Entre o campo e a vida pessoal: A (auto) representação de Alisha Lehmann

Por Francyelle de Souza Messias e Ingrid Mariana Mendonça da Silva*

As mídias sociais permitem que diferentes indivíduos criem conteúdos e apresentem ao público a identidade que escolheram, além de facilitarem a oportunidade de pessoas se associarem a outras com quem partilham interesses e encontrem novas fontes de publicação de conteúdo (Évora, 2023). Dessa forma, atletas e esportistas têm a oportunidade de construir e estabelecer uma imagem através da auto representação nas redes sociais, além de aproximar-se do público. Nesse contexto, a futebolista suíça Alisha Lehmann, do Como (Itália), tem destaque. A atleta acumula mais de 16 milhões de seguidores no Instagram e carrega o título de “jogadora mais seguida do mundo”.

O objetivo desse texto é explorar a (auto) representação de atletas na mídia, a latência das performances de gênero e a forma como o público recepciona e reproduz essas imagens. Para tanto, analisaremos o Instagram de Alisha Lehmann, rede social que se destaca por sua característica visual composta por fotos e vídeos, e investigaremos as postagens de um período de 5 meses, entre 1 de junho de 2025 e 31 de outubro de 2025. O período engloba 59 publicações, que retratam jogos pela seleção suíça, momentos de lazer, a despedida do antigo clube, a Juventus (Itália),  e a chegada ao Como (Itália).

Quem é Alisha Lehmann?

Alisha Lehmann nasceu em Tägertschi, na Suíça e atualmente atua no Como, clube italiano. A atleta começou sua carreira profissional no Young Boys, da Suíça. Depois do clube suiço, passou por alguns clubes ingleses, como West Ham, Everton e Aston Villa. Após alguns anos na Inglaterra, se transferiu para a Itália, onde atuou na Juventus, antes de defender o Como. Já pela seleção suíça de futebol feminino, a atacante estreou em 2017 e disputou a Copa do Mundo de 2023 e a Eurocopa de 2025.   

A (auto) representação de Alisha

As mídias sociais, ao oferecer autonomia para diferentes indivíduos criarem conteúdos, tornam-se uma ferramenta para atletas manterem uma relação próxima com torcedoras/es, divulgar o próprio trabalho e também produzir novas representações. Para entender essas representações, dividiremos a análise da imagem em quatro categorias: esporte, publicidade, vida pessoal e outros, para publicações que mesclam categorias. 

Gráfico de categorias de publicações

As representações produzidas por Alisha Lehmann aproximam-se e afastam-se, ao mesmo tempo, da imagem de atleta. Nas 59 publicações analisadas, percebem-se que recursos imagéticos para se apresentar como futebolista são utilizados, com postagens, em maioria de carrossel, utilizando uniforme (30), em jogos (19) ou posadas (11), mas também há publicações que a afastam dessa identidade, apresentando um caráter da vida pessoal (15), em fotos de biquíni (5) ou roupas não esportivas (10). Lehmann ainda mescla as identidades apresentadas, com publicações em carrossel que contemplam tanto fotografias em campo, apresentando a identidade atleta, quanto em sua vida pessoal (4). As demais publicações são de publicidade (10) e promovem marcas de diferentes segmentos, entre elas isotônicos, roupas de banho e jogos eletrônicos.

Mesmo no contexto esportivo, em muitas das imagens, a futebolista está posando passivamente, não em movimento de jogo, se colocando como um objeto para o olhar. Como a foto tirada durante o aquecimento pré-jogo de uma partida pela Seleção Suíça, em que a atleta aparece olhando diretamente para a câmera. Também é perceptível a tendência a produzir mensagens associadas à feminilidade e ao reforço de padrões de beleza. Alisha aparece frequentemente com o cabelo preso em penteados e com o rosto maquiado, inclusive em publicações que apresentam a identidade de atleta.

Foto publicada no Instagram de Alisha Lehmann de jogo pela Seleção Suíça.

