Crítica de mídia: “Ô Marta, pode chorar o teu salário é um relógio do Neymar” – discurso de ódio contra Marta

Por João Vítor Nunes Marques (@jvnmarques_) e Ana Carolina Vimieiro (@carolvimieiro13)

Com lágrimas nos olhos e a medalha de prata pendurada no pescoço, Marta se despediu da Seleção Brasileira de futebol nos Jogos Olímpicos de Paris 2024. A ‘Rainha’ foi ovacionada por todas as jogadoras das três equipes que compuseram o pódio (Estados Unidos, com o ouro; Brasil; e Alemanha, com o bronze) e as torcidas que encheram o Stade de France na final em 10 de agosto daquele ano. Mas, justamente no país onde nasceu, ela se tornou alvo de discurso de ódio, fundamentalmente nas mídias sociais.

Em 31 de julho, Marta foi expulsa na última partida da fase de grupos da Olimpíada por acertar um chute na cabeça da lateral-esquerda espanhola Olga Carmona, recebeu uma punição e teve de cumprir dois jogos de suspensão. Sem a principal jogadora, a Seleção Brasileira fez o que poucos esperavam: jogou bem e eliminou as favoritas França, nas quartas de final, e a própria Espanha, na semifinal, para chegar à decisão da medalha de ouro contra os Estados Unidos. No entanto, o cartão vermelho à camisa 10 nunca foi perdoado e se tornou a fagulha para os inúmeros ataques que se sucederam nos dias seguintes.

As mensagens variam desde críticas supostamente direcionadas à performance técnica de Marta, apesar de ela ter tido um bom desempenho em jogos anteriores, até aquelas que ridicularizam ou minimizam as conquistas dela ao longo da carreira de sucesso ou, em última análise, subestimam o futebol feminino. Essa percepção, a partir de uma aproximação inicial a dados de mídias sociais, permite-nos reflexões importantes sobre o que, de fato, significam esses ataques a uma figura de destaque do esporte brasileiro.

Marta é mulher, nordestina, LGBT e, contextualmente no Brasil, em conjunção com sua origem social e geográfica, uma pessoa negra. Nesse sentido, a despeito de ter se consolidado como uma das grandes esportistas brasileiras de todos os tempos, ela se torna o “alvo ideal” para críticos. Diante desse contexto, pensá-la de forma interseccional, articulando gênero, raça, origem geográfica, classe e sexualidade, é fundamental para entendermos os verdadeiros significados dessas ofensas, desde as evidentes — facilmente perceptíveis nas postagens em mídias sociais — às veladas.

Investigamos as mensagens ofensivas direcionadas a Marta após a derrota do Brasil para os Estados Unidos na final olímpica, justamente o jogo em que ela voltou ao time após cumprir suspensão. Para isso, observamos respostas a uma publicação do perfil da TNT Sports no Instagram. À coleta dos posts e definição do corpus final, seguiu-se a análise de conteúdo quali-quantitativa e ancorada no conceito de discurso de ódio. Introduzimos aqui uma prévia dessa análise que será apresentada em maio no 11º Congresso da Associação Brasileira de Pesquisadores em Comunicação e Política (Compolítica).

A partir da análise, entendemos que foi possível identificar o teor dos ataques odiosos e de que modo as ofensas não dizem respeito unicamente à figura individualizada de Marta, mas sim ao futebol de mulheres como um todo e a tudo o que ela representa. Afinal, como mostram várias pesquisas no âmbito da Comunicação e do Direito, o discurso de ódio é direcionado tanto a grupos minoritários, quanto a pessoas que simbolizam essas coletividades. E é o caso que se apresenta: não há ninguém no mundo que melhor retrate a modalidade.

O ódio contra Marta

Apesar das conquistas, dos números expressivos e da relevância da prata olímpica, Marta voltou a ser alvo de uma enxurrada de críticas nas mídias sociais após a derrota na final. Mas, se há tanto reconhecimento nacional e internacional, por que então ela se tornou vítima de tantas ofensas precisamente quando estava se despedindo da Seleção? Qual é, afinal, o teor desses ataques odiosos? Por que para esses críticos um deslize como uma expulsão, algo mínimo em meio a uma carreira vitoriosa, ganhou essa proporção?

