações de violência do atleta. Como apontamos, o jornal francês L’Équipe não deu o destaque da primeira página para o campeão de Roland Garros — algo que não acontecia há 20 anos. No dia seguinte ao título, Zverev abandonou uma entrevista quando um jornalista do mesmo veículo o questionou sobre as acusações de Sharypova e Patea. Esse episódio também teve ampla repercussão, inclusive em veículos e páginas que inicialmente não haviam mencionado o caso. 

Em muitas dessas reportagens e também nas mídias sociais, chama a atenção como a fala do atleta de que sua inocência foi comprovada continua sendo replicada sem qualquer contextualização sobre o julgamento e acordo firmados — que, como apontamos, não indicam culpa ou inocência.

Almeida e colegas (2026), ao analisarem a repercussão do caso Robinho, mostram uma presença determinante dos detalhes do processo e do depoimento da vítima nas narrativas midiáticas. Aqui, a maioria das notícias e das postagens analisadas não trazem essas informações e focam na irritação de Zverev com a pergunta, o que acaba corroborando com a invisibilidade do caso e com as outras representações de merecimento e redenção. Uma das poucas exceções que encontramos foi o jornal francês Libération, que traz as falas de Sharypova e Patea na época das acusações.

Exemplos de posts e notícias sobre os casos de violência

De acordo com o L’Équipe, o questionamento na entrevista pós-título vem de certa indignação pública sobre o assunto. No X (antigo Twitter), por exemplo, identificamos, desde a eliminação de Jannik Sinner do torneio, principal candidato ao título, postagens relembrando as acusações de Patea e Sharypova utilizando estratégias diversas, desde a recuperação da entrevista em que Sharypova detalha as agressões à frases como “Anyone but” e vídeos com cenas de Zverev golpeando a cadeira de um juiz com uma raquete. No post da página oficial de Roland Garros no X sobre o título, usuários utilizaram o recurso de Nota de Comunidade para dar visibilidade ao histórico de acusações, além de comentários relembrando o caso.

No Instagram, mídia social que nos debruçamos mais atentamente para esta análise, encontramos poucas postagens sobre o caso antes da final — uma das poucas exceções foi o vídeo publicado pela jornalista Anita Efraim alguns dias antes do título, inclusive destacando a falta de postagens sobre o assunto. De todo modo, ainda que sem a contextualização necessária, o caso acabou sendo relembrado especialmente após a entrevista do L’Équipe.

Considerações finais

A partir da análise, nos parece que, apesar da ampla maioria das postagens e notícias terem ignorado inicialmente o caso e/ou representado Zverev a partir de outros aspectos, também houve certa mobilização para que o caso não seja esquecido, especialmente a partir da entrevista do L’Équipe. A exemplo do que foi feito na final do Australian Open 2024 quando uma mulher na arquibancada gritou: “Australia believes Olya and Brenda!” antes do discurso de Zverev após a derrota para Jannik Sinner, essas iniciativas — de jornalistas e de pessoas que acompanham tênis como fãs do esporte e/ou criadoras de conteúdo — contribuem para que a história do atleta seja contada considerando todos os aspectos envolvidos.

Embora algumas pessoas acreditem que é possível ou necessário separar o atleta do que acontece fora das quadras — como o ex-tenista Andy Roddick que saiu em defesa de Zverev —, e vários atletas, instituições e a própria ATP tenham ignorado o caso, entendemos que essa desvinculação não é tão simples. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), 316 milhões de mulheres foram vítimas de violência física ou sexual praticada pelo parceiro em um intervalo de 12 meses, o que demonstra a urgência do tema e a necessidade de que casos como esse sejam tratados com seriedade.

Ainda que Zverev não tenha sido condenado, é preciso recuperar o histórico do caso para não repetir suas alegações de inocência sem contextualização, especialmente porque não foi comprovado pela justiça alemã que as alegações eram falsas no caso Patea. A narrativa simplificada do caso em conjunto com as representações de superação e merecimento, em alguma medida, ajudam a redimir a figura do atleta e silenciar as declarações das vítimas, além do próprio histórico agressivo com árbitros.

