Por Davi Perin e Matheus Lemes
No dia 3 de janeiro de 2023, Cristiano Ronaldo, o atleta mais seguido do planeta e um ícone global de masculinidade, foi apresentado como jogador do Al-Nassr, na Arábia Saudita. O contrato, estimado em mais de 200 milhões de euros por ano, não era apenas uma transação desportiva, mas foi a aquisição de um dos canais de comunicação mais valiosos do mundo. A ida de “CR7” para o Oriente Médio é a peça central de uma complexa estratégia de “sportswashing”, um esforço multibilionário do governo saudita para usar o esporte como ferramenta de poder, limpando sua reputação internacional manchada por graves violações de direitos humanos.
Esta crítica analisa como Cristiano Ronaldo gerencia sua imagem em seus perfis de redes sociais, com foco no Instagram, para atuar como um parceiro deliberado na estratégia saudita. Argumenta-se que a eficácia desta parceria não reside apenas em sua qualidade dentro de campo, mas na sua performance de gênero. Ronaldo projeta uma imagem de masculinidade hegemônica: sucesso, riqueza, um corpo perfeitamente disciplinado e, crucialmente, a de um “homem de família” moderno e globalizado. Essa imagem funciona como o antídoto perfeito para “humanizar” e “modernizar” um regime ultraconservador, acusado de opressão sistemática contra mulheres, dissidentes políticos e a comunidade LGBTQIAP+.
Para entender essa relação, a análise trabalha a harmonia entre o atleta e o Estado em três categorias: o contexto do projeto saudita “Visão 2030” e suas contradições sociopolíticas; a construção da imagem de Ronaldo como o ícone máximo de uma masculinidade hegemônica e performática; e como essas duas narrativas se fundem em suas postagens, analisando seu alinhamento estratégico com figuras como o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman (MBS).
Entre a “Visão 2023” e a Repressão
A Arábia Saudita está em meio a uma transformação sísmica autointitulada “Visão 2030”. Liderado pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, o plano é uma tentativa ambiciosa de diversificar a economia para além do petróleo, abrindo o país ao turismo, entretenimento e, claro, ao esporte de alto nível. O Fundo de Investimento Público (PIF), um dos maiores fundos soberanos do mundo e controlado por MBS, injetou bilhões na compra de clubes (como o Newcastle United na Inglaterra) e na criação de ligas (como a LIV Golf), culminando na contratação de Ronaldo e na subsequente onda de estrelas para a Liga Saudita.
O objetivo, como apontam relatórios de organizações como a Human Rights Watch e a Anistia Internacional, é o “sportswashing”, pois o país precisa desesperadamente desviar a atenção de sua reputação. O governo de MBS é internacionalmente associado ao brutal assassinato do jornalista Jamal Khashoggi em 2018, à repressão violenta de qualquer discordância política e a um sistema judicial que impõe sentenças de morte por publicações em redes sociais.
No centro desta reputação negativa está a questão do gênero. A “Visão 2030” promoveu uma flexibilização cosmética, permitindo que mulheres dirigissem e frequentassem estádios, uma imagem de modernidade que o regime faz questão de exportar. No entanto, essa abertura é conflituosa, já que o mesmo governo que decretou esses direitos persegue, prende e tortura as ativistas feministas que lutaram por eles. Assim, a liberdade feminina é tratada como uma concessão do príncipe, não como um direito fundamental.
E este é o problema que o “sportswashing” visa resolver. A Arábia Saudita não quer apenas parecer rica, mas sim moderna, aberta e, acima de tudo, “normal” perante à visão global. Para conseguir isso, precisava de um embaixador cuja imagem pessoal pudesse, por si só, contar uma história diferente. Precisava de Cristiano Ronaldo.
O garoto-propaganda
Para entender por que Cristiano Ronaldo é a ferramenta perfeita para este trabalho, é preciso analisar o que ele representa além do campo. O português é a síntese da masculinidade hegemônica na era digital, uma marca construída meticulosamente em três pilares que se encaixam perfeitamente nas necessidades sauditas.
