Por Ana Mascarenhas, Lívia Boscatti, Vinícius Brito
FICHA TÉCNICA
Título: I, Tonya (Eu, Tonya)
Ano de produção: 2017
Direção: Craig Gillespie
Duração: 120 minutos
Classificação: 12 anos
Gênero: Biografia, Drama, Esporte
País de origem: EUA
Onde assistir: Netflix
Eu, Tonya (em inglês original I, Tonya, 2017) filme dirigido por Craig Gillespie e estrelado por Margot Robbie no papel principal, é um longa biográfico que relata a história da ex-patinadora artística estadunidense Tonya Harding. Vencedora do Skate America e do Nations Cup em 1990, Harding ficou mundialmente conhecida por ser a primeira mulher dos EUA a completar o triplo Axel em uma apresentação e, também, por ser considerada a atleta da patinação artística mais emblemática e controversa do país. Personagem de uma das maiores polêmicas do esporte, Harding foi acusada de estar envolvida na agressão de Nancy Kerrigan, uma de suas principais concorrentes, em 1994. Kerrigan foi agredida por dois homens durante um treinamento e teve as duas pernas quebradas.
Nascida em 12 de novembro de 1970, em Oregon, Tonya Harding cresceu em uma família bastante conturbada. Ainda muito nova, foi abandonada pelo pai e criada por sua mãe. Vítima de muito abuso em relacionamentos, tanto familiares quanto amorosos, Tonya, para o público e grande parte dos jurados nas competições, não tinha uma família americana perfeita para representar o país em campeonatos mundiais. No filme, interpretada por Allison Janney, a matriarca LaVona Harding é retratada como uma figura agressiva e de grande influência na vida pessoal e profissional da filha.
“Minha mãe me bate. E ela me ama.”Outro forte personagem no convívio da patinadora, é seu ex-marido Jeff Gillooly (Sebastian Stan). Em diversas cenas de Eu, Tonya, Gillooly é visto agredindo a ex-esposa de forma física e verbal. Os dois chegam a se divorciar, mas Harding, pressionada a ter uma reputação de “família americana saudável” tenta se reconciliar com o ex-marido. Em outro momento, o homem chega a ameaçar a patinadora em sua casa com uma arma, mesmo já tendo medidas protetivas.

Jeff foi acusado de ser um dos conspiradores da agressão a Kerrigan o que, no filme, é mostrado como uma maneira de retratação com Tonya. O nome de Gillooly foi colocado entre a polêmica devido às falas de Shawn Eckardt em relação ao ocorrido.
Pressões de Gênero na Patinação Artística
A narrativa do filme também permeia as questões de gênero na patinação artística e como elas influenciaram a carreira de Tonya. A disciplina, elegância e a imagem são características tradicionalmente associadas ao esporte, exigindo das atletas femininas padrões rígidos de conformidade que condizem com o que seria a mulher ideal para a patinação. A pressão para se encaixar nesses moldes pode ser opressiva e prejudicar a carreira de atletas com grande potencial, como no caso de Harding.
De origem humilde, família desestruturada e sem condições financeiras e emocionais para acompanhar o padrão de princesa do gelo esperado pela patinação, Tonya era considerada o “patinho feio” da modalidade. Com cabelo, figurino, unhas, maquiagem, linguajar e atitudes “inapropriadas” para o esporte, Tonya tinha sua performance atlética desvalorizada em virtude das questões de imagem, o que lhe causava grande revolta, visto que, no quesito técnico ela se destacava e era superior a maioria de suas concorrentes.
“Um esporte onde os juízes querem que você seja essa versão caricata do que as mulheres deviam ser.”
Sentença de morte
O ataque a Nancy Kerrigan, considerada uma de suas principais rivais, gerou uma cobertura midiática intensa e levou Tonya, seu ex-marido Jeff Gillooly, seu guarda-costas Shawn Eckardt e outros envolvidos no planejamento e execução do ataque a julgamento. Harding admitiu ter conhecimento de uma conspiração de Jeff para remover sua competição, mas alegou não estar diretamente envolvida no planejamento da agressão.
No tribunal, Tonya recebeu uma sentença que incluía 3 anos de liberdade condicional, multas, serviço comunitário e seu banimento da patinação artística profissional, o que encerrou sua carreira de atleta. Por outro lado, Gillooly, que estava diretamente envolvido no planejamento do ataque foi condenado a cumprir 18 meses de prisão.
A diferença na condenação de Tonya e Jeff levanta questões sobre como o sistema legal tratou de forma mais branda um homem comprovadamente envolvido em um crime em comparação com uma mulher que não havia prova da culpa além das versões dos outros envolvidos. A mídia, como retratado no filme, teve papel crucial na construção de Harding como a grande vilã da história, se aproveitando de sua imagem já negativa na patinação, fator que possivelmente influenciou sua sentença.
“Eu não sou ninguém se não puder patinar. É como se estivesse me dando uma sentença de morte.”
Banida do esporte ao qual se dedicou durante a maior parte de sua vida, sem estudos e com a reputação manchada, Harding se viu com opções limitadas de trabalho. Primeiro, Tonya tentou entrar no cenário musical com sua banda, os Golden Blades. Sem sucesso e com recorrentes demonstrações de ódio pelo público, a ex-patinadora olímpica viu no boxe uma oportunidade para seguir com sua carreira como atleta.
Com poucas lutas no currículo e sem grandes conquistas, Tonya nunca alcançou o alto nível no novo esporte, de forma que, a narrativa predominante era sempre a retomada de seu passado sombrio na patinação. Entretanto, o boxe se tornou, de certa forma, um refúgio para Harding, visto que, a mídia que cobre o esporte e o público que o consome pareceram aceitar Tonya e seu passado.
Diante disso, é interessante refletir como o boxe tem exigências para o sexo feminino diferentes das presentes na patinação artística. Por se tratar de um esporte classificado por muitos como violento, é esperado que as atletas da modalidade apresentem menos traços comumente associados à feminilidade. Por isso, o porte físico mais forte e as maneiras de agir menos polidas de Harding encontraram um lugar em que tais características correspondiam às expectativas. Talvez, pela primeira vez em sua vida, Tonya não foi o patinho feio.