Essa redenção ilustra como acusações e até mesmo condenações de violência de gênero não têm maiores impactos na carreira de atletas homens em diferentes esportes, a exemplo do goleiro Jean, ex-São Paulo. No caso de Zverev, ele não tem tanto ganho com patrocínio em relação a outros tenistas e não aparece na lista da Forbes entre os/as 10 tenistas mais bem pagos, o que parece indicar certo preterimento das marcas para se associar à sua imagem — ainda que ele tenha um patrocínio da Adidas, que inicialmente seria encerrado na época das acusações, mas que segue em vigor e sua vitória foi celebrada pela marca.

Em maio, Zverev chegou a reclamar do Tennis Channel por gravar vídeos com ele e depois não publicar nas redes sociais — a plataforma de streaming costuma postar vídeos divertidos com atletas da WTA e ATP durante os torneios. O comentário foi apagado posteriormente, mas na postagem ainda é possível ver várias outras respostas de pessoas concordando com a reclamação do tenista.

Print do comentário de Zverev em um post do Tennis Channel: https://www.instagram.com/reels/DYS6mlzBHaK/

De todo modo, ainda que não seja possível concluir que há uma rejeição à figura dele por algumas marcas, todas essas questões nos ajudam a pensar em como, financeiramente, não houve nenhum tipo de prejuízo à carreira de Zverev. Ele continua participando dos torneios, tendo alguns patrocínios e sendo celebrado a partir de diferentes imaginários.

Para além disso, como destaca Simões (2014) ao refletir sobre o papel do ídolo a partir do conceito de celebridades, essas figuras públicas afetam “a vida dos sujeitos que a celebram e suscita, portanto, reconhecimentos, projeções, identificações e também contraidentificações” (p. 46-47). Assim, a identificação ou rejeição à figura de Zverev a partir de tais representações também revelam valores e sentidos em disputa a respeito do tema da violência de gênero não só no esporte, mas em todas as esferas.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, J. B.; VIMIEIRO, A. C.; GARCÊZ, R. L. O. Da culpabilização das vítimas e vitimização de agressores ao protagonismo das mulheres jornalistas: análise da cobertura noticiosa dos casos de violência sexual envolvendo Cuca e Robinho. In: VIMIEIRO, A. C.; PILAR, O. (org.). Mídia, esporte e gênero. 1. ed. [S. l.]: Ludopédio, 2026. v. 10. p. 361-413. 

DALTON, E. Book Review: Tranchese, Alessia. (2023). From Fritzl to #metoo: Twelve Years of Rape Coverage in the British Press. Palgrave Macmillan. Revista de Lenguas para Fines Específicos, Las Palmas de Gran Canaria, v. 30, p. 259-267, 2024. Disponível em: http://dx.doi.org/10.20420/rlfe/2024.708. Acesso em: 9 jun. 2026.

PASSOS, F. M.; VIMIEIRO, A. C. Violência doméstica contra lutadoras: Uma análise das discussões públicas do caso Mackenzie Dern. Diversidade e Educação, v. 11, n. 2, p. 380–411, 2023. DOI: 10.14295/de.v11i2.16138. Disponível em: https://periodicos.furg.br/divedu/article/view/16138 . Acesso em: 9 jun. 2026..

PETRUCCI, G. “Vou só com passagem de ida”: enquadramento e aspectos políticos da violência contra mulher na cobertura do caso Eliza Samúdio no Portal UOL. Dissertação (Mestrado em Comunicação). Universidade Federal do Paraná. Curitiba, 2019.

SIMÕES, P. G. Celebridade e contexto contemporâneo. GALÁXIA. (São Paulo, Online), n. 28, p. 45-57, dez. 2014.

TOFFOLETTI, K. How is gender-based violence covered in the sporting news? An account of the Australian Football League sex scandal. Women’s Studies International Forum, p. 427-438. 2007. 

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