por Olívia Pilar (@oliviapilar_)*
Ficha técnica
Título: Women of Troy
Ano de produção: 2020
Direção: Alison Ellwood
Duração: 59 minutos
Classificação: 14 anos
Gênero: Documentário
País de Origem: EUA
Women of Troy é um documentário produzido pela HBO Sports que apresenta um pouco da história e da importância do time de basquete feminino da University of Southern California (USC) na década de 1980 – o título da produção remete ao nome dado aos times/atletas que representam a universidade, os USC Trojans. Dividido em duas partes – AC, Antes de Cheryl Miller; BC, depois de Cheryl Miller – o filme narra a virada do basquete feminino nos Estados Unidos a partir da história da jogadora Cheryl Miller, que atuou pela USC entre 1982-1986 como ala e foi tetracampeã da National Collegiate Athletic Association (NCAA).
Trailer de Women of Troy
A produção começa com uma analogia, contada pela locutora Doris Sable Burke, ao comparar a importância de Cheryl Miller para o basquete feminino com a importância de Michael Jordan para o basquete masculino. Com um porém: depois de ser a sensação da competição universitária por quatro temporadas e considerada a maior atleta da modalidade na época, Cheryl sofre uma grave contusão que a tirou das quadras para sempre, aos 22 anos. Doris Sable Burke pergunta: e se Michael Jordan, após fazer 63 pontos, se contunde e nunca mais o vimos jogar?
Ainda que a contusão da atleta apareça detalhada mais para o fim do documentário, a produção é muito mais sobre os feitos de Cheryl e suas companheiras de time do que sobre o fim precoce de sua carreira. Narrado através de entrevistas atuais com as jogadoras do USC Trojans e imagens da década de 1980, conhecemos não só Cheryl Miller – e sua ambição, seu desejo de ser a maior e sua facilidade com as câmeras ainda tão jovem –, mas também outras atletas que não só foram influenciadas pelo talento de Cheryl como também tinham sua própria dose de genialidade e construíram juntas os campeonatos vencidos pelo USC Trojans.
Pam McGee e Paula McGee destacam, ao início da produção, que o time era especial, pioneiro e que foram responsáveis por abrir caminho para a criação da liga feminina de basquete profissional nos EUA.
Time campeão da NCAA em 1983

Fonte: USC Athletics/USC Trojans.
Disponível em: https://usctrojans.com/sports/2020/7/6/usc-trojans-womens-basketball-national-ncaa-championships.aspx. Acesso em: 26 mai. 2023.
Cheryl Miller, Cynthia Cooper, Juliette Robinson, Rhonda Windham, Pam McGee e sua irmã gêmea Paula McGee, são as atletas da USC Trojans entrevistadas em conjunto com jogadoras de outros times, fãs e jornalistas. Apesar de todo o documentário girar ao redor da mística de Cheryl Miller, as demais atletas também têm seu tempo de tela, como as gêmeas e, em especial, Cynthia Cooper. Todas mulheres negras que, em determinado momento, comentam sobre questões de raça e gênero na universidade e na comunidade não acadêmica.
Destacamos três momentos em específico que nos aproximam dos estudos de esporte e gênero. O primeiro em que Cheryl Miller conta sobre seus anos iniciais, em que queria praticar basquete com o time masculino e o técnico não permitia, ele considerava o ato dela como “interessante e bonitinho”. Posteriormente, o então técnico a desafiou “se vencer meu filho em um jogo, a coloco no time”. Cheryl conta que venceu o time todo, por 21 a 1, e mesmo assim não entrou no time. Essa fala destaca a dúvida que sempre recai sobre o talento de atletas mulheres, não importa se são as melhores (como a jogadora brasileira de futebol, Marta), elas ainda serão inferiores aos homens.
O segundo momento em que as jogadoras do USC Trojans levantam a pauta sobre serem mulheres negras que estão em uma universidade, mas também em um time de basquete e em como isso fez com que os que estão de fora as questionassem. Elas destacam que enfrentavam questões de gênero, mas também de raça. Frases como “mas vocês são diferentes”, ditas por ex-alunos, foram o que ouviram. Elas, entretanto, não se viam diferentes de outras pessoas negras. Cabe destacar o que isso diz de expectativas sobre o Outro, em especial quando esses discursos atuam sobre mulheres negras. Juliette Robinson aponta que a percepção sobre elas era diferente, mas que eram tão negras quanto a comunidade externa da USC, apenas vivendo em um ambiente que também era novo para elas.