Violências simbólicas contra grupos subalternizados não são novidade na história da humanidade. Da Idade Antiga à contemporaneidade, os ataques baseados em racismo, xenofobia, machismo, identidade de gênero, orientação sexual, religião, entre outros, se concretizam a partir de diferentes formas de agir — entre elas, e aqui com especial destaque, a linguagem. Com dinâmicas e características próprias, esse tipo de ofensa se repete no caso aqui analisado e se materializa nos debates nas mídias sociais digitais.

Enunciar a fúria, reforçar preconceitos e, em geral, ferir pela palavra caracterizam os atos ilocucionários de Judith Butler (2021), nos quais, em síntese, falar é em si mesma a ação — um contraponto aos atos perlocucionários, em que a linguagem é um meio utilizado para realizar determinadas ações. 

Ainda para Butler (2021), o discurso ofensivo perpetra ativamente a dominação e concretiza o poder do dominante, que por meio da linguagem atua no sentido de constituir o dominado — o destinatário do ataque —, que, subordinado, pode ver-se definido pela ofensa. Enunciar algo, assim, tem potencial não apenas de ferir, como de reforçar hierarquias pré-concebidas social, política e economicamente.

Os episódios de violência simbólica podem se configurar, portanto, como formas ou tentativas de dominação e manutenção da estrutura social e de poder. Porém, não se trata de uma opressão meramente individual. Xingamentos e discursos odiosos direcionados a uma pessoa não são exatamente particulares e específicos. Eles, na verdade, estão endereçados à coletividade da qual aquele destinatário faz parte (Silva, 2016). 

Schäfer, Leivas e Santos (2015, p.149-150) nomeiam possíveis motivações para ofensas odiosas: idade, sexo, orientação sexual, identidade e expressão de gênero, idioma, religião, identidade cultural, opinião política ou de outra natureza, origem social, posição socioeconômica, nível educacional, condição de migrante, refugiado, repatriado, apátrida ou deslocado interno, deficiência, característica genética, estado de saúde física ou mental, inclusive infectocontagioso, e condição psíquica incapacitante, ou qualquer outra condição.

A enumeração sinaliza para as especificidades jurídicas e aponta para as potencialidades de aplicabilidade do conceito. Contudo, há de se fazer ressalvas: o discurso de ódio não se conforma contra qualquer tipo de destinatário. Ele não se manifesta, por exemplo, contra populações hegemônicas, mas apenas contra grupos e/ou sujeitos (que representam grupos) vulnerabilizados.

Além disso, nem sempre o discurso de ódio se manifesta de forma clara e direta. A partir de uma abordagem jurídica e anterior à popularização das mídias sociais, Rosenfeld (2001) faz observações que continuam atuais. Ele distingue o discurso de ódio explícito (hate speech in form) do discurso de ódio velado (hate speech in substance). Em resumo, o primeiro diz respeito aos episódios em que a intolerância é evidente; já o segundo trata dos casos de violência velada.

Todas essas definições fazem emergir o conceito de interseccionalidade, essencial para este estudo. A investigação tem como ponto de partida a compreensão de que o discurso de ódio contra Marta é que uma expressão interseccional de diferentes opressões, por se tratar de uma mulher, nordestina, LGBT e negra.

Originalmente, o conceito de interseccionalidade foi cunhado pela pesquisadora estadunidense Kimberlé Crenshaw (1989), no âmbito da discussão jurídica. Em resumo, a estudiosa, a partir da análise de três casos judiciais, alerta para a necessidade de compreender como raça e gênero são questões intimamente relacionadas e devem assim ser tratadas. Embora o termo “interseccionalidade” tenha sido cunhado oficialmente por Crenshaw, o conceito em si já era trabalhado de diferentes formas por outras pesquisadoras, inclusive no Brasil. Em meio à emergência do movimento negro unificado e dos movimentos feministas durante os anos 1980, Lélia Gonzalez já tratava das relações das diferentes opressões (neste caso, de classe, raça e gênero) na sociedade brasileira, abordagem na qual se aprofundou nos anos seguintes.

O contexto inicial, aplicado às mulheres negras, expandiu-se e passou a dar conta de outras opressões. Não se trata, contudo, da simples adição de desigualdades, mas da complexa interação entre as categorias e a forma como esse entrecruzamento se dá a ver nas relações sociais. 

