Resenha: Mergulho e as relações abusivas entre técnico e atletas mulheres

por João Vítor Marques (@jvnmarques)*

Ficha técnica

Título: Mergulho / La Caída
Ano de produção: 2022
Direção: Lucía Puenzo
Duração: 94 minutos
Classificação: 16 anos
Gênero: Drama; Esportes
Países de Origem: México, Argentina e EUA
Onde assistir: Prime Video

Do alto da plataforma, Mariel Saenz (Karla Souza) salta em queda livre às águas que a aprisionam em Mergulho (La Caída), longa-metragem mexicano original do Prime Video. A angústia que lhe consome desde a cena inicial é um misto de aflição pelas constantes dores – tão costumeiras quanto trágicas para atletas de alto rendimento – e apreensão pela proximidade dos Jogos de Atenas, em 2004. Na Grécia, ela teria a última oportunidade de conquistar o ouro olímpico nos saltos ornamentais, mas o sonho seria brutalmente consumido pelas lembranças de abusos físicos, sexuais e psicológicos cometidos pelo treinador Braulio Peralta (Hernán Mendoza).

Trailer do filme ‘Mergulho’, do Prime Video

Fonte: Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=iSo7H2jERnE. Acesso em: 17 junho 2023.

O drama dirigido pela diretora argentina Lucía Puenzo é baseado na história real da ex-saltadora mexicana Azul Almazán, finalista em Sydney 2000, quando tinha apenas 18 anos. Enquanto se preparava para a Olimpíada seguinte, a atleta denunciou o treinador Francisco Rueda por assédio e abuso psicológico. Na época, foram necessárias várias acusações de outras atletas para que a Federação Mexicana de Natação o expulsasse do quadro de técnicos. Rueda, então, saiu do país e se casou com Laura Sánchez, uma das mulheres que ele, segundo a denúncia, abusou.

No filme, Mariel é interpretada por Karla Souza, conhecida pelo papel de Laurel Castillo na premiada série de televisão estadunidense How To Get Away With Murder. A atriz mexicana sofreu abuso e encontrou no cinema uma oportunidade de lidar com os próprios traumas. Nesse processo, recorreu ao esporte e decidiu levar à frente a história de Azul Almazán. Treinou saltos ornamentais durante cinco anos até se sentir pronta para dar vida à personagem.

Em uma atuação visceral, Karla Souza vive a solidão de uma saltadora de 30 anos em reta final de carreira que rememora, em uma espécie de redescoberta de um passado esquecido, os abusos sofridos na adolescência. Para isso, vê-se diante de uma versão mais jovem de si: a talentosa Nadia (Dèja Ebergenyi), de apenas 14 anos, com quem faria dupla em Atenas. No caminho aos Jogos, descobre que a garota é a nova vítima de Braulio.

A busca de Mariel pela medalha de ouro mais de uma década após o bronze em Barcelona 1992 se torna pano de fundo de uma história que reflete a perversa dominação de treinadores homens sobre meninas e mulheres que vivem o esporte. No filme, o comando do técnico não se impõe apenas no ambiente de treinos e competições, mas também em aspectos da vida pessoal e sexual das saltadoras – das mais novas às mais experientes. Braulio assume o controle de relações tipicamente abusivas com as atletas: ao mesmo tempo em que violenta física e sexualmente, apela para chantagens que as mantêm caladas durante muito tempo. Quando enfim consegue falar, são desacreditadas por quem julga – essencialmente homens.

Ao analisar a ligação entre integrar equipes esportivas e a violência contra mulheres, o pesquisador Todd Crosset (2000) lista fatores que tornam a impunidade uma constante no ambiente esportivo. O apoio de pares e o institucional a agressores estão entre os motivos – e aparecem claramente no filme, em cenas em que Braulio inicialmente é inocentado das acusações de abuso. Ao suporte profissional aos agressores, soma-se o familiar.

Outra linha de investigação relacionada ao apoio de pares explora o apoio institucional que atletas recebem depois que as mulheres relatam um abuso. O apoio institucional tende a culpar as mulheres e falha em responsabilizar os atletas (técnico, neste caso) ​​por suas ações (CROSSET, 2000, p. 158, tradução livre).

Mariel, à esquerda, vê a própria história se repetir com Nádia, à direita

Foto: Divulgação/Prime Video
Fonte: https://www.primevideo.com/. Acesso em: 17 junho 2023.

A história segue o roteiro de tantas outras denúncias recentes de abusos sexuais no esporte. Em 2021, a lenda da ginástica estadunidense Simone Biles depôs no Senado sobre os episódios de assédio do treinador Larry Nassar – acusado por quase 150 pessoas -, em caso que ganhou manchetes pelo mundo. Nos saltos ornamentais, uma série de denúncias levou o técnico Will Bohonyi a ser condenado a quatro anos de prisão nos EUA por coagir atletas a realizar atos sexuais. No Brasil, o técnico de ginástica Fernando Lopes está em julgamento por estupro de vulnerável com agravante de relação de poder sobre as vítimas. A ex-nadadora Joanna Maranhão, uma das principais referências dos esportes aquáticos no país, revelou ter sido abusada por um treinador quando tinha apenas nove anos.

