Por Pedro Augusto Pereira
Ficha técnica:
Título: Heartstopper
Ano de produção: 2022 (8 episódios)
Criação: Alice Oseman
Direção: Euros Lyn
Duração: 30 minutos por episódio (média)
Classificação: 12 anos
Gênero: Drama romântico
Países de Origem: Reino Unido
Onde assistir: Netflix
A série Heartstopper é uma produção original da Netflix que traz uma adaptação da série de quadrinhos de mesmo nome escrita por Alice Oseman e publicada tanto online (apenas no idioma original: inglês) quanto em coletâneas em forma de livro (com tradução para diversos idiomas, inclusive português brasileiro). A primeira temporada estreou na plataforma Netflix em 2022 e desde então é uma unanimidade nos reviews dos críticos do site Rotten Tomatoes, mantendo 100% de críticas positivas, e com o índice de 96% de aprovação da audiência (números referentes ao acesso em 21 jun. 2023).
Heartstopper traz uma história no estilo “garoto encontra garoto” (boy meets boy) centrada nos adolescentes britânicos Charlie Spring (Joe Locke) e Nick Nelson (Kit Connor) que se conhecem e se apaixonam num colégio exclusivo para rapazes. Charlie é um rapaz gay, assumido, que foi “tirado do armário” no ano anterior ao início da história e foi vítima de bullying e homofobia de colegas da escola, ele toca bateria e é o melhor corredor da sua turma de Educação Física. Já Nick é a estrela do time do rugby da escola, muito popular, e que ao longo da série se descobre bissexual a partir de sua atração por Charlie.
Representatividade é uma palavra comumente associada a Heartstopper. A maior parte das personagens da série são LGBTI+ – há inclusive uma cena em que Tao Xu (William Gao), amigo de Charlie, refere-se a si mesmo como o “amigo hétero token”, querendo dizer que ele é o único heterossexual cisgênero do grupo de amigos – e Alice Oseman é uma pessoa não-binária e assexual. Além disso, os conflitos na série não estão centrados puramente na homofobia e na transfobia, ainda que esses elementos estejam presentes na narrativa, e as personagens LGBTI+ existem para além de sua sexualidade e identidade de gênero.
Nick e Charlie se conhecendo na sala de aula em Heartstopper

Disponível em: https://www.instagram.com/p/Cow8CWHoZzc/ Acesso em: 21 jun. 2023.
Charlie e Nick se conhecem no primeiro episódio e ficam interessados um no outro logo de cara, embora haja a suposição de que Nick seja hétero. Os amigos de Charlie, Tao, Elle (Yasmin Finney) e Isaac (Tobie Donovan), o desencorajam a tentar qualquer coisa com Nick, pois todos estão certos da heterossexualidade do jogador de rugby; Elle chega a dizer a Charlie que Nick é “a pessoa mais hétero” que ela já viu na vida. No entanto, é mostrado ao público desde o início que Nick também está interessado em Charlie. Tal interesse é confirmado nas cenas finais da série, após Nick contar à mãe que namora Charlie e que é bissexual, quando ele diz a ela que começou a gostar de Charlie muito antes de passarem a sair juntos e posteriormente namorar. Essa declaração é seguida por uma retrospectiva de momentos anteriores da série que ilustram o fato de Nick já estar gostando de Charlie.
Um questionamento possível na narrativa da série é: seria o fato de Nick ser a estrela do time de rugby da escola um dos elementos que causariam tanta certeza de sua heterossexualidade entre os colegas?
A relação das personagens da série com modalidades esportivas é um elemento narrativo forte em Heartstopper, ainda que esta não seja uma série focada no esporte. Os alunos do Truham (colégio exclusivo para rapazes onde Charlie e Nick estudam) têm nos esportes uma forma de socialização importante, e que se estende para além das práticas esportivas em si, como é típico em filmes e séries adolescentes ambientadas em escolas. Os atletas de rubgy, por exemplo, são os alunos mais populares do colégio e formam um núcleo coeso de garotos – todos apontados como héteros – que estão quase sempre juntos, o que inclui Nick.
Por outro lado, personagens apontados como “excluídos”, ou ao menos não tão populares, estão distantes da prática esportiva da escola. Esse é o caso do grupo de amigos de Charlie, em especial de Tao. As interações entre os dois grupos de personagens sempre acontecem de forma tensa, permeada por bullying da parte dos jogadores de rugby – com exceção de Nick – em direção a Charlie e Tao. O esporte, o rugby, aparece de alguma forma como um definidor de hierarquias entre os grupos de alunos e como identificador do grupo de bullies (os que fazem bullying), chamados por Charlie e seus amigos frequentemente de rugby lads ou rugby boys, ou seja, os rapazes/garotos do rugby, dando centralidade ao esporte.