As mensagens odiosas

Na análise, selecionamos 100 comentários a uma postagem feita justamente em 10 de agosto de 2024, dia da final, pelo perfil no Instagram da TNT Sports.

A escolha se deve a dois principais motivos: 1) O teor da postagem, que é uma resposta de Marta às críticas que já haviam se espalhado nos dias anteriores à final; 2) A quantidade de respostas (9.403 até o dia 26 de abril de 2025, data final de observação), maior número entre as publicações coletadas.

A postagem conta com uma foto da jogadora ostentando orgulhosamente a medalha de prata olímpica e um áudio dela, gravado em entrevista logo após a derrota para os Estados Unidos, em tom de desabafo contra os críticos (ouça acima). A partir daí, selecionamos 100 comentários, entre os com mais curtidas e respostas.

A partir da leitura dos 100 comentários, criamos de forma indutiva uma lista com nove categorias e categorizamos cada mensagem com base nas estratégias tradicionais da análise de conteúdo (Bardin, 1997). 

TABELA 1

Categorias e ocorrência

Nome da categoriaBreve descriçãoOcorrência
Ridicularização dos feitos de Marta/humorEssa categoria reúne mensagens que ridicularizam os feitos da atleta, assim como usam do humor para atacá-la.36
Incômodo com como Marta se expressaMensagens que atacam Marta pelo modo como ela se expressa, argumentando que a jogadora fala demais, é lacradora, vitimista, chorona.30
Argumento esportivoArgumentos esportivos usam o resultado ruim da final para corroborar a ideia de que Marta não joga nada, nunca ganhou nada na seleção e que no geral atrapalhou o time.22
Argumento políticoArgumentos políticos apareceram atrelados a mensagens que se incomodavam com o modo como Marta se expressa. Mas além de criticarem ela “por falar demais”, estas mensagens associavam esse tipo de comportamento a um posicionamento político de esquerda de Marta.17
Comparação com o masculinoEssas mensagens lançam mão de exemplos do futebol masculino, frequentemente comparando Marta a Neymar e em menor grau a outros jogadores como Pelé e Romário.17
Argumento etaristaEsse argumento em geral descarta Marta como uma atleta que tenha a contribuir para a seleção em função da idade.8
Argumento misógino explícitoArgumentos misóginos explícitos objetificam mulheres, recomendam que elas exerçam papéis femininos tradicionais e/ou simplesmente atacam o futebol feminino sem grandes explicações.8
Não pode criticarEste tipo de mensagem ataca Marta por ela, supostamente, não aceitar críticas ao futebol feminino. 7
OutrosMensagens que não se encaixam nas outras categorias2

FONTE – OS AUTORES, 2025.

A categoria com mais incidência no conjunto de dados é a de “Ridicularização dos feitos de Marta/humor”. É importante destacar que Marta, na ocasião, se despedia da seleção brasileira de futebol feminino e, apesar de ser considerada por muitos no Brasil e internacionalmente, a melhor jogadora de futebol de todos os tempos e estar fechando seu ciclo com mais uma medalha olímpica, ainda assim foi ridicularizada de diversas formas. Muitas mensagens questionavam o status de “rainha”, dizendo que ela não possuía um trono ou coroa. Várias mensagens faziam piada das três medalhas de prata, dizendo que ela poderia “montar um faqueiro”, “virar caçadora de vampiros” ou derreter as medalhas e “fazer pulseira da Pandora”. Outras mensagens faziam indagações retóricas: ganhou o quê?

Em alguns casos, a piada vinha atrelada à categoria “Comparação com o masculino”. É o caso do post que dá nome a este artigo que brincava com as discrepâncias salariais das modalidades: “Ô Marta, pode chorar o teu salário é um relógio do Neymar 🎶”. Em outros casos, a comparação com o masculino não se associava com o humor, mas com a categoria “Não pode criticar”, como no caso de mensagens que também falavam de Neymar, destacando que ele é duramente criticado, mas que Marta não aceita uma crítica sequer: “Ficou brava por uma vez que criticaram ela, Neymar sofre com isso a 15 anos”. 