Fonte: Reprodução Instagram/@alishalehmann7

Dessa forma, a futebolista repete atos performativos que, para a sociedade, formam o gênero feminino. Segundo Butler (2003), o corpo é resultado das normas culturais que moldam e legitimam os padrões de gênero, definindo quais identidades podem ser reconhecidas como legítimas em determinado espaço. Assim, Alisha está presente num universo considerado masculino, o esportivo e, principalmente, do futebol, e performa feminilidade nesse contexto para se afirmar e se representar como mulher. Lehmann se auto representa, em seu Instagram, principalmente como atleta, porém tensiona normas hegemônicas, que consideram mulheres futebolistas afastadas de uma performance de feminilidade, ao utilizar de signos que marcam uma “feminilidade apropriada”, apresentando características físicas e emocionais que a diferencie de homens.

Nesse sentido, a recepção do público às representações produzidas por Alisha Lehmann destacam-se para a análise. A recepção é composta por diferentes atitudes, que reforçam a sexualização de mulheres que performam padrões de beleza, como é o caso da futebolista, uma mulher branca, jovem e de corpo atlético, características que são consideradas ideais para ser vista como bonita. Dentro desse contexto, para entendermos como é o comportamento do público diante da forma como a atleta escolhe se representar, utilizaremos prints de comentários feitos em suas publicações no Instagram. 

Comentários encontrados em publicações de Alisha Lehmman

Fonte: Reprodução/Instagram

Ao analisarmos os comentários, percebemos que, mesmo em publicações em que Alisha apresenta a identidade de atleta, o público destaca a aparência acima da capacidade e da performance da futebolista. Comentários como “Que gata”, “Você é uma princesa” e até outros mais sexualizados, como alguns sugerindo que a atleta deixe o futebol e comece a vender fotografias de conteúdo adulto, em publicações que a futebolista apresenta o esporte, evidenciam a forma como o público recepciona a auto representação de Alisha. Ao mesmo tempo que a representação como mulher é bem recebida, a identidade de atleta é ignorada.

A desvalorização acerca da futebolista como uma atleta de alto rendimento é uma problemática em que a própria esportista é considerada culpada. Como argumenta Toffoletti (2016), “O preconceito de gênero no esporte é referido como uma criação das próprias mulheres – um resultado de novos modos de feminilidade que colocam as mulheres atletas como agentes empoderadas que são livres de escolher como se expressam”. Assim, pela maneira como a futebolista se auto representa, o público se sente autorizado a enxergar Alisha em um lugar principalmente de objetificação sexual e não por seu desempenho como jogadora de futebol.

Sob essa ótica, segundo a historiadora Mary Jo Festle (1996), mulheres atletas profissionais frequentemente se sentem obrigadas a adotar uma postura apologética, esforçando-se para provar ao público que a dedicação ao esporte não diminui ou compromete sua feminilidade. Dessa forma, entende-se que o esporte – principalmente o futebol – não é algo que deve ser praticado por uma mulher, especialmente se essa mulher performa feminilidade. Entretanto, quando a mulher atleta não segue as normas de feminilidade hegemônicas, há a noção que, ao praticar esporte, é perdida a característica performática imposta para ser considerada uma mulher. O paradoxo, então, estabelece uma rejeição da participação das mulheres no esporte, sobretudo os que são vistos exclusivamente como masculinos, como o futebol. 

Em suma, como argumentado por Salvini, Souza e Marchi Júnior (2012), as mulheres futebolistas, ao incorporarem o “habitus” do futebol masculino são estigmatizadas e questionadas, tendo sua sexualidade colocada socialmente à prova. Ao preservarem uma apresentação mais feminina em jogo são desacreditadas quanto a performance em um esporte historicamente associado às ideias de masculinidade, força e virilidade. Assim, é possível afirmar que Lehmann, ao buscar se apresentar mais feminina em jogo, tem sua performance atlética desacreditada.

Além disso, ao longo de nossa análise do Instagram de Alisha Lehmann, identificamos uma variação considerável em relação ao engajamento nas postagens dependendo de como a atleta se apresenta. As publicações em que a futebolista aparece uniformizada, seja para treinar seja para jogar uma partida de futebol, e as que ela está usando biquíni são as que possuem um número maior de curtidas. Em contrapartida, as publicações em que ela está com vestimentas que cobrem mais seu corpo, o número de curtidas é muito menor. Para fazermos uma comparação, colocamos como exemplo uma publicação em que Alisha está vestindo biquíni, com mais de 400 mil curtidas, e outra em que a atleta aparece usando blusa e calça de moletom que cobrem seu corpo inteiro, com pouco mais de 70 mil. 

