Por Amanda Camargos e Vitória Castro*
O perfil da Ferrari Academy é um importante braço institucional da marca Ferrari, dedicado à formação e ao desenvolvimento de novos talentos do automobilismo. A academia atua como um centro de preparação técnica, física e mental para jovens pilotos e pilotas que competem em categorias como a F1 Academy, Fórmula 2 e Fórmula 3, reforçando valores como excelência, desempenho, tradição e inovação.
Nas redes sociais, especialmente no Instagram, TikTok e YouTube, a Ferrari Academy busca construir uma identidade própria dentro do universo da marca. Sua comunicação equilibra o profissionalismo esportivo com uma linguagem mais moderna e voltada ao público jovem, destacando o cotidiano dos pilotos e os bastidores das competições.
Entre os principais nomes acompanhados pela Ferrari Driver Academy (FDA) estão Dino Beganovic (Suécia), Rafael Camara (Brasil), Aurelia Nobels (Brasil), Tuukka Taponen (Finlândia) e Maya Weug (Países Baixos). O perfil mostra treinos, corridas e conquistas desses talentos em campeonatos como a FIA Fórmula 2, FIA Fórmula 3 e a F1 Academy, reforçando o compromisso da instituição em preparar o futuro da Scuderia Ferrari e inspirar novas gerações.
Além disso, o perfil explora conteúdos diversos, desde destaques individuais e bastidores até campanhas de engajamento e iniciativas sobre diversidade. Essa combinação entre tradição e modernidade reflete o prestígio da marca e evidencia como a Ferrari Academy representa seus participantes, homens e mulheres, dentro de um discurso que valoriza mérito, desempenho e representatividade.
A partir disso, será realizada uma análise do perfil da Ferrari Driver Academy com foco no recorte de gênero, buscando compreender como a presença feminina e masculina é representada nas publicações. Para isso, serão consideradas três categorias principais: (1) a diferença na frequência de postagens entre pilotos homens e mulheres; (2) a forma como as mulheres são retratadas nas fotos, por exemplo, situações em que aparecem acompanhadas de figuras masculinas; e (3) a diferença de engajamento entre as publicações de cada categoria.
As publicações de resultado de competições femininas e masculinas possuem cores como demarcação de gênero. Quando são posts com fundo azul, se trata dos homens, mas quando são mulheres, a cor escolhida é a rosa. Esse recurso não é neutro, porque aciona códigos culturais amplamente associados às representações tradicionais de masculinidade e feminilidade. Assim, a escolha das cores funciona como um reforço das distinções de gênero já naturalizadas socialmente e contribui para a manutenção de padrões que simplificam as identidades no contexto esportivo.
Diferenças de engajamento entre postagens sobre pilotos homens e mulheres
Analisando o engajamento da conta, algumas postagens do perfil alcançam um engajamento bem maior que outras, acumulando mais curtidas e comentários. De modo geral, os conteúdos mais leves e descontraídos raramente passam de 10 mil curtidas e algumas dezenas de comentários. Já as publicações sobre grandes conquistas e vitórias em corridas costumam gerar um aumento expressivo nas interações, especialmente quando envolvem pilotos homens.
No dia 5 de outubro, por exemplo, a postagem celebrando a vitória de Maya Weug na F1 Academy, em Singapura, somou 4 mil curtidas e 29 comentários. Em contraste, no dia 20 de setembro, a vitória de Dino Beganovic na FIA Fórmula 2 recebeu 31 mil curtidas e 108 comentários. Mesmo a conquista anterior de Maya, publicada em 31 de agosto, também na F1 Academy, obteve 5 mil curtidas e 56 comentários, números expressivos, mas ainda bem abaixo dos alcançados por Dino.
Esses dados evidenciam um padrão de engajamento desigual, no qual o público tende a reagir com mais intensidade às vitórias masculinas, refletindo uma diferença perceptível na forma como o sucesso de pilotos e pilotas é recebido nas redes sociais.


