Por Laura Parreira (@lauraparreirars), Maria Luiza (@malumouraf) e Vítor Martins (@_vitorgmartins).
Ficha técnica
Título: A Guerra dos Sexos
Ano de produção: 2017
Direção: Valerie Faris e Jonathan Dayton
Duração: 122 minutos
Classificação: 12 anos
Gênero: Biografia; Drama; Comédia; Esporte
Países de Origem: Inglaterra e EUA
Onde assistir: Star Plus
– Introdução e contexto do filme:
O machismo é intrínseco à sociedade, graças à estrutura patriarcal consolidada ao longo dos séculos. Ele também é uma das maiores pautas das últimas décadas, com debates acalorados. E um dos marcos nessas discussões aconteceu em 1973.
O cenário nos EUA era de um conservadorismo enorme em paralelo ao crescimento do movimento feminista. Nesse contexto, “A Batalha dos Sexos” se deu como um acontecimento na história da luta pela igualdade entre os gêneros no esporte.
Bobby Riggs, autodenominado “porco chauvinista”, ex-tenista de 55 anos, desafiava qualquer mulher a ganhar dele, na tentativa de mostrar a inferioridade delas diante dos homens. E uma das mulheres a aceitar o desafio foi a então tenista de destaque na modalidade Billie Jean King, de 29 anos, ativista na luta contra a desigualdade salarial entre os sexos no esporte. É nesse cenário histórico, até culminar no grande jogo, que se passa o filme ‘A Guerra dos Sexos’.
Após se indignar ao descobrir o quão menor era o salário das mulheres em relação ao dos homens num torneio importante que seria disputado em Los Angeles, a tenista líder do ranking mundial, Billie Jean King, se recusa a participar e decide promover seu próprio torneio feminino em boicote, liderando um grupo de várias tenistas que aceitaram a proposta. Esse fato fez com que elas fossem expulsas da US Lawn Tennis Association, e, consequentemente, impedidas de participar de torneios importantes como Wimbledon.
Ao longo do torneio promovido por ela, Bobby Riggs, um ex-tenista campeão, faz uma série de provocações e ataques verbais às mulheres e desafia qualquer mulher a derrotá-lo na quadra. Billie, então, aceita o desafio após a derrota de Margareth Court para Riggs e num duelo em 1973 vence o ex-tenista.

O filme, no entanto, se concentra mais nas questões ao redor do grande jogo – que só é mostrado no final. É retratado como a ‘Batalha dos Sexos’ representa coisas diferentes para Billie e Bobby. Para ele, é uma questão de reviver as glórias do passado, se sentir importante novamente e conquistar mais dinheiro. Já para ela, é uma questão de representatividade, de mostrar que as mulheres são capazes e de garantir seus direitos. Ambos são enlaçados pelo grande circo da mídia ao mesmo tempo em que tentam resolver seus problemas pessoais. Em paralelo, Billie Jean King questiona sua sexualidade e seu casamento, e Bobby tenta salvar a relação com seu filho mais velho e sua esposa, em crise pelo seu vício em apostas.
– Quem foi Billie Jean King e Bobby Riggs?
A protagonista da história Billie Jean King, nascida Billie Jean Moffitt, é uma ex-tenista estadunidense, considerada uma das maiores atletas femininas de todos os tempos. Acumulou dezenas de prêmios ao longo dos anos e, desde 1987, é membro do International Tennis Hall of Fame. Além disso, Billie Jean é conhecida por ser uma grande defensora da igualdade salarial e de premiações no esporte e na sociedade, além de ser uma ativista pelos direitos das mulheres e da comunidade LGBTQIAPN+.
Ela aprendeu a jogar tênis nas quadras públicas de Long Beach, Califórnia. Em 1955, aos 12 anos, foi barrada de uma foto oficial de um torneio juvenil por usar shorts, e não as saias usadas por mulheres na época. Em 1959, com 15 anos, disputou seu primeiro Grand Slam, o US Open, perdendo para Justina Bricka na primeira rodada. Após alguns anos, ela conquistou seu 1º título de simples em Grand Slams em Wimbledon em 1966, vencendo a brasileira Maria Esther Bueno. Um ano antes, Billie Jean e Maria Esther foram campeãs de duplas em Wimbledon. Entre 1961 e 1983, a estadunidense esteve presente em 63 finais de Grand Slam. Ao todo, ela obteve 12 títulos e 6 vices nas simples, 16 títulos e 13 vices nas duplas femininas, e 11 títulos e 7 vices nas duplas mistas. Nas simples, ela foi hexacampeã em Wimbledon, tetra no US Open e completou os quatro Grand Slams com 1 título de simples no Australian Open e outro em Roland Garros.