Publicações no Instagram de Alisha Lehmann

Fonte: Reprodução/ Instagram/@alishalehmann7

Portanto, fica visível que para parte majoritária do público que acompanha Alisha Lehmann, a sua persona como jogadora de futebol não é o principal motivo para tantas curtidas e sim as publicações em que seu corpo está mais exposto, visto que as fotos de biquíni e as que ela está de uniforme, que é composto para além de uma camisa e meiões, de um shorts mais curto, são as mais curtidas. Tal dinâmica reforça preconceitos machistas, além da hipersexualização acerca da atleta e a desvalorização quanto sua performance futebolística.

As representações da mídia acerca de atletas mulheres são outro elemento que reforça noções já construídas, como a hipersexualização, a objetificação e a desvalorização da mulher como atleta de alta performance. João Vítor Nunes Marques e Rafaela Cristina de Souza pesquisaram as representações jornalísticas em torno de Alisha Lehmann. A análise apresentada identifica que a atleta é retratada apenas por sua profissão em um pequeno número de notícias, enquanto outras representações aparecem de forma mais recorrente. Além disso, as imagens utilizadas são, em sua maioria, das mídias sociais de Lehmann, porém apenas metade das notícias apresentam fotos da jogadora em campo. 

Para complementar a análise, selecionamos 20 notícias publicadas em 2025, as duas primeiras páginas de resultado por meio da pesquisa das palavras-chave Alisha Lehmann no Google Notícias. Para melhor compreensão, dividimos as notícias em duas categorias, esporte, para artigos que tratam principalmente o desempenho da jogadora, e outros, para matérias em que o foco é a aparência ou vida pessoal da atleta. 

Gráfico de categorias das notícias

As notícias analisadas mostram um tratamento da vida pessoal da atleta mesmo em matérias que o foco é o futebol, como a notícia do Metrópoles que fala da transferência da futebolista para o Como, mas também a coloca no espaço de celebridade, como jogadora mais seguida do mundo, e evidencia o antigo relacionamento. Além disso, há um elevado número de artigos que retratam primariamente a aparência ou a vida pessoal de Alisha, deixando a identidade de jogadora de futebol em segundo plano. Como apontam Marques e Souza (2024), é perceptível que características e acontecimentos que não estão ligados ao desempenho em campo são mais “atrativos” ao jornalismo.  

A análise feita mostra que a futebolista Alisha Lehmann se apresenta primariamente como atleta, mas ainda assim reforça os padrões de feminilidade. Entretanto, não é essa a representação produzida pelo público e pela mídia. A (auto) representação secundária de Alisha, a vida pessoal e a aparência são, frequentemente, o principal tópico. Ela aparece como ex-namorada de outro esportista, jogadora mais seguida do mundo, influencer e musa, corroborando mais uma vez para desvalorização da sua principal profissão, que é ser futebolista, e hiperssexualização da atleta. 

REFERÊNCIAS

BUTLER, Judith. Os atos performativos e a constituição do gênero: um ensaio sobre fenomenologia e teoria feminista. Chão da Feira, Caderno n. 78, p. 1-16, 2018.

BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução de Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

ÉVORA. S. L. Comunicação política, inteligência artificial e ciberesfera. Revista Internacional em Língua Portuguesa, nº 43, 2023. Disponível em: https://rilpaulp.org/index.php/rilp/article/view/rilp2023_43pp.67-92. Acesso em: 30 out. 2025.

FESTLE, Mary Jo. Playing Nice: Politics and Apologies in Women’s Sports. New York: Columbia University Press, 1996.

GEURIN; ANDREA; BURCH, M; LAUREN. Communicating via photographs: A gendered analysis of Olympic athletes’ visual self-presentation on Instagram. Journal Contribution, 2023. 

MARQUES; NUNES, João Vítor; SOUZA; CRISTINA, Rafaela. Musa, ‘ex’ ou influencer: as representações jornalísticas em torno da jogadora de futebol Alisha Lehmann. INTERCOM, 2024.

SALVINI, Leila; SOUZA, Juliano de; MARCHI JUNIOR, Wanderley. A violência simbólica e a dominação masculina no campo esportivo: algumas notas e digressões teóricas. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, v. 26, p. 401-410, 2012.

TOFFOLETTI, Kim. Analyzing media representations of sportswomen—Expanding the conceptual boundaries using a postfeminist sensibility. Sociology of Sport Journal, v. 33, n. 3, p. 199-207, 2016.

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