Por Viviane da Silva
Ficha técnica
Título: Cheer (Original) – 1ª temporada
Ano de produção: 2020
Direção: Arielle Kilker, Chelsea Yamell e Greg Whiteley
Duração: 6 episódios com duração média de 60 minutos
Classificação: 16 anos
Gênero: Documentário, Drama, Esporte, Show
Países de Origem: EUA
Onde assistir: Netflix
“Cheer” é uma produção documental da Netflix, tendo sido feita no formato de série e em 2 temporadas, lançadas respectivamente em 2020 e 2022. As temporadas giram em torno da rotina de cheerleaders e seu treinamento intenso para competição de nível universitário National Cheer Game, que ocorre na cidade de Daytona Beach – Flórida/EUA. No geral, “Cheer” propõe mostrar ao público que cheerleading (esporte de torcida) é uma modalidade que exige muito esforço físico e técnica, contrapondo a visão superficial e hollywoodiana de um esporte de garotas populares e más, que ficam quase sempre à sombra dos jogos masculinos de basquete e futebol americano.
A série mostra-se bem sucedida nesse objetivo, conseguindo transmitir o nível de dificuldade de execução que é exigido dos atletas nesse esporte, principalmente, por terem que competir entre si para ocuparem as poucas vagas das competições oficiais, como no caso de Daytona, apenas 20 são escolhidos entre 40 ingressantes da equipe. A série também transparece as várias dificuldades sociais vivenciadas no universo de cheerleading: as questões financeiras, por ser uma modalidade muito elitizada que exige um alto custo para participação; as questões de gênero, pela cobrança de padrão de beleza e comportamento para as mulheres; as vulnerabilidades das mulheres e de menores de idade em relação à violência e abuso. Inclusive, a segunda temporada de “Cheer” acontece em meio a polêmicas que reacendem essas discussões no esporte, ao nos depararmos com escândalos envolvendo abusos sexuais por integrantes da equipe.
A primeira temporada é focada nos treinos e competições da Universidade Navarro, localizada em Corsicana, Texas, ao qual o time de torcida é comandado por Mônica Aldama, treinadora chamada de rainha por ter vencido diversos campeonatos consecutivos com a equipe. A série traz várias representações sobre Mônica: uma mulher profissional, exigente e detalhista, mas também uma mãe de uma família que se considera conservadora em relação aos valores cristãos e americanos, o que segundo ela não a impede de defender a diversidade existente em sua equipe.
Ao longo dos episódios Mônica é confrontada com problemas pessoais de alguns atletas, o que exige uma postura firme, mas que em muitos momentos a série coloca como uma postura de mãe. Integrantes que possuem uma história mais difícil e uma ausência de estrutura familiar, como Morgan, La’Darius e Lexi, projetam na treinadora uma figura materna capaz de ser dura, mas também de ouvir e ser suporte nas dificuldades que excedem a rotina dos treinos. Essas dificuldades mostradas da vida particular dos atletas quebram um imaginário de perfeição dos cheerleaders, que sempre mostram uma imagem positiva e sorridente. A performance corporal e facial são aspectos importantes desse esporte, o que fica muito evidente na segunda temporada, quando existe uma cobrança maior dos treinadores neste sentido.
O tamanho do sucesso da primeira temporada de “Cheer” se traduziu em diversos prêmios, rendeu entrevistas como no famoso programa The Ellen DeGeneres Show, apresentado por Ellen Degeneres e participações em comerciais. Essa publicidade teve um impacto tão grande que passa a exigir dos atletas um envolvimento maior com campanhas publicitárias e engajamento nas redes sociais, uma preocupação que aparece por parte do estudante e assistente Kapena Kea, ao falar na 2º temporada da série, ele se questiona o quanto esse novo momento pode desviar o foco da equipe na competição de Daytona.
Foto promocional da Série, com a imagem da pirâmide feita pela Equipe Navarro, uma das atividades mais difíceis de se fazer no esporte

Acesso em: 18 Jun 2023.
A segunda temporada continua acompanhando a equipe da Universidade de Navarro, mas também passa a acompanhar a equipe rival da Faculdade Trinity Valley, localizada em Atenas, no Condado de Henderson/EUA, comandada pelo treinador Vontae Johnson. A equipe de Vontae, como é chamado na série, é destrinchada em relação à vida particular de alguns integrantes, exibindo também dificuldades financeiras e familiares. Além disso, a equipe sempre está em constante pressão, mais do que a equipe de Navarro, pois Vontae quer a todo custo trazer uma vitória para a faculdade.
Cheerleading, pelo que apresenta a série, é um esporte que exige muito mais das mulheres, no sentido de que é fundamental a técnica e uma boa performance, mas também a aparência. Em alguns momentos da primeira temporada, Mônica deixa claro que a escolha das cheerleaders que se apresentarão na competição pode ter relação com a aparência, porque seria algo que conta para os juízes, então ainda que determinada participante tenha desempenho melhor, a outra seria escolhida por conta de sua performance e beleza. A questão das roupas, um questionamento que não é exclusivo desse esporte, também aparece: shorts curtos e marcados, maiôs e camisetas curtas que mostram a barriga, além da maquiagem carregada, enquanto os homens usam roupas mais confortáveis como bermudas e camisetas.