Representação
No perfil analisado, os atletas, homens e mulheres, aparecem na maioria das vezes com os uniformes oficiais, retratados em corridas ou comemorando resultados, transmitindo profissionalismo, dedicação e espírito competitivo.
Além desses momentos, há postagens mais descontraídas, mostrando o lado humano e divertido dos atletas. Rafa e Dino, por exemplo, responderam perguntas dos fãs antes de uma competição, se aproximando do público. Aurelia, Maya e Dino também surgem em fotos fora das pistas, mostrando momentos mais leves do dia a dia. Em 20 de agosto, Aurelia e Maya participaram de uma brincadeira na qual precisavam se livrar de um nó feito com dois panos, postagem que ultrapassou 30 mil curtidas, evidenciando o engajamento do público com conteúdos mais espontâneos e divertidos.

Quando o foco sai da pilota
O post da Ferrari Driver Academy que celebra a vitória de Maya na F1 Academy evidencia, à primeira vista, uma tentativa de promover a presença feminina no automobilismo, um espaço historicamente dominado por homens. No entanto, a escolha de incluir uma imagem de Lewis Hamilton, ainda que ele seja uma figura importante no esporte e símbolo de representatividade racial, acaba desviando o foco da protagonista do post. Em vez de reforçar a conquista individual de Maya, a publicação acaba centrando a narrativa em uma figura masculina já consolidada, reproduzindo, mesmo que de forma sutil, a lógica de apagamento simbólico das mulheres nesse contexto.


Essa decisão editorial pode ser lida como reflexo de uma dificuldade estrutural das instituições esportivas em dar protagonismo pleno às mulheres. A presença de Hamilton não acrescenta informação relevante à vitória de Maya, mas serve como um “ponto de referência” familiar para o público, revelando uma possível falta de confiança na capacidade de a conquista feminina gerar engajamento por si só. Assim, o post, que deveria ser um marco de visibilidade feminina, torna-se um exemplo de como as narrativas de sucesso de mulheres ainda são frequentemente mediadas por figuras masculinas.
Por fim, o caso evidencia um tensionamento entre o discurso de inclusão e a prática comunicacional da Ferrari Driver Academy. Embora a equipe busque demonstrar apoio à diversidade e à inserção feminina, o enquadramento visual e simbólico da postagem reforça hierarquias de gênero já existentes. A análise sugere que, para além da presença de mulheres nas pistas, é necessário também repensar as formas de representação e celebração dessas conquistas nas mídias institucionais, de modo que elas não sejam ofuscadas ou secundarizadas por figuras masculinas ou por referências que desviem o olhar do público daquilo que realmente importa: o protagonismo e o mérito da atleta.
Volume de publicações
A análise das postagens da Ferrari Driver Academy mostra que a visibilidade de homens e mulheres no perfil varia conforme o calendário competitivo. Em outubro, por exemplo, as pilotas tiveram maior destaque, com 26 publicações, contra 16 dos homens, reflexo da etapa da F1 Academy em Singapura. Já em setembro, o cenário se inverteu: 48 posts sobre os pilotos masculinos e apenas 9 sobre as mulheres, devido às disputas da Fórmula 2 e Fórmula 3. Em agosto, foram 37 publicações masculinas e 19 femininas, e em julho, 36 e 12, respectivamente.
Esses números indicam que a visibilidade feminina ainda é pontual, crescendo apenas durante as competições da F1 Academy. Fora desses períodos, o perfil tende a priorizar os homens, que competem em categorias de maior visibilidade e ligação direta com a Fórmula 1. Assim, apesar de avanços na presença das mulheres, a Ferrari Driver Academy ainda reforça, mesmo que indiretamente, uma estrutura comunicacional centrada no protagonismo masculino.
Visibilidade feminina e desafios de protagonismo na Ferrari Driver Academy
A análise do perfil da Ferrari Driver Academy revela avanços na presença feminina, mas também desigualdades persistentes na forma como homens e mulheres são representados. As pilotas ganham espaço durante as competições da F1 Academy, porém o engajamento e a atenção do público continuam mais voltados aos pilotos masculinos. O caso da vitória de Maya Weug, cuja publicação dividiu o foco com a imagem de Lewis Hamilton, ilustra como o protagonismo das mulheres ainda é frequentemente mediado por figuras masculinas.
Além disso, a visibilidade feminina é mais pontual, enquanto os homens mantêm presença constante no perfil. Dessa forma, conclui-se que, embora a Ferrari Driver Academy avance na promoção da diversidade, ainda há um caminho a percorrer para que as conquistas femininas recebam o mesmo destaque, reconhecimento e valorização que as masculinas em sua comunicação institucional.