O primeiro pilar é o corpo como capital. A imagem pública de Ronaldo é obcecada pela disciplina, performance física, saúde e longevidade. Ele não é apenas um atleta, ele é um ideal de perfeição física. Essa imagem de trabalho árduo, modernidade e excelência implacável alinha-se perfeitamente com a narrativa de um país que se move em direção ao futuro e à alta performance.
O segundo pilar é o sucesso como identidade. O atleta é sinônimo de riqueza, luxo e de ser um vencedor implacável. Ao escolhê-lo, a Arábia Saudita não estava apenas contratando um jogador em fim de carreira; estava comprando o selo de aprovação do maior vencedor da sua geração. A sua presença valida a Liga Saudita, transformando-a numa liga de destino, atraindo outros grandes nomes e, com eles, os olhos do mundo.
O terceiro e mais crucial pilar é a sua performance como “homem de família” moderno. Ronaldo não projeta a imagem de um patriarca tradicional e conservador. Pelo contrário, ele se cuida, tem a vaidade como característica e vive com a sua parceira, Georgina Rodríguez, sem serem casados. Em um país onde a coabitação fora do casamento é um crime punível por lei, o regime saudita abre uma exceção explícita para Ronaldo.
Essa exceção é a mensagem. Ao permitir e celebrar publicamente a vida familiar “moderna” de Cristiano, o regime saudita usa-o como um comunicado ao mundo. A imagem de Georgina e dos seus filhos vivendo uma vida de luxo e aparente liberdade em Riade, partilhada com centenas de milhões de seguidores, torna-se a prova de que a Arábia Saudita é, afinal, um lugar acolhedor e flexível. Dessa forma, a felicidade da família torna-se a máscara perfeita para a opressão de mulheres que não têm o mesmo privilégio.
O Jogo Político no Feed do Instagram
É no Instagram de Cristiano Ronaldo, com seus mais de 600 milhões de seguidores, que a fusão entre o garoto-propaganda e a estratégia de Estado se torna explícita. O seu perfil tornou-se um dos principais veículos de propaganda da “Visão 2030”, com postagens selecionadas para promover a narrativa oficial, atuando em diferentes frentes.

Nesta postagem do “Dia da Fundação Saudita”, a imagem é politicamente carregada. Cristiano Ronaldo está posicionado estrategicamente ao lado de Mohammed bin Salman, ambos sorridentes e em trajes cerimoniais. A legenda é uma validação direta: “Feliz em celebrar o Dia da Fundação com sua alteza real, o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, e honrado em comparecer na cerimônia da corrida de cavalos da Copa Saudita em Riyadh”. A “honra” do ícone global é retoricamente transferida para o príncipe, um líder que serviços de inteligência internacionais associam a graves violações de direitos humanos. O capital social e moral de Cristiano é, assim, utilizado para legitimar a figura de MBS perante uma audiência global.

Se a primeira imagem foca na validação política e cerimonial, esta é centrada na parceria de negócios e inovação. Ao participar de uma reunião sobre e-Sports , novamente ao lado de MBS, a legenda “É uma honra me encontrar novamente com sua alteza real, o príncipe Mohammed bin Salman, e fazer parte desta reunião hoje, discutindo o futuro dos e-Sports e o lançamento da primeira #eSportsWorldCup, que será realizada na Arabia Saudita no ano que vem!” altera o enquadramento. Ele não se posiciona como um subordinado ou mero convidado, mas um parceiro estratégico que “faz parte” da discussão do futuro. Ao enquadrar novamente MBS como um “visionário” da tecnologia, Ronaldo ajuda ativamente a ofuscar a imagem de autocrata repressivo.

Aqui, o “sportswashing” expande-se para “culture-washing”. Ao publicar uma foto trajando vestes tradicionais e segurando uma espada cerimonial, Ronaldo sinaliza aceitação. A legenda “Feliz dia nacional saudita a todos na Arabia Saudita! Desejo a vocês um dia cheio de orgulho, união e celebração com seus entes queridos.” complementa o ato. O ícone masculino ocidental não observa a cultura como um turista, mas a assimila e celebra. Este ato simbólico serve para validar a cultura saudita, apresentando-a como algo de “orgulho” e “união”, neutralizando eficazmente críticas externas sobre as práticas opressoras dessa mesma cultura.

