Por Gabriela Sena*
FICHA TÉCNICA
Título: A Dona da Bola (Running Point)
Ano de lançamento: 2025
Criadores: Ike Barinholtz, Mindy Kaling, Elaine Ko, David Stassen.
Classificação: 16 anos
Gênero: Drama esportivo
País de origem: EUA
Disponível em: Netflix
A série A Dona da Bola se insere em um conjunto de produções audiovisuais contemporâneas que não apenas narram histórias, mas operam como dispositivos críticos capazes de problematizar estruturas sociais. Ao articular elementos de drama, humor e crítica institucional, a série constrói uma narrativa que tensiona simultaneamente dimensões de gênero, poder, negócios e pertencimento, especialmente no contexto do basquete profissional.
Inspirada na trajetória de Jeanie Buss, presidente do Los Angeles Lakers — uma das franquias mais valiosas da NBA —, a série apresenta Isla Gordon como uma figura ficcional que condensa experiências reais de mulheres que ocupam posições de liderança em ambientes historicamente masculinizados. Conforme descrições amplamente divulgadas por plataformas como AdoroCinema, a narrativa acompanha uma mulher que passou a vida sendo subestimada e ignorada e que, ao assumir inesperadamente a presidência de um time de basquete, enfrenta resistências tanto no âmbito familiar quanto no institucional.
Mais do que uma história de ascensão individual, a série explicita — ainda que por vezes de maneira ambígua — que o problema não é apenas a presença de uma mulher no esporte, mas o próprio fato de que o esporte, historicamente, nunca foi concebido como um espaço legítimo para mulheres. Nesse sentido, a narrativa tensiona uma lógica estrutural na qual o “lugar da mulher” no esporte — e, por extensão, na sociedade — é constantemente negado, deslocado ou condicionado.
Essa questão dialoga diretamente com a formulação clássica de Simone de Beauvoir, ao afirmar que “não se nasce mulher: torna-se” (BEAUVOIR, 2009, p. 361). A trajetória de Isla evidencia que sua posição não é natural, mas construída socialmente, sendo atravessada por expectativas que definem o que é considerado adequado para mulheres.
“Nenhum destino biológico, psíquico ou econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto […] que qualificam de feminino” (BEAUVOIR, 2009, p. 361).
Essa formulação é fundamental para compreender que os obstáculos enfrentados por Isla não dizem respeito à sua competência, mas à forma como a sociedade organiza e hierarquiza os papéis de gênero. Ao assumir a presidência do time, ela não apenas ocupa um cargo, mas desafia uma estrutura simbólica que associa liderança ao masculino.
Nesse contexto, a noção de performatividade de gênero, desenvolvida por Judith Butler, oferece um importante aporte analítico. Para Butler, “o gênero é uma repetição estilizada de atos” (BUTLER, 2018, p. 56), o que implica compreender as identidades de gênero como processos em constante construção.
A atuação de Isla como líder pode ser interpretada como uma performance que simultaneamente reproduz e subverte normas sociais. Ao exercer autoridade, ela mobiliza práticas associadas à liderança, mas o faz a partir de um corpo que não corresponde ao padrão masculino hegemônico, evidenciando a contingência dessas normas.
Como afirma Butler, “O gênero não deve ser entendido como uma identidade estável […], mas uma identidade tenuemente constituída no tempo, instituída através de uma repetição estilizada de atos” (2018, p. 55).
Essa perspectiva permite compreender o duplo vínculo que atravessa a trajetória da protagonista. Isla precisa constantemente equilibrar firmeza e sensibilidade, evitando ser percebida como inadequada em qualquer uma dessas dimensões. Trata-se de uma negociação permanente, que revela a rigidez das expectativas de gênero.
Isla Gordon em reunião com a diretoria do Los Angeles Waves

Fonte: Reprodução Netflix / A Dona da Bola
A imagem acima ilustra a posição ocupada pela protagonista. Inserida em um ambiente majoritariamente masculino, Isla é constantemente marcada como exceção, o que reforça a ideia de que mulheres em posições de liderança no esporte ainda são percebidas como deslocadas.