A categoria “Argumento esportivo” é a terceira que mais aparece e, por vezes, está associada às comparações com o futebol masculino e à ridicularização aos feitos de Marta. Neste caso, as mensagens se enquadram no discurso de ódio velado, que cumprem o papel de reforçar o ataque disfarçadas de argumentos supostamente técnicos. São exemplos mensagens como: “Deve sim! Principalmente vc, não jogou bossta nenhuma, teve uma expulsão ridícula e pipocou na final!” e “Pra quem falou que o problema da seleção era a Marta, você estar certo 👍🏻”.

Chamou a atenção na análise a quantidade de mensagens que pareciam dizer de um incômodo de quem atacava Marta com o modo como a atleta se expressa. Foram muitas mensagens que basicamente diziam que a jogadora fala demais: “Na hora de lacrar, é bom né 👍🏻” e “Craque em falar merda”. Atrelada a essas mensagens estavam sentidos que associavam esse tipo de comportamento a um posicionamento político de esquerda de Marta ou uma intenção de se envolver na política formal: “Marta , próxima deputada do petê, anotem!”, “Nasce agora uma blogueira militante”. 

Por fim, vale detalhar as mensagens explicitamente misóginas e etaristas. No caso da misoginia, ela aparece no discurso que objetifica mulheres do futebol, recomenda que elas exerçam papéis femininos tradicionais e/ou simplesmente atacam o futebol feminino sem grandes explicações. O “lavar louça” aparece para demarcar o que esses usuários esperam de Marta: um retorno ao ambiente doméstico, focado nos afazeres da casa, tarefas consideradas por eles de natureza feminina: “Aaaaaa pia tá cheia de louça” e “Se usasse o choro pra lavar a louça terminaria rapidinho”. Nessa categoria também se encaixam as mensagens que basicamente chamam Marta de feia e as mulheres estadunidenses de bonitas, num ataque misógino e racista, já que fica implícito que a valorização das jogadoras dos EUA se deve ao perfil racial do time: “As mulheres mais lindas ganharam o ouro 😂🙌”. 

No caso do etarismo, ele aparece nas mensagens que desprezam as possíveis contribuições de Marta à seleção em virtude da idade: ela é considerada velha demais. Alguns exemplos: “Só no futebol feminino pra ter uma atleta com 832 anos na ativa” e “Foda é ter que aturar essa idosa na Copa do Mundo feminino em 2025”.

Considerações finais

Nossos achados indicam que Marta é atacada por um discurso de ódio interseccional, que articula ao menos argumentos baseados em gênero, raça e idade. Mas, mais que ataques a Marta, o discurso odioso se trata de uma ofensiva àquilo que ela representa: mulheres periféricas que ousam tensionar a ordem de gênero instituída. Nesse sentido, o humor aparece como um grande aliado de quem ataca. A “brincadeira” se configura quase como um “escudo”, pois protege aqueles que propagam o ódio, afinal, não há por que se ofender, já que se trata apenas de uma “piada”. A despeito do contexto desfavorável, Marta reitera constantemente um posicionamento, que, direta ou indiretamente, combate o ódio e não representa unicamente um discurso individual, mas sim uma posição que simboliza os grupos que ela representa naquele ambiente.

Referências 

BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 1977.

BUTLER, Judith. Discurso de ódio: uma política do performativo. São Paulo: Editora UNESP, 2021.

CRENSHAW, Kimberlé. Demarginalizing the intersection of race and sex: A black feminist critique of antidiscrimination doctrine, feminist theory and antiracist politics. In: Feminist legal theories. Routledge, 2013. p. 23-51.

ROSENFELD, Michel. Hate speech in constitutional jurisprudence: a comparative analysis. Public Law Research Paper, n. 41, Cardozo Law School, abr. 2001.

SCHÄFER, Gilberto; LEIVAS, Paulo Gilberto Cogo; SANTOS, Rodrigo Hamilton dos. Discurso de ódio: da abordagem conceitual ao discurso parlamentar. RIL Brasília a. 52 n. 207 jul./set. 2015 p. 143-158.

SILVA, Yane Marcelle Pereira. “Esses nordestinos…”: discurso de ódio em redes sociais da internet na eleição presidencial de 2014. 2016. [149] f., il. Dissertação (Mestrado em Direitos Humanos e Cidadania) — Universidade de Brasília, Brasília, 2016.

Deixe um comentário