Resenha: ‘‘Linha de passe”e o futebol como ferramenta de ascensão para meninos periféricos

Por Amanda Nascimento, Brisa Santos e Izabela Baeta


Ficha técnica

Título: Linha de Passe
Ano de produção: 2008
Direção: Walter Salles e Daniela Thomas
Roteiro: George Moura e Daniela Thomas
Duração: 108 minutos
Classificação: 16 anos
Gênero: Drama
Países de Origem: Brasil
Onde assistir: YouTube


“Linha de Passe” (2008), dirigido por Walter Salles e Daniela Thomas, é um filme
que mergulha nas vidas de uma família de cinco pessoas: os quatro irmãos Dario (Vinicius de Oliveira), Reginaldo (Kaique de Jesus Santos), Dinho (José Geraldo Rodrigues) e Denis
(João Baldasserini), e a mãe Cleuza (Sandra Corveloni). A obra explora com sensibilidade as
complexidades da vida familiar e a luta por condições de vida melhores na cidade grande.

O longa-metragem retrata a vida de cada um dos personagens e desdobra-se em torno
dos desafios enfrentados por cada um deles. Reginaldo, o caçula, sonha em conhecer o seu pai e vive numa jornada em busca de sua identidade. Dinho dedica-se à religião, em que encontrou abrigo para se afastar do mundo do crime. Denis passa por instabilidades no emprego e luta para sustentar a si próprio e o filho que não quer assumir. Dario, o filho mais velho, aspira a uma carreira no futebol, mas, aos 18 anos, as oportunidades são quase
escassas. Os quatro foram criados por Cleuza, que trabalha como empregada doméstica e está grávida de seu quinto filho.

O filme dirigido por Walter Salles e Daniella Thomas aborda a realidade das classes
menos privilegiadas em São Paulo e traz a perspectiva do futebol como profissão e elemento de esperança para uma família de classe baixa. Dentro desse cenário, o futebol é retratado como uma oportunidade dos jovens da comunidade escaparem da pobreza, entretanto, é claramente retratado com uma linha tênue entre o sonho e a árdua realidade.

O personagem Dario é figura principal na temática que retrata jovens talentosos que
ambicionam seu espaço como jogadores de futebol numa sociedade de desigualdades. Na
trama, a crítica é incisiva, dando luz às complexidades, incertezas e desafios da carreira no
ambiente social na qual é ambientada.

O futebol como um elemento de ascensão social

Linha de Passe (2008)

No filme, o personagem Dario, aos 18 anos, vê seu tempo acabar após várias tentativas
em busca do sonho de se tornar jogador de futebol, que para ele é a única oportunidade de fazer um caminho diferente dos irmãos e garantir uma qualidade de vida melhor para a
família.

Contudo, ao perder a sua última oportunidade na peneira, ele se depara com um dos
elementos mais cruéis do esporte: o tempo. O “tempo” para se tornar jogador de futebol é
curto e cruel. O sonho de milhares de meninos e meninas tem quase um prazo de validade. À procura por um time de categorias de base ou uma escolinha especializada é uma corrida durante a infância e começo da adolescência. Depois que o relógio “apita” é difícil se sobressair.

A frustração de Dario se dá não somente por conta do sonho interrompido, mas pelo
choque de realidade ao perceber que a sua vida vai ter que traçar um caminho semelhante ao da sua mãe e do seu irmão Dinho, que não possuem uma renda alta e muitas vezes passam dificuldade por não terem dinheiro o suficiente para manter as coisas básicas da casa.

Isso demonstra uma das várias facetas do esporte que envolve muitas crianças que vivem
nas periferias brasileiras. Ao enxergarem a realidade em que estão envoltas e a forma que
esse cenário perdura no seu campo familiar de geração em geração faz emergir uma
necessidade de se deslocar daquilo e avançar nas camadas sociais buscando uma melhor
qualidade de vida através do futebol.

Com isso, o desejo e a forma com que Dario lida com a possibilidade de se tornar jogador
de futebol retrata uma realidade do esporte na periferia, que é tido como fuga e vislumbre de uma vida melhor e mais digna. Mas a que preço? No filme, a representação traz essa
dualidade. Por mais que o esporte seja uma ferramenta de ascensão e impacte socialmente a vida de Dario, que se dedica aos treinos e peneiras, impõe que ele sacrifique vontades em busca de um sonho, até então, distante. O time do “terrão” é levado como uma porta de entrada para um mundo de riqueza, status e fama.