Essa dinâmica pode ser analisada à luz do conceito de masculinidade hegemônica, desenvolvido por Raewyn Connell, definido como “a configuração de prática de gênero que incorpora a resposta atualmente aceita ao problema da legitimidade do patriarcado” (CONNELL, 2005, p. 77).
No universo da série, essa masculinidade se manifesta nas resistências enfrentadas por Isla, que vão desde a desconfiança até tentativas explícitas de deslegitimação. Sua presença ameaça uma ordem estabelecida, baseada na associação entre poder e masculinidade.
No entanto, como aponta Connell: “A masculinidade hegemônica não é fixa, mas pode ser contestada e transformada” (CONNELL, 2005, p. 76).
A série explora essa possibilidade ao apresentar personagens masculinos que, ao longo da narrativa, reavaliam suas posições, indicando que as relações de gênero estão em constante disputa.
Outro aspecto central da análise diz respeito ao corpo. No contexto do basquete profissional, o corpo masculino é frequentemente associado à performance e à competência, enquanto o corpo feminino permanece sob vigilância. Isla é constantemente avaliada não apenas por suas decisões, mas por sua aparência, comportamento e forma de se expressar.
Isla Gordon em quadra durante jogo do Los Angeles Waves

Essa dupla avaliação evidencia como o corpo feminino continua sendo regulado por normas sociais, mesmo em contextos de poder. Ao mesmo time, a série oferece momentos de ruptura, nos quais a protagonista afirma sua autoridade de maneira própria, sem se adequar completamente às expectativas.
Nesse sentido, A Dona da Bola pode ser compreendida como uma pedagogia cultural, conforme argumenta Guacira Lopes Louro, ao afirmar que “as pedagogias culturais ensinam modos de ser e estar no mundo” (LOURO, 2014, p. 25).
Ao colocar uma mulher na liderança de um time de basquete, a série ensina — ainda que de forma implícita — que esse lugar pode ser ocupado por mulheres, ampliando o repertório simbólico disponível.
Como complementa Louro, “Os processos culturais são também processos pedagógicos, pois produzem sujeitos, identidades e diferenças” (LOURO, 2014, p. 30).
No entanto, essa pedagogia é marcada por ambiguidades. Em diversos momentos, a narrativa recorre à lógica da superação individual, sugerindo que o sucesso de Isla depende exclusivamente de sua competência. Essa abordagem tende a obscurecer as dimensões estruturais das desigualdades de gênero, reforçando uma lógica meritocrática.
Além disso, a protagonista é frequentemente construída como uma exceção, o que pode reforçar a ideia de que mulheres em posições de poder são raras. Essa escolha narrativa, embora eficaz do ponto de vista dramático, limita o potencial crítico da obra.
Ainda assim, a série se destaca por sua capacidade de tensionar normas de gênero e evidenciar as disputas que atravessam o esporte. Ao articular elementos de ficção com referências à realidade, A Dona da Bola constrói uma narrativa que dialoga diretamente com o contexto contemporâneo.
Em síntese, a obra pode ser compreendida como um dispositivo cultural que participa da produção e da disputa de sentidos sobre gênero, esporte e poder. Ao fazer isso, ela nos convida a repensar não apenas o lugar das mulheres no basquete, mas as próprias estruturas que definem quem pode ocupar espaços de liderança.
Mais do que uma narrativa sobre esporte, trata-se de uma reflexão sobre pertencimento, legitimidade e transformação social. E é justamente nessa tensão — entre permanência e mudança — que reside sua potência analítica.
Entre a ficção e a realidade: liderança feminina, poder e legitimidade no esporte
A análise da série A Dona da Bola ganha densidade quando colocada em diálogo com experiências concretas de mulheres que ocupam posições de liderança no esporte. Nesse sentido, a trajetória de Leila Pereira, presidente da Sociedade Esportiva Palmeiras, oferece um contraponto empírico potente para compreender como as disputas de gênero operam não apenas na ficção, mas na realidade social brasileira.