Isso nos faz pensar nas discussões da pesquisadora Silvana Vilodre Goellner e Johanna Coelho Von Mühlen (2012), que analisam o site Terra e as representações de masculinidade e feminilidade no jogos de Pequim em 2008, acerca do termo “musa” utilizado para se referir às mulheres no esporte por conta de padrões de beleza. Faz sentido compreender isso a partir do que vemos na série, visto que em algumas entrevistas com moradores de Corsicana o Cheer ainda não era muito bem compreendido e a visão superficial das líderes corresponde ao imaginário de beleza, pois as cheerleaders representam um ideário americano de felicidade e graciosidade. Para serem musas, precisam de beleza e sensualidade, que fica acima da conquista esportiva (MÜHLEN e GOELLNER, 2012).
O interessante acerca dessa questão de vestimenta e beleza é que na segunda temporada tem uma cena específica de treino que um dos cheerleaders fala que a maneira como as meninas se vestem representa a força da mulher, Monica repete a frase e reforça que ela deveria ser utilizada mais vezes. A partir dessa cena é mostrada uma sequência de imagens das líderes se arrumando e reforçando o pensamento de que a postura e a vestimenta representam o poder feminino. Nesse sentido, as reflexões da pesquisadora Kim Toffoletti (2016), que discute sobre pós feminismo e como são feitas as representações de atletas mulheres pelas mídias, ajudam a compreender a ambiguidade dessas representações das cheerleaders mulheres, que são objetificadas e que estão no lugar de uma representação de força e sensualidade. Além disso, são muitas vezes enquadradas no papel heteronormativo feminino, principalmente, de mãe, como é o caso da treinadora Monica, que tem sempre seu trabalho vinculado às qualidades da figura materna.
Curioso perceber que essa feminilidade posta para o Cheerleading não é algo que nasceu nesse esporte, pois segundo Hanson (1995) ele era masculino e passou a compor mulheres no início do século XIX, durante Primeira Guerra Mundial, se modificando ao longo do tempo quando passa a receber homens novamente nas equipes. Atualmente, ainda é um esporte considerado essencialmente feminino, como exemplificado por um relato de um morador no documentário, que se repreende ao falar “são ótimas garotas e corrige “não posso dizer ‘garotas’ tem homens também”. Nesse contexto de mudanças, observamos que alguns integrantes homens ficam resistentes à certas atividades do Cheer, além da existência de um certo desconforto em relação às performances por parte de participantes homens e heterossexuais da equipe de Trinity Valley, eles aparecerem em algumas cenas não conseguindo se expressar a contento nas performances que são exigidas nas competições, pois possuem receio dos julgamentos que receberão se performarem determinadas coreografias.
A segunda temporada da série é atravessada por uma acusação de pedofilia e abuso sexual, cometido por um dos integrantes mais emblemáticos da primeira temporada: Jerry Harris, da Universidade Navarro. A história pessoal do Cheerleader e sua atuação nos treinos, sempre animadores, conquistaram os espectadores da série. Tendo sido uma figura emblemática, sua prisão ganhou grande repercussão na mídia, impactando a equipe que tinha uma ligação muito próxima com Jerry e a produção de “Cheer”. A segunda temporada dedicou um episódio inteiro para falar do caso, trazendo voz também às vítimas. Essa situação ajuda a refletir sobre a vulnerabilidade das mulheres e de menores de idade no esporte, no que se refere a violências cometidas por membros mais velhos e técnicos, pois Jerry não foi o único caso, o cheerleader Mitchell Ryan e o cheerleader/técnico Robert Joseph Scianna, que participaram da série, também foram acusados de pornografia infantil e abuso de menores[1].
É importante que a série não tenha escondido esses casos e tenha dedicado um episódio para falar dos acontecimentos, ainda que o foco tenha sido Jerry. De modo geral, “Cheer” se mostra relevante ao buscar contribuir para um entendimento de que cheerleading é um esporte independente e complexo, além de trazer discussões sobre a superficialidade ainda presente no imaginário da população americana e tenta quebrar alguns estereótipos sobre não ser considerado um esporte e ser apenas de mulheres. No entanto, ela acaba por reforçar uma posição superficial das mulheres no esporte, ao não questionar de forma enfática falas problemáticas acerca da exigência de uma feminilidade e do sucesso feminino em cargos de liderança ainda estarem atrelados à valores e competências maternas e não profissionais e técnicas.
Não foi confirmado se haverá uma terceira temporada da série, apenas rumores que aconteceram logo após o lançamento da segunda temporada, em 2022. Não há como afirmar nada, pois apesar de seu estrondoso sucesso em 2020, os escândalos envolvendo o lançamento da segunda temporada podem ter afetado uma possível renovação de “Cheer”.
REFERÊNCIAS
Hanson, Mary Ellen. Go! Fight! Win! Cheerleading in American Culture. Bowling Green State University Popular Press, United States, 1995, 172 p.
MÜHLEN, Johanna Coelho Von; GOELLNER, Silvana Vilodre. Jogos de gênero em Pequim 2008: representações de feminilidades e masculinidades (re)produzidas pelo site Terra. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, v. 34, n. 1, p. 165-184, 2012.
TOFFOLETTI, Kim. Analyzing media representations of sportswomen—Expanding the conceptual boundaries using a postfeminist sensibility. Sociology of Sport Journal, v. 33, n. 3, p. 199-207, 2016.
UOL. Famosos por série da Netflix, homens são acusados de abuso de menores, Splash, 2021. Disponível em:https://www.uol.com.br/splash/noticias/2021/02/06/famosos-por-serie-da-netflix-atores-sao-presos-por-abuso-de-menores.htm?cmpid=copiaecola. Acesso em 18 Jun. 2023.
[1] Disponível em: https://www.uol.com.br/splash/noticias/2021/02/06/famosos-por-serie-da-netflix-atores-sao-presos-por-abuso-de-menores.htm?cmpid=copiaecola. Acesso em 18 Jun 2023.