As imagens de controle (Collins, 2019) – representações que são utilizadas como justificativa para diversas opressões – que recaem sobre mulheres negras são sempre negativas e isso diz muito sobre o que a frase “vocês são diferentes” pode implicar. Além disso, essas mulheres estão na intersecção de dois marcadores, gênero e raça, em uma época em que mulheres atletas eram pouco protagonistas, o peso sobre elas, que buscavam ser protagonistas, era diferente. O conceito de interseccionalidade se torna relevante para encararmos como diversos processos atuam de forma diferente a depender dos marcadores que atuam sobre os sujeitos (CRENSHAW, 1989, 1990, 2022, 2018).
O terceiro momento, mais ao final do documentário, é quando se aproxima da formatura dessas mulheres, em um período pós-Olimpíadas de 1986. Na época, não existia uma Liga profissional de basquete feminino, como existia a NBA, portanto para aquelas que desejassem continuar a praticar o basquete em nível profissional, o único destino seria deixar os EUA. É o que acontece com Cynthia Cooper, que joga na Itália por 10 anos, e retorna aos EUA para atuar na recém-criada Women’s National Basketball Association (WNBA) por volta de 1996.
A falta de uma liga profissional destaca o descaso das instituições com modalidades femininas, parecido com o que ocorreu no Brasil durante a proibição da prática de diversos esportes por mulheres, o caso mais conhecido sendo o futebol feminino. Essa desigualdade cria a impossibilidade de comparação entre o esporte praticado por homens e o esporte praticado por mulheres, ainda que as mulheres sejam cobradas na mesma medida até mesmo entre vitórias – mas especialmente nas derrotas.
Ainda no AC (Antes de Cheryl Miller), é nesse momento que é narrada o fim da carreira da protagonista do documentário. Nas palavras da própria Cheryl, em um período pós-formatura, ela jogou futebol com alguns grupos e, em sua última partida, se lesionou. Aos 22 anos chegava o fim da carreira da mulher que é considerada, por todos os entrevistados do documentário, como a maior atleta do basquete feminino dos EUA.
Nos parece, e é o que a narrativa do documentário busca transmitir, que é posteriormente a Cheryl e a seleção olímpica de basquete feminino de 1996, que a modalidade ganha atenção suficiente para a criação de uma liga profissional, como já ocorria com o basquete masculino há anos. Fazemos um adendo de que, apesar de compreender a relevância de Cheryl, seu talento e a forma como seu jogo parece ter mudado toda a dinâmica da modalidade, acrescentamos que seu legado foi construído também em conjunto.
É o caso de Cynthia Cooper, ex-companheira de time de Cheryl – que lá atrás chegou a desistir do basquete quando seu irmão faleceu – que ao retornar para os EUA fez parte do extinto Houston Comets, campeão por quatro vezes consecutivas, e foi eleita a jogadora mais valiosa da liga por dois anos. A própria Cynthia chega a lamentar a falta de Cheryl como jogadora da liga e o quão longe ela poderia ter chegado – uma lesão que, hoje, não a aposentaria.
Um outro destaque para o documentário é que há toda uma apresentação sobre o cenário esportivo para as mulheres atletas nos EUA na década de 1970 e início da década de 1980, como a implementação do Title IX, nome dado a uma lei federal do país que proíbe a discriminação de sexo na educação (escolas ou programas escolares). Também somos apresentados à jogadora Ann Meyers, percussora no basquete feminino, sendo a primeira atleta mulher a receber uma bolsa atlética universitária, em 1974.
Apesar de ser um documentário muito centrado no que eles consideram como ineditismo dos esportes estadunidenses, o que é comum quando se trata de suas produções que sempre exaltam seus próprios ídolos, Women of Troy é bem interessante e traz muitas vozes e perspectivas sobre uma mesma época e uma mesma jogadora, e como uma só pessoa pode mudar tudo. Além disso, é sempre interessante ver produções em que mulheres negras ganham destaques por seus feitos.
Referências
COLLINS, P. H.. Pensamento feminista negro: conhecimento, consciência e a política do empoderamento. São Paulo: Boitempo, 2019.
CRENSHAW, K.. Demarginalizing the Intersection of Race and Sex: A Black Feminist Critique of Antidiscrimination Doctrine, Feminist Theory and Antiracist Politics. The University of Chicago Legal Forum, v. 1989, p. 139-167, 1989.
CRENSHAW, K.. Mapping the margins: Intersectionality, identity politics, and violence against women of color. Stan. L. Rev., v. 43, p. 1241, 1990.
CRENSHAW, K.. Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação racial relativos ao gênero. Revista Estudos Feministas, ano 10, n. 1, p. 171-188, 2002.
CRENSHAW, K.. A urgência da “interseccionalidade”. 2016. 1 vídeo (18 min. e 42 seg.). Vídeo da palestra no evento Technology, Entertainment and Design (TEDWomen 2016). Disponível em: http://bit.ly/2FX0Ecs. Acesso em: 29 de mai. 2018.
* Olívia Pilar é mestre e doutoranda em Comunicação pela UFMG. É também escritora e integra o Coletivo Marta.