Leila Pereira em entrevista coletiva sobre um jogo do Palmeiras

Assim como Isla Gordon, Leila Pereira ocupa um espaço historicamente reservado aos homens: a gestão de uma instituição esportiva de grande visibilidade e impacto econômico. Ainda que os contextos sejam distintos — basquete profissional norte-americano na ficção e futebol brasileiro na realidade —, as dinâmicas de poder, resistência e legitimação apresentam semelhanças significativas.
Um primeiro ponto de convergência diz respeito à forma como essas mulheres são percebidas publicamente. Tanto Isla quanto Leila não são avaliadas exclusivamente por sua competência técnica ou capacidade de gestão, mas também por sua adequação (ou inadequação) às normas de gênero. A liderança feminina, nesses contextos, aparece como algo que precisa ser constantemente justificado, ao contrário da liderança masculina, frequentemente naturalizada.
Essa dinâmica pode ser analisada à luz da formulação de Simone de Beauvoir, ao afirmar que: “Nenhum destino biológico, psíquico ou econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade” (BEAUVOIR, 2009, p. 361).
No caso de Leila Pereira, sua trajetória empresarial e sua ascensão ao comando de um dos maiores clubes do Brasil evidenciam que sua posição não é resultado de uma “exceção natural”, mas de um processo que tensiona estruturas sociais profundamente enraizadas. No entanto, assim como ocorre com Isla, sua presença é frequentemente marcada como extraordinária, o que revela a persistência de um imaginário que associa poder e liderança ao masculino.
Outro ponto relevante é a forma como ambas lidam com a visibilidade. No esporte, a exposição pública é intensa, e isso amplifica os mecanismos de vigilância sobre o comportamento feminino. Leila Pereira, por exemplo, é constantemente alvo de críticas que extrapolam sua gestão, atingindo sua forma de falar, sua postura e até sua personalidade. Essa dinâmica ecoa a experiência de Isla na série, que também é submetida a um escrutínio constante.
A partir da perspectiva de Judith Butler, essa situação pode ser compreendida como um processo de regulação da performatividade de gênero. Como afirma a autora: “O gênero é uma repetição estilizada de atos” (BUTLER, 2018, p. 56).
Nesse sentido, tanto Isla quanto Leila precisam performar continuamente sua legitimidade. Não basta ocupar o cargo; é necessário reiterar, em cada ação, que são capazes de exercê-lo. Essa exigência revela um aspecto central das desigualdades de gênero: a necessidade constante de validação.
No entanto, é importante reconhecer que essa performatividade não é neutra. Ela ocorre dentro de um campo estruturado por relações de poder que favorecem determinadas formas de masculinidade. Nesse ponto, a contribuição de Raewyn Connell é fundamental. Ao definir a masculinidade hegemônica como “a configuração de prática de gênero que incorpora a resposta atualmente aceita ao problema da legitimidade do patriarcado” (CONNELL, 2005, p. 77), a autora nos permite compreender por que a presença feminina nesses espaços é frequentemente percebida como uma ameaça.
No caso de Leila Pereira, essa ameaça se manifesta de diversas formas: questionamentos sobre sua competência, críticas desproporcionais e até ataques que mobilizam estereótipos de gênero. Esse cenário evidencia que o esporte, especialmente em sua dimensão institucional, ainda opera como um espaço de reprodução da masculinidade hegemônica.
Ao mesmo tempo, tanto na série quanto na realidade, há sinais de transformação. A presença de mulheres em posições de liderança contribui para desestabilizar normas estabelecidas, abrindo espaço para outras formas de exercer poder. Como aponta Connell: “A masculinidade hegemônica não é fixa, mas pode ser contestada e transformada” (CONNELL, 2005, p. 76).