Nesse sentido, o futebol é o meio que apresenta essa possibilidade de ascensão de
uma forma mais palpável, tanto por conta do seu caráter cultural, que faz com que este esteja presente no cotidiano de muitos jovens desde a infância, quanto pelo seu agregado de “cases de sucesso”, em que jogadores, como Vini Júnior, Richarlison, Gabriel Jesus e outros, são exemplos de meninos que vieram de favelas brasileiras e alcançaram um alto padrão de vida por meio do futebol.

Futebol, Mundo do Crime e a Desigualdade social

Linha de Passe (2008)

Essa corrida por uma vida com mais qualidade não está situada somente no campo do
esporte. Assim como o futebol demonstra essa escalada social de uma forma mais tátil, o
mundo do crime também congrega acessos mais facilitados a experiências, lugares e até
mesmo objetos que normalmente não fazem parte da realidade desses meninos.

No filme, temos o caso do Denis, irmão de Dario, que ao não conseguir manter uma
vida estável com o emprego que possui, se envolve em situações criminosas que, na sua
concepção, é a forma mais fácil de conseguir resolver os seus problemas com dinheiro.
Apesar de não ter uma relação direta com o futebol, essa situação demonstra o que uma
cadeia de frustrações e uma vida sem perspectivas pode desencadear.

De forma semelhante, o esporte também pode trazer frustrações que impactam no
decorrer da trajetória de crianças e adolescentes e influenciam no seu autoconhecimento. O esporte e a atividade física não apenas fortalecem o corpo, mas também podem influenciar positivamente aspectos sociais, cognitivos e emocionais da vida.

Além de Dario, o longa deixa claro que o futebol de várzea é relevante e presente na
vida cotidiana das camadas mais populares da sociedade. Com times formados por classes marginalizadas, as quatro linhas se expandem e escancaram a desigualdade do país que respira futebol. Enquanto Dario sonha com uma chance, o amigo, filho da patroa da mãe, tem chuteiras e tênis da melhor qualidade, sem sequer se importar com o futebol ou precisar dele para ter oportunidade de mudar de vida.

O Brasil não é um país que investe em assistência, assim como demonstrado no filme, os garotos correm atrás do sonho por si só e ficam reféns de mandatários que dominam campeonatos e equipes amadoras.

Papéis sociais de gênero

Linha de Passe (2008)

No filme, podemos perceber também como que os papéis sociais de gênero podem ser
identificados através da trajetória de alguns personagens e como que isso afeta o modo como eles interagem com as problemáticas e o cenário da trama.

Os papéis sociais de gênero são compreendidos enquanto comportamentos e modos de pensar que socialmente são associados a homens ou mulheres como sendo os ideais a serem seguidos para definir o que é feminino, e deve ser adotado por mulheres, e o que é masculino, e deve ser adotado por homens.

No filme existe a presença desses papéis sociais exibidos tanto da forma como é
essencialmente colocada no cenário social, como de modo contrário a essas definições. Socialmente, o homem é posto no lugar de provedor do lar, aquele que é responsável por
trazer o sustento, provido pelo trabalho.

Com isso, podemos notar na trajetória de Dario uma necessidade de ascender no futebol mais por uma questão de renda do que do sonho no esporte em si, especialmente porque na sua casa a principal responsável pela renda é a sua mãe.

Na personagem de Cleuza também é possível notar como que os papéis sociais são impostos de uma forma evidente. Ela transita pela pressão e a necessidade de exercer o seu papel como mãe e mulher, responsável pelas tarefas domésticas e o cuidado com os filhos, ao passo que também deve ocupar o lugar masculino do pai, por ser uma mãe solo responsável pelo sustento do lar. Além disso, ela é uma mulher apaixonada por futebol, que transmitiu essa paixão para os filhos, especialmente Dario.

Cleuza apresenta, ainda, outra forte influência dos papéis de gênero definidos
socialmente ao se deparar com a demissão no seu trabalho por estar grávida, mesmo com
anos trabalhando na mesma casa. Apesar dela ser o elemento provedor do lar, a sua patroa
ainda não a enxerga unicamente dessa forma e opta pelo afastamento considerando a chegada do novo filho, além de nunca ter se proposto a assinar a sua carteira de trabalho.

No caso de homens, dificilmente iremos vê-los sendo dispensados do trabalho devido a um filho, especialmente porque eles são vistos como os provedores da casa que não possuem responsabilidade direta sobre os cuidados com a criança.

Com isso, o longa demonstra não somente como que esses papéis são inseridos
socialmente, mas também a forma que eles podem transitar entre os gêneros e exercer
influência sobre a vivência das pessoas. Especialmente quando estas são periféricas e além desses papéis sociais, devem lidar com as diversas questões de desigualdade que assolam suas realidades.

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