A quantidade de casos deixa claro que não se tratam de episódios isolados, mas sim de um problema estrutural amplo que reflete as relações de gênero. Em vasta revisão bibliográfica de pesquisas realizadas em diferentes países sobre assédio e abuso sexual no esporte, os portugueses Miguel Nery e Carlos Neto, da Universidade de Lisboa, sistematizam cientificamente percepções já cristalizadas socialmente: as violências desse tipo são majoritariamente de homens contra mulheres.

O AAS (assédio e abuso sexual) no desporto tem sido documentado de forma sistemática, com semelhanças consideráveis entre os dados recolhidos junto de atletas de diferentes países (Leahy, 2014). O assédio sexual está presente em todas as modalidades, e em todos os níveis de competição. Os atletas são sujeitos a assédio tanto por parte de outros atletas, mas também por parte de elementos da equipa técnica, nomeadamente treinadores, responsáveis, massagistas, entre outros (Fasting, Brackenridge, Sundgot-Borgen, 2013). Os comportamentos de assédio e abuso sexual incidem sobre atletas de ambos os géneros. No entanto, as raparigas estão mais frequentemente sujeitas a assédio sexual por parte dos homens, e os atletas do sexo masculino tendem a desempenhar mais frequentemente o papel de agressores do que atletas do sexo feminino (Fasting et. al., 2011).  As situações de abuso sexual no desporto tendem a envolver manipulação da vítima, que acaba por se sentir aprisionada pelo agressor (Marks Mountjoy & Marcus, 2012) (NERY e NETO, 2018, p.3).

A relação entre técnico e atleta fica ainda mais desequilibrada ao se considerar as questões de gênero. No esporte, o resultado final – ou seja, vencer um título, ganhar uma medalha – é tido como justificativa para os meios, sejam eles quais forem. Essa dinâmica abre precedentes para abusos físicos, sexuais e psicológicos, agravados quando as vítimas são crianças ou adolescentes. As violências são recorrentes em diferentes contextos e distintos esportes e causam traumas que perduram ao longo de uma vida toda – como demonstra Mariel, que luta não apenas contra dores do passado, mas também as do presente.

Sucesso de crítica no México e na Argentina, Mergulho é honesto ao descrever a jornada não-linear da protagonista no processo de deixar de acreditar no treinador e redescobrir os traumas que sofreu desde a adolescência. Passa longe, porém, de ser um filme fácil. Toca em feridas abertas e trata de questões que fatalmente causarão desconforto a quem assistir, já que, embora o faça de forma sutil, é um longa que trata diretamente de abusos sexuais e psicológicos. É uma montanha russa-emocional, como explica a diretora Lucía Puenzo em entrevista ao El País.

Tínhamos claro que para além do tema, que é tão forte nesta história, o que nos importava era que quem assistisse entendesse a ferocidade e a complexidade destas estruturas de abuso, que muitas vezes tendem a ser simplificadas e, por isso, às vezes caem em personagens estereotipados (PUENZO, 2022, tradução livre).

Mergulho nos tira o conforto e, ainda que repita padrões em determinados pontos, propõe uma abordagem mais complexificada das estruturas das relações abusivas e da masculinidade tóxica no esporte. No filme, as vítimas se compõem a partir de várias camadas de sentido. Ao mesmo tempo em que é submetida às ordens do treinador, Mariel as confronta e se apresenta, por vezes, como uma mulher autoconfiante e independente. Braulio, por sua vez, não aparece unicamente como um “monstro” isolado em meio a pessoas boas. E é nessa construção complexa de sentidos que o longa ganha corpo.

REFERÊNCIAS

CROSSET, T. Athletic affiliation and violence against women. In: MCKAY, Jim; MESSNER, Michael A.; SABO, Donald (Ed.). Masculinities, gender relations and sport. Sage, 2000, p. 147-161.

NERY, Miguel; NETO, Carlos. Assédio e abuso sexual no desporto: revisão de literatura e guidelines internacionais. In: CONSTANTINO, José Manuel; MACHADO, Maria. Desporto, Género e Sexualidade. Visão e contextos, 2018.

RODRÍGUEZ, Andrés. ‘La caída’, un filme para alcanzar la redención en las sociedades del silencio. El País, 19 dez. 2022. Disponível em: <https://elpais.com/mexico/2022-12-19/la-caida-un-filme-para-alcanzar-la-redencion-en-las-sociedades-del-silencio.html>. Acesso em: 17 jun. 2023.

*João Vítor Marques é jornalista e mestrando em Comunicação pela UFMG. Integra o Coletivo Marta e é subeditor de esportes do Estado de Minas.