Nesse sentido, a trajetória de Leila Pereira pode ser interpretada como um processo de contestação dessas normas, ainda que marcado por tensões e resistências. Sua atuação evidencia que a presença feminina no esporte não é apenas possível, mas já é uma realidade, ainda que desigual.
A comparação com A Dona da Bola permite, portanto, evidenciar tanto os avanços quanto os limites desse processo. Enquanto a série dramatiza essas tensões, a realidade as apresenta de forma concreta e, muitas vezes, mais complexa. A ficção, nesse caso, funciona como um espelho que amplifica questões já presentes na sociedade.
Outro elemento importante dessa análise é a relação entre gênero e legitimidade. Tanto Isla quanto Leila enfrentam o desafio de serem reconhecidas como líderes legítimas em um campo que não foi historicamente construído para elas. Esse desafio não é apenas individual, mas coletivo, na medida em que reflete a posição das mulheres na sociedade.
Nesse ponto, a noção de pedagogias culturais, desenvolvida por Guacira Lopes Louro, oferece uma chave interpretativa relevante. Segundo a autora: “Os processos culturais são também processos pedagógicos, pois produzem sujeitos, identidades e diferenças” (LOURO, 2014, p. 30).
Tanto a série quanto a trajetória de Leila Pereira operam como pedagogias culturais, ao produzir e difundir imagens sobre o que significa ser mulher no esporte. Essas imagens, por sua vez, influenciam percepções sociais, expectativas e possibilidades.
No entanto, essa pedagogia não é linear. Ela é atravessada por contradições. Por um lado, a visibilidade dessas mulheres amplia o repertório simbólico disponível, mostrando que é possível ocupar esses espaços. Por outro, a forma como essa visibilidade é construída pode reforçar a ideia de excepcionalidade, sugerindo que essas trajetórias são raras e difíceis de replicar.
Além disso, é importante considerar que a experiência de Leila Pereira, assim como a de Isla Gordon, não pode ser generalizada para todas as mulheres. Fatores como classe, raça e capital econômico desempenham um papel fundamental na possibilidade de acesso a posições de poder. Nesse sentido, a ausência de uma abordagem interseccional mais aprofundada — tanto na série quanto em muitas análises — limita a compreensão da complexidade dessas dinâmicas.
Ainda assim, a comparação entre ficção e realidade permite evidenciar um ponto central: o esporte é um campo privilegiado para observar as disputas de gênero na sociedade. Ao mesmo tempo em que reproduz desigualdades, ele também oferece possibilidades de transformação.
A trajetória de Leila Pereira, em diálogo com a narrativa de A Dona da Bola, revela que o “não-lugar” das mulheres no esporte não é uma condição natural, mas uma construção histórica que pode — e vem sendo — contestada. No entanto, essa contestação não ocorre sem resistência. Ela envolve conflitos, negociações e, muitas vezes, custos pessoais significativos.
Em síntese, a articulação entre a série e a realidade brasileira permite compreender que as questões de gênero no esporte não são apenas um tema de representação, mas um problema social concreto. Ao analisar essas experiências em conjunto, torna-se possível identificar padrões, tensões e possibilidades que contribuem para uma compreensão mais ampla das relações de poder.
Mais do que uma comparação, trata-se de uma leitura relacional que evidencia como ficção e realidade se alimentam mutuamente, produzindo sentidos sobre o lugar das mulheres no esporte e na sociedade.
REFERÊNCIAS
BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.
BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.
LOURO, Guacira Lopes. Gênero, sexualidade e educação. Petrópolis: Vozes, 2014.
CONNELL, Raewyn. Masculinidades. Berkeley: University of California Press, 2005.
* Esta resenha foi produzida como atividade da disciplina Comunicação, Esporte e Gênero ofertada no modelo interinstitucional (PPGCOMs da UFMG e da UFPE) no semestre 1 de 2026 pelas professoras Ana Carolina Vimieiro e Soraya Januário.