Dois mundos colidindo
Durante uma prática do time do rugby, Nick observa por um instante a uma aula de Educação Física da turma de Charlie em que este aparece correndo muito à frente dos outros colegas na pista. Enquanto os alunos correm, a professora de Educação Física, a Treinadora Singh (Chetna Pandya), que também treina o time de rugby, grita para todos que até agora ninguém conseguiu bater o tempo de Charlie na pista.
Logo depois disso, Nick aborda Charlie em um corredor e o convida para fazer parte do time de rugby. Ele diz que o time precisa de mais atletas para atingir o número mínimo de jogadores para poder participar do campeonato estudantil e que ficou impressionado com a performance de Charlie na pista de corrida.
Contrariando os conselhos dos amigos, Charlie aceita a proposta de Nick e se junta ao time de rugby, mesmo se achando muito “pequeno e fraco” para o esporte. Ao chegar ao vestiário do time, Charlie escuta a conversa dos atletas por trás da porta, enquanto todos questionam Nick a respeito da participação de Charlie no time. Harry, o principal dos bullies do grupo, chega a dizer que ainda que eles saibam que o time não tem grandes chances de estar entre os melhores no campeonato eles ainda querem ser decentes, querendo dizer que a presença de Charlie dificultaria isso. O mesmo Harry questiona Nick em tom de deboche: “Ele [Charlie] ao menos gosta de esportes? Todo mundo sabe que ele é gay.”
Cena da chegada de Charlie ao vestiário do time de rugby pela primeira vez

Disponível em: https://www.instagram.com/p/Cow8CWHoZzc/ Acesso em: 21 jun. 2023.
Nesta última fala de Harry, ser gay e gostar de esportes são colocados como opostos absolutos, como se fosse impossível uma pessoa gay gostar de esportes. O questionamento da escolha de Nick em convidar Charlie para o time não passa pela aptidão esportiva de Charlie, o fato de ele ser o melhor corredor de sua turma sequer é mencionado, apenas sua orientação sexual. Também este primeiro momento demarca o rugby, para os alunos, como um espaço de hétero e viril, onde não caberia um aluno gay “pequeno e fraco”. Além disso, é o time de rugby que precisa de Charlie, ainda que como reserva, para ser autorizado a competir e mesmo assim há resistência óbvia dos jogadores à sua inclusão no time.
Segundo Gustavo Bandeira e Fernando Seffner (2013, p. 249) há uma associação entre as construções de masculinidades e os esportes, pois ao “aprender a jogar ou torcer não se aprende apenas como executar essas práticas da melhor forma possível, mas se ingressa em uma instituição repleta de significados” e são esses significados referentes à construção da masculinidade que entram em cena a partir dos conflitos da entrada de Charlie no time no time de rugby.
Muitos gays são bons em esportes
Já namorando Nick em segredo e ainda participando do time de rugby Charlie é informado de que precisará jogar uma partida contra outra escola como titular, efetivamente entrar em campo pela primeira vez, pois outro aluno não poderá comparecer. Mesmo após acompanhar os treinos, inicialmente totalmente excluído por todos, exceto por Nick e aos poucos ser incluído em dinâmicas coletivas do time – como abraços coletivos de comemoração – Charlie continuava apenas à beira do campo nos jogos e constantemente falhando em exercícios nos treinos, tendo dificuldade em agarrar a bola e desviando de jogadores que vinham em sua direção em vez de tentar derrubá-los como é orientado.
Logo após dar a notícia a Charlie de que ele terá de jogar a próxima partida, a treinadora demonstra preocupação com ele, pergunta se estará bem para jogar e busca orientá-lo em relação ao tackle (derrubar o adversário no rugby). Segundo ela o segredo do tackle é se jogar sem se preocupar em se machucar, o que ela assinala que é “uma questão de confiança”. Charlie responde dizendo: “É difícil ser confiante quando todos me veem como o típico gay que é ruim em esportes”. A resposta da treinadora Singh, uma mulher lésbica, é: muitos gays são bons em esportes.