Esta é a publicação com o apoio mais politicamente direto: o apoio à candidatura saudita para a Copa do Mundo de 2034. A legenda do vídeo institucional “Orgulhoso de apoiar os sonhos de uma nação que espera trazer a Copa do Mundo para a Arabia Saudita em 2034. Nós todos estamos #GrowingTogether” é a culminação da estratégia. O português transforma o que é uma complexa manobra geopolítica, o objetivo final de todo o investimento em “sportswashing”, em um sonho nacional inocente. A hashtag #GrowingTogether alimenta a aliança, posicionando-o como um agente ativo do projeto.
Considerações finais
A estratégia de gestão de imagem de Cristiano Ronaldo na Arábia Saudita é uma relação multilateral perfeitamente executada. O regime compra o seu imenso capital social, a sua influência global e, acima de tudo, a sua performance de masculinidade moderna para legitimar um projeto de poder que depende de uma fachada de modernidade. Ronaldo, em troca, recebe um salário sem precedentes, qualidade de vida com sua família e uma plataforma de relevância contínua.
O elemento mais poderoso da sua estratégia, no entanto, é o silêncio estratégico. O seu feed no Instagram é uma curadoria de positividade que ausenta qualquer menção, por mais sutil que seja, às leis anti-LGBTQIAP+ do país, à prisão de ativistas femininas ou à sentença de morte de diversos cidadãos, como Muhammad al-Ghamdi.
Através de uma performance de gênero calculada, o jogador não está apenas jogando na Arábia Saudita. Ele está, ativamente, a jogar pela Arábia Saudita, vendendo aos seus milhões de seguidores uma “visão” de futuro que, para muitos, permanece como uma miragem digital.
Referências
A política externa da Arábia Saudita sob Mohammed bin Salman: ambição regional, dilemas globais e o projeto Vision 2030. Relações Exteriores. Disponível em: https://relacoesexteriores.com.br/politica-externa-arabia-saudita-mbs-vision-2030/. Acesso em: 28 out. 2025.
Como a Copa do Mundo de 2034 deve coroar o projeto saudita de “soft power”. Bloomberg Línea. Disponível em: https://www.bloomberglinea.com.br/negocios/como-a-copa-do-mundo-de-2034-deve-coroar-o-projeto-saudita-de-soft-power/. Acesso em: 28 out. 2025.
Como príncipe Bin Salman usa Neymar e Cristiano Ronaldo para reverter imagem da Arábia Saudita. Estadão. Disponível em: https://www.estadao.com.br/esportes/futebol/donos-do-dinheiro-principe-saudita-usa-futebol-para-reverter-imagem-da-arabia-saudita-no-mundo/. Acesso em: 28 out. 2025.
Das areias ao gramado: o investimento estratégico do Reino da Arábia Saudita no futebol como forma de perpetrar o sportwashing. Uberlândia: Universidade Federal de Uberlândia. Disponível em: https://repositorio.ufu.br/handle/123456789/44823. Acesso em: 28 out. 2025.
Quem é o dono do Al-Hilal e por que o time saudita pode surpreender no Mundial. Exame. Disponível em: https://exame.com/esporte/quem-e-o-dono-do-al-hilal-e-por-que-o-time-saudita-pode-surpreender-no-mundial/. Acesso em: 28 out. 2025.
Relatório mundial 2024: Arábia Saudita. Human Rights Watch. Disponível em: https://www.hrw.org/pt/world-report/2024/country-chapters/saudi-arabia. Acesso em: 28 out. 2025.
Sportswashing: como a Arábia Saudita usa o esporte para maquiar violação dos direitos humanos. Portal Jornalismo ESPM. Disponível em: https://jornalismorio.espm.br/sem-categoria/sportswashing-como-a-arabia-saudita-usa-o-esporte-para-maquiar-violacao-dos-direitos-humanos/. Acesso em: 28 out. 2025.
World report 2023: Saudi Arabia. Human Rights Watch. Disponível em: https://www.hrw.org/world-report/2023/country-chapters/saudi-arabia. Acesso em: 28 out. 2025.
World report 2024: Saudi Arabia. Human Rights Watch. Disponível em: https://www.hrw.org/world-report/2024/country-chapters/saudi-arabia. Acesso em: 28 out. 2025.