Em 1965, Billie Jean Moffitt, tornou-se Billie Jean King após se casar com Lawrence King. Ela afirma que foi percebendo seu interesse por mulheres depois de alguns anos de casamento, e manteve um relacionamento íntimo com Marilyn Barnett no início dos anos 1970, que foi revelado ao público por meio de um processo judicial nos anos 1980. Billie Jean sofreu inúmeros preconceitos desde o episódio, e relatou inclusive, esse preconceito por parte da família, que era conservadora.
Billie Jean divorciou-se de Larry em 1987. Como descrito no final do filme, ela e a atual companheira Ilana Kloss são madrinhas dos filhos dele com Nancy King – esposa atual de Larry. Até hoje, a história de Billie Jean inspira várias pessoas ao redor do mundo a serem quem são e a lutarem por seus direitos.
Outro personagem central da trama é o controverso Bobby Riggs. No filme, ele é retratado com uma certa dualidade, na sua faceta pessoal. É um pai carinhoso que enfrenta problemas no casamento devido a problemas relacionados a apostas. Já fora de casa, principalmente perante a mídia, ele se autodenomina ‘porco chauvinista’ – o termo chauvinista se refere à supervalorização das características físicas e culturais relacionadas ao sexo masculino. Mas qual a história de Bobby antes da ‘Batalha dos Sexos’?
Robert Larimore Riggs, mais conhecido como Bobby Riggs, foi um tenista profissional estadunidense que teve o auge da carreira no final da década de 1930.
Riggs nasceu em Los Angeles, começou a jogar tênis aos 11 anos de idade, aos 16 anos já era o 5º jogador júnior do ranking dos Estados Unidos e aos 17 venceu o Campeonato Nacional Júnior. Aos 18 anos, em 1936, ele conquistou o US Clay Court Championship em Chicago. No All England Club, Riggs conquistou os três títulos e venceu o Campeonato Nacional dos EUA em 1939 e 1941.
Quando começou sua carreira profissional, se sentindo atraído pelo dinheiro, ganhou três campeonatos e foi finalista em outros três (1940 US Pro; 1948 US Pro; 1949 Wembley Pro). Teve vitórias profissionais sobre lendas do jogo, mas quase duas décadas jogando, ele voltou sua atenção para a promoção do tênis, e construiu o legado final em partidas contra Court e King. No jogo contra Margareth Court, ele acabou vencendo a australiana no episódio conhecido como ‘Massacre do Dia das Mães’, no entanto, foi derrotado na conhecida ‘Batalha dos Sexos’ por Billie Jean King. Anos mais tarde, King e Riggs tornaram-se amigos, as repercussões da partida foram perdoadas e foi relatado que eles conversaram alguns dias antes da morte dele por câncer em 1995.
Ele foi casado com Catherine Fisher de 1939 a 1951 e com Priscilla Wheelan de 1952 a 1971. Ao todo teve 5 filhos. Em 1991, reatou o relacionamento com Priscilla e permaneceram juntos até o final de sua vida. Ele também é membro do International Tennis Hall of Fame desde 1967.
-Representatividade para além do filme
O longa traz à tona elementos recorrentes de uma sociedade machista e patriarcal como era o mundo nos anos 1970. Há um óbvio rebaixamento das mulheres a uma posição de servidão e inferioridade perante os homens, reforçado por personagens como Jack Kramer e o próprio Bobby Riggs, interpretados brilhantemente por Bill Pullman e Steve Carell, respectivamente.
Em diversos momentos da trama, podemos ver como King era sexualizada enquanto atleta e forçada a cumprir determinadas predefinições do que deveria ser uma mulher dos anos 1970, esteticamente, em personalidade e em atitudes. Em um momento, o narrador do jogo entre King e Riggs afirma que se mudasse seu visual, a tenista seria cotada para Hollywood. Em outro, ele diz que ela andava como um homem, não como uma mulher.
É perceptível também como a luta pela igualdade entre homens e mulheres é sempre colocada em cheque durante o filme. Alegações de que o jogo de tênis feminino não é tão atrativo e bom de se assistir quanto o masculino e que King perderia para Riggs por não ser tão forte quanto ele são comuns durante a trama e são usadas como justificativa plausível para as mulheres receberem menos que os homens.
Nesse período, como mencionado, o mundo vivia o auge da chamada segunda onda do movimento feminista, que ocorreu entre as décadas de 1950 e 1990, e que trazia questionamentos justamente acerca das desigualdades salariais e a divisão sexual dentro do mercado de trabalho, haja vista que muitas áreas, incluindo os esportes, de uma maneira geral, eram vistas como ambientes onde havia, ou deveria haver predomínio masculino.