Fica indicado que parte da dificuldade de Charlie em desenvolver habilidades relacionadas a esportes está no ambiente hostil da prática esportiva – especialmente longe dos olhos da treinadora. Ainda que o rugby seja um esporte de contato, que necessite de força física da parte dos atletas para derrubarem uns aos outros em campo, o que sempre é destacado em relação a Charlie pelos colegas não é que ele seja fraco demais para o esporte e sim o fato dele ser gay. A hostilidade dos garotos do rugby não está pautada por aptidão esportiva ou não, mas por um ideal de masculinidade heterossexual viril entre eles, no qual Charlie não se encaixa. Parece impossível para os adolescentes que um garoto gay possa ter qualquer capacidade para um “esporte de homem” como o rugby.
Uma das cenas em Harry e os garotos do rugby provoca Tao, amigo de Charlie

Disponível em: https://www.instagram.com/p/CoXBh4yNfak/ Acesso em: 21 jun. 2023.
Na série, embora quase ninguém conheça de fato as regras do rugby, o que é sempre citado na forma de piadas ao longo de vários episódios, há sinais de que o esporte opera como um demarcador de masculinidade de virilidade entre os adolescentes, seja pela exclusão e hostilidade ao garoto gay ou pelo reforço aparente à suposta heterossexualidade de Nick oferecido por ele praticar o rugby e ser muito bom nele.
Determinados esportes sempre parecem contribuir para a construção e compreensão de ideias de masculinidade e virilidade, ainda que haja variação entre contextos diferentes e nacionalidades diferentes. No Brasil, o futebol é o caso mais emblemático de esporte absolutamente associado à macheza e à heterossexualidade, como apontam diferentes autores e autoras do campo dos estudos de esporte, como por exemplo Ana Carolina Vimeiro e colegas (no prelo), Vagner Prado e Arilda Ribeiro (2010) e Gustavo Bandeira e Fernando Seffner (2013), apenas para citar alguns textos consultados para essa resenha. Alguns esportes estão atrelados à masculinidade viril e o ideal de masculinidade viril está relacionado à homofobia. Mesmo que quase ninguém saiba as regras do rugby em Heartstopper, todo mundo sabe que é um esporte de “machos”.
No caso específico de Charlie na série, não há nenhum tipo de narrativa de superação em que ele se torne um jogador habilidoso de rugby. Na partida em que tem de jogar como titular, realizada contra um colégio especializado em esportes cujo time é composto por garotos muito maiores e mais fortes que os do Truham, ele acaba se machucando ao tentar se jogar para derrubar (realizar um tackle) um adversário que aparenta ter o dobro de seu peso – afinal apenas querer ou ter confiança não é suficiente.
Charlie acaba se retirando do time de rugby alguns episódios depois, mas ele não faz isso para fugir da homofobia dos colegas, como a treinador Singh chega a lhe perguntar quando ele diz que quer sair do time, mas porque ele efetivamente não quer participar do time de rugby. Afinal, participar de times e práticas esportivas não é uma obrigação masculina, ainda que as vezes possa parecer que seja (BANDEIRA; SEFNER, 2013).
Uma pergunta que fica no ar para as próximas temporadas de Heartstopper (a segunda tem estreia marcada para o dia 3 de ago. de 2023) em relação ao esporte na série é: como a escola e os garotos do rugby lidarão com a descoberta de que Nick também não é heterossexual e namora Charlie? Que reação terão os garotos do rugby diante da bissexualidade da estrela do time? Parafraseando a treinadora Singh: muitas pessoas LGBTI+ são boas em esportes e desejam participar do ambiente esportivo – como o Nick de Heartstopper – e por mais que o esporte frequentemente se relacione à superação de limites, com certeza um ambiente hostil homofóbico não deveria ser um deles. Heartstopper se propõe a tratar temas “espinhosos” de forma leve e cuidadosa e, ao que parece, na série televisiva, mais do que nos quadrinhos originais, a relação entre esporte, masculinidades e sexualidades pode ser mais um desses temas.
REFERÊNCIAS
BANDEIRA, Gustavo Andrada; SEFFNER, Fernando. Futebol, gênero, masculinidade e homofobia: um jogo dentro do jogo. Espaço Plural, v. 14, n. 29, p. 246-270, 2013
PRADO, Vagner Matias do; RIBEIRO, Arilda Inês Miranda. Gêneros, sexualidades e Educação Física escolar: um início de conversa. Motriz, Rio Claro, v. 16 n. 2 p. 402-4013, abr./jun. 2010.
VIMIEIRO, A. C.; EUGENIO, F. R.; PILAR, O. Estudos sobre mídia, gênero e esporte: narrativas do futebol feminino e algumas propostas. No prelo.