Além da luta pela igualdade salarial, King, que se assumiu lésbica em 1988, 15 anos após o jogo, se vê questionando sua própria sexualidade durante toda a trama. Na época, ela tinha um relacionamento com Marilyn Barnett e sabia das consequências que teria caso esse relacionamento vazasse para a mídia. A posição de liderança no ativismo pelo direito das mulheres e a própria aceitação como lésbica, num contexto conservador dos Estados Unidos, jogou muita pressão na tenista, e essa pressão sentida pela ex-jogadora é notável através da atuação de Emma Stone.
Soa clichê, mas King sabia que aquilo “não era apenas um jogo”, era um símbolo de lutas muito maiores. Ao final, é dita uma das frases mais marcantes do longa: “Um dia, vamos ser livres para ser quem somos e amar quem amamos”. A tenista ajudou no aumento da visibilidade e da inclusão social da comunidade LGBT, e fez parte de conselhos, como o da Elton John AIDS Foundation.
A partida de tênis entre Billie Jean King e Bobby Riggs carregou e carrega diversos significados e simbologias. Intitulado como “Guerra dos sexos” não à toa, ambos os competidores representavam algo. Billie era naquele momento algo além do esporte feminino, era também um simbolo do feminismo, o rosto de uma bandeira que em 1973, em plena “segunda onda” do movimeno feminista, quando a luta já tinha propiciado ás mulheres o direito de votar, agora era pautada pelos esforços em superar a discriminaçao sofrida por mulheres em áreas historicamente dominadas e monopolizadas por homens, como nesse caso o esporte.
Para Billie Jean, aquele jogo representava muito mais do que uma possível vitória e um caminhão de dinheiro em prêmios. Para ela, aquele jogo era a oportunidade de conquista de direitos para as mulheres no torneio de tênis mais renomado da América, o US Open. Significava igualdade salarial independente do gênero e reconhecimento do tênis feminino. Para além do grande espetáculo e jogadas de marketing que rondavam o evento, o jogo que teve um público mundial de 90 milhões de pessoas, tornando-se o evento esportivo televisionado mais assistido à época, parou o mundo do esporte e atraiu públicos fora dele para ver a guerra de ideais em conflito na sociedade, o feminismo contra o machismo.
O fato é que a “Guerra dos sexos” se tornou um símbolo na luta no esporte e Billie Jean King conquistou feitos imensuráveis para o tênis feminino. Além da igualdade salarial, Billie e outras tenistas consagradas da época criaram a Women’s Tennis Association (WTA), fundada em uma reunião organizada por King, uma semana antes do Torneio de Wimbledon de 1973. A WTA é a principal associação esportiva internacional que organiza as competições de tênis profissionais femininas no mundo inteiro até os dias de hoje.
-Nos dias de hoje
Em comemoração aos 50 anos da conquista, Billie Jean king publicou em suas redes sociais:
“Hoje marca o 50º aniversário da Batalha dos Sexos, a partida de tênis em que joguei e derrotei o ex-campeão de tênis Bobby Riggs no Houston Astrodome.
Jogamos diante de um público mundial de 90 milhões de pessoas, e a partida se tornou o evento esportivo televisionado mais assistido de todos os tempos.
A vitória foi muito mais do que tênis. Tornou-se um dos momentos marcantes do movimento feminino, um dos momentos mais impactantes no esporte e um dos dias mais importantes da minha vida. Percorremos um longo caminho desde 1973 e tenho gostado de ver as atletas femininas de hoje viverem os sonhos da minha geração.Mas nós ainda não acabamos. O trabalho continua até hoje e cada um de nós pode ajudar. Vamos continuar em frente.”
A lendária tenista americana conquistou o primeiro grande feito em relação à igualdade de gênero no tênis e assim abriu a porta para novas conquistas. Por exemplo, o torneio de Wimbledon era o único Grand Slam a não aderir a igualdade salarial até 2007. Isso mudou após pressão de outra lenda do tênis, Serena Williams.
Cinquenta anos após a batalha dos sexos, discursos de superioridade masculina, falta de rentabilidade e ocupação de estádios ainda são usados como argumentos para a diminuição da mulher no esporte. E, em contrapartida, a final feminina do US Open deste ano entre a jovem estadunidense Coco Gauff e a então n. 1 do mundo, a bielorrussa Aryna Sabalenka, foi a final feminina do torneio mais assistida na história da ESPN nos EUA, com 3.4 milhões de espectadores (a final masculina de 2023 entre Novak Djokovic e Daniil Medvedev teve apenas 2.3 milhões de espectadores